Entenda por que falar de bullying nos tempos de hoje não pode ser comparado ao que acontecia há décadas nas escolas. O Dia Nacional de Combate ao Bullying é um alerta para esta violência que têm matado adolescentes
"Você não faz ideia do que é acordar e saber que vai enfrentar tudo de novo na escola." A frase, dita por um dos jovens retratados na série Adolescência, da Netflix, ecoa com a realidade silenciosa de milhares de estudantes no Brasil. Parece que aos poucos - e aos trancos - temos compreendido que falar de bullying em 2025 não é a mesma coisa que na década de 80 ou 90. Estamos falando de uma violência que se esconde sob risos, piadas e exclusões, mas tem provocado dor, sofrimento emocional e, em casos extremos, mortes evitáveis.
Essa violência praticada por alunos, dentro das escolas, ganhou proporções nunca antes vista com a chegada das plataformas digitais. O que anteriormente se restringia ao campo da escola, hoje extrapola os portões e chega aos grupos de whatsapp, redes sociais e até espaços de jogos online. A violência ganhou um alto-falante. É um megafone que nunca é desligado.
Não à toa, o Governo instituiu o dia de hoje, dia 7 de abril, como Dia Nacional de Combate ao Bullying e à Violência na Escola. Além da urgência em falarmos e levar conhecimento sobre o termo e o que significa a prática desta violência entre adolescentes, é preciso pensar em estratégias e políticas públicos para que se promova ambientes de convivência saudáveis dentro das escolas e nas redes sociais.
A escola, espaço este que deveria garantir acolhimento, aprendizado e segurança, tem se tornado, para muitos adolescentes, um campo de batalha psicológico. O bullying - repetitivo, sistemático, muitas vezes invisível aos olhos adultos - está entre as principais causas de sofrimento emocional entre jovens. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, adolescentes que enfrentam bullying com frequência têm quatro vezes mais chance de desenvolver pensamentos suicidas.

O cenário é ainda mais preocupante quando olhamos para os dados: entre 2012 e 2021, o Brasil registrou quase 10 mil suicídios de jovens de 10 a 19 anos, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria. A maioria das mortes ocorre na faixa entre 15 e 19 anos. Em muitos desses casos, a exclusão social, o bullying e o cyberbullying aparecem como gatilhos importantes.
O sofrimento psíquico que nasce da sensação de não pertencer pode ser devastador. Pertencer, para o adolescente, é como o brincar para a criança: essencial para a vitalidade. Um adolescente que se retira das relações sociais é um adolescente que perde sua vitalidade. É como se, aos poucos, ele deixasse de respirar. Sem essa conexão, o adolescente perde o chão - e, por vezes, o sentido da própria vida. Ele adoece e, algumas vezes, chega a cometer suicídio.
Em um dos relatos que chocaram o país, uma jovem de 15 anos tirou a própria vida após ser exposta e humilhada nas redes sociais por colegas da escola. O cancelamento público intensificou um sentimento de isolamento já existente. Casos como esse não são exceção. Uma pesquisa da Universidade de Oxford acompanhou mais de 12 mil adolescentes e revelou que aqueles que sofreram bullying ou exclusão social apresentaram 3,5 vezes mais chances de desenvolver depressão severa.
E esse ciclo de sofrimento, quando não interrompido, pode se espalhar como uma epidemia silenciosa. É o que especialistas chamam de "efeito de contágio": quando um suicídio impacta a comunidade escolar a ponto de provocar outros casos. Daí a importância da intervenção - ações de suporte psicológico e emocional para os estudantes afetados.
Apesar da gravidade do tema, ainda existe confusão sobre o que é bullying, o que é conflito pontual e o que é cyberbullying. "Nada pode ser banalizado, nem tratado de forma irresponsável", alerta a diretora pedagógica Cláudia Tricate Malta, do Colégio Magno. A instituição, localizada em São Paulo, é uma das que têm implementado boas práticas de mediação de conflitos e ações educativas. Ali, o combate ao bullying é feito com escuta ativa, rodas de conversa e estratégias personalizadas de cuidado com os alunos. "Medidas agudas precisam ser entremeadas por muita reflexão e diálogo", afirma Cláudia.
Outro bom exemplo vem de fora do Brasil. Em Portugal, o programa "Escola Sem Bullying. Escola Sem Violência", desenvolvido pelo Ministério da Educação, se tornou referência ao envolver toda a comunidade escolar -- alunos, professores, pais e funcionários -- em ações sistemáticas de prevenção, escuta e intervenção. O programa inclui planos escolares de combate ao bullying e ao cyberbullying, promove formação continuada para educadores e incentiva a cultura do cuidado coletivo.
E mais recentemente, tocado pela série Adolescência e frente aos casos de feminicídio de meninas adolescentes que aconteceram em 2024 na Inglaterra, um grupo de parlamentares entendeu que é preciso levar alguns temas atuais para dentro das escolas como forma de combate ao bullying e o cyberbullying. Entre eles, será implementado a o tema anti-misoginia como aulas obrigatórias do programa "Educação sobre Relacionamento, Sexo e Saúde".
Mas o que pode ser feito de maneira mais ampla?
Medidas preventivas: o que escolas podem (e devem) fazer A prevenção começa com a informação e passa por atitudes concretas. Entre as estratégias mais eficazes, especialistas apontam:
1. Criar políticas claras e canais de denúncia anônimos; 2. Capacitar educadores e funcionários para identificar e intervir; 3. Realizar campanhas contínuas de conscientização com os alunos; 4. Promover atividades que incentivem empatia e respeito mútuo; 5. Estabelecer parcerias com profissionais de saúde mental; 6. Envolver as famílias na construção de uma cultura de paz.
É fundamental lembrar que cada escola tem seu contexto e que nenhuma receita é única. Como afirma Cláudia Tricate, "todo conflito deve ser mediado de acordo com o contexto. As crianças são diferentes, as famílias são diferentes e as situações também."
Sinais de alerta: o que as famílias devem observar Embora nem sempre seja fácil perceber, há sinais importantes que pais e responsáveis devem estar atentos:
1. Mudanças bruscas de comportamento (isolamento, agressividade, apatia); 2. Recusa em ir à escola ou queda repentina no desempenho escolar; 3. Queixas frequentes de dores físicas sem causa aparente; 4. Objetos escolares perdidos ou danificados com frequência; 5. Uso excessivo ou evasivo das redes sociais.
Se algum desses sinais for identificado, o diálogo aberto, o acolhimento e a busca por apoio especializado são os primeiros passos. Nenhum adolescente deve enfrentar essa dor sozinho. A série Adolescência, da Netflix, nos convida a enxergar além do comportamento e a ouvir os silêncios. Porque escutar os jovens é o primeiro ato de cuidado. E promover ambientes seguros, respeitosos e afetivos é um compromisso de toda a sociedade.
Lembra do provérbio "é preciso uma aldeia para cuidar de uma criança"? Pois é, é preciso que essa mesma aldeia se mantenha firma e forte para cuidar de um adolescente.








