Comportamento Adolescente e Educação

Comportamento Adolescente e Educação

Quando um adolescente demonstra sofrimento, o maior erro dos adultos é duvidar

Existe um sofrimento silencioso na adolescência. Algo que é próprio da fase. Mas algo também que pode ser um pedido de ajuda. Como perceber e como ajudar?

PUBLICIDADE

Foto do autor Carolina  Delboni

Existe um sofrimento silencioso na adolescência. Algo que é próprio da fase. Mas algo também que pode ser um pedido de ajuda. Como perceber e como ajudar? Entenda.

PUBLICIDADE

Mudanças de humor, impulsividade, crises de identidade. A adolescência é um território de transição, mas, nos últimos anos, tornou-se também um terreno fértil para o sofrimento psíquico.

O psiquiatra Wagner Gurgel, médico preceptor em Psiquiatria da Infância e Adolescência no Hospital das Clínicas da USP, explica que a adolescência é, biologicamente, uma fase de instabilidade. "O cérebro ainda não amadureceu plenamente. Há um descompasso entre o córtex pré-frontal, responsável pelo autocontrole, e o sistema límbico, que regula as emoções e impulsos. Essa combinação explica comportamentos intensos e, às vezes, impulsivos."

Segundo ele, o desafio está em diferenciar o sofrimento esperado das crises que exigem atenção imediata. "Os sinais de alerta com maior correlação com risco de suicídio são aqueles que representam ruptura com o padrão anterior: o jovem comunicativo que passa a se isolar por semanas, abandona atividades que antes eram prazerosas ou apresenta queda abrupta no desempenho escolar", diz. "Comportamentos de despedida, como presentear objetos significativos ou dizer frases do tipo 'não quero ser um peso', também merecem atenção."

Nem todo desespero, porém, é risco iminente. "Um adolescente que chora muito após um término amoroso ou diz 'quero morrer' durante um conflito familiar não está necessariamente em perigo se mantém vínculos e rotina. A diferença crucial está entre o desespero circunstancial e a desesperança persistente, que muda o comportamento habitual."

Publicidade

Na dúvida, Gurgel recomenda procurar ajuda especializada. "Mesmo sabendo que a adolescência envolve variações emocionais, pais e educadores devem observar a intensidade e duração dessas mudanças. Quando algo foge do padrão, não é drama, é sinal de sofrimento."

De acordo com o Boletim Epidemiológico da Fiocruz (2024), entre 2011 e 2022 a taxa de suicídio entre jovens no Brasil cresceu 6% ao ano, enquanto os casos de autolesão na faixa de 10 a 24 anos aumentaram 29%. Foto Solarus/ adobe Stock  

Entre a escuta e a ação: a urgência de uma rede

Quando um adolescente demonstra sofrimento, o maior erro dos adultos é duvidar ou minimizar o que está sendo dito. "Frases como 'tem gente em situação pior', 'sua vida é boa demais para você reclamar' ou 'é só parar de pensar nisso' fecham o canal de comunicação", diz Gurgel. Isso reforça o sentimento de culpa, como se o jovem fosse ingrato ou fraco, quando, na verdade, ele está pedindo ajuda.

O psiquiatra explica que adolescentes em crise vivem uma ambivalência profunda. "Eles não querem exatamente morrer, querem acabar com a dor. É um pedido para que o sofrimento cesse, não necessariamente a vida." Outro aspecto, segundo ele, é a rigidez de pensamento. "Na crise, a pessoa enxerga apenas o que está à frente, como se o problema fosse definitivo e sem saída. Por isso, a escuta é tão importante, ela amplia o horizonte e devolve alternativas à mente em colapso."

E o que fazer? Fazer perguntas abertas e ouvir de verdade. Perguntar 'como você está se sentindo?' ou 'o que você precisa agora?' pode ser simples, mas tem efeito poderoso. Transmitir esperança sem negar a dor é essencial, mostrar que o sofrimento tem tratamento e que ele não está sozinho."

Publicidade

Falar sobre suicídio não incentiva a ideia, reforça o psiquiatra. "Pelo contrário: falar com clareza reduz o tabu e abre espaço para o diálogo. Fingir que o tema não existe só aprofunda o isolamento."

PUBLICIDADE

Gurgel recomenda que pais e responsáveis não tenham medo de admitir quando não sabem o que dizer. "Ninguém precisa ter todas as respostas. O mais importante é a presença genuína, a disponibilidade de estar junto e buscar ajuda quando necessário."

Para ele, é raro que um adolescente em risco não emita sinais. "O problema é que, muitas vezes, os adultos não sabem escutar ou reagem de forma que faz o jovem se calar. Precisamos reaprender a ouvir e oferecer acolhimento real, sem julgamento."

No Brasil, o desafio é imenso. Faltam serviços especializados, programas de prevenção contínua e capacitação de professores para identificar sinais precoces. "A escola é, muitas vezes, o primeiro espaço onde o sofrimento aparece. Formar educadores para reconhecer mudanças de comportamento e encaminhar para atendimento pode salvar vidas", afirma Gurgel.

A adolescência é, por natureza, uma fase de contradições, mas nunca houve tanta solidão em meio à hiperconexão. É uma geração que vive tudo em voz alta, mas sofre calada. E entre o medo e a esperança, há uma travessia que precisa ser coletiva. Escutar um adolescente com atenção pode até parecer pouco, mas é um gesto imenso. "Às vezes, é justamente isso que o impede de desistir do amanhã", conclui Gurgel.

Publicidade

Se você ou alguém que você conhece precisa de apoio emocional, o CVV (Centro de Valorização da Vida) atende gratuitamente pelo telefone 188 ou em www.cvv.org.br

Serviços do SUS, como os CAPSij, também oferecem acolhimento e atendimento especializado.