
Quando falamos sobre dor em cães e gatos, surgem vários mitos. Todos levam a um lugar comum: o não tratamento de sintomas e descoberta das causas. Enquanto os animais suprimem os sinais de dor, os humanos enchem a boca para julgar como e o quanto os pets estão sofrendo.
Não falo isso somente como tutora, mas como profissional do comportamento. O fato de não haver a disciplina de comportamento na faculdade de medicina-veterinária, faz com que muitos profissionais só validem a dor dos pets, quando eles choram, gritam ou mordem. Porém, antes disso, há muitos outros sinais que o cão ou o gato pode emitir, mostrando desconforto.
Isso não é uma crítica apenas aos vets, não. Aponto o dedo para minha classe, os comportamentalistas, também. Muitos dos adestradores trabalham o comportamento como se ele fosse isolado da saúde do animal. Sem compreender ou avaliar a causa do comportamento, trabalham a reclamação do tutor com receita de bolo. Mas, quando, ao ensinar o famoso senta e deita, o cachorro tem dificuldade para aprender, logo é intitulado como burro. Poucos são os que param para avaliar o motivo da relutante movimentação. Pode, sim, ser uma dor no joelho, quadril, coluna ou mesmo desinteresse no petisco por enjoo.
Eu poderia ficar escrevendo por dias a fio sobre casos que fui atender e passei direto para um veterinário especialista, para avaliar certos sinais, que denotavam dor ou desconforto. Quer alguns?
Caso Alemão
Fui chamada para atender um cão bravo, agressivo, que já tinha atacado todos na casa. Ao longo da consulta algo me chamou atenção. O Alemão andava parecendo que jogava as patas dianteiras para frente, como se chutasse o ar. Então, perguntei à tutora se tinha algum dia que os ataques eram mais intensos. "Sim, quando ele volta da creche e a gente tenta mexer nele" respondeu. Bingo! Era dor!
Para tornar a história curta, o cão super bravo, passou em avaliação com a fisioterapeuta e foi diagnosticado problemas em patas, ombros e coluna. O cão não queria atacar, ele queria pedir espaço por estar sensível, com dor. Não adiantava eu fazer qualquer tipo de tratamento comportamental, já que a questão era física. Ele precisava parar de sentir dor.
Caso Lilly
Mais um caso de cachorro terrível, que atacava senhoras indefesas. Cheguei, conversei, observei e algo acendeu a luz. A cachorra estava acima do peso, mas a tutora falava que ela era muito ruim para comer. De fato, eu tentava dar diferentes tipos de petiscos e a cachorra pegava um pouco, mas logo perdia o interesse.
Resumindo, pedi para a tutora levar a cachorra ao vet gastro. Descobriu-se um sério problema gastrointestinal. Ela tinha enjoos e cólicas intensas. O que diminuía o limitar de tolerância dela e qualquer movimento que a deixasse com medo, era motivo para ataque. Mais uma vez a prioridade era tratar a dor, depois o comportamento. Ao inverter a ordem, só colocaria a cachorrinha em mais sofrimento.
Nada disso eu aprendi em curso de adestramento, comportamento animal, nem mesmo nas palestras de médicos-veterinários. Precisei ler artigos de pesquisadores focados em alinhar dor e comportamento. Um deles, fala que até 70% dos comportamentos indesejados tem fundo de dor ou desconforto. Seja um problema ortopédico, gástrico, dermatológico, neurológico ou até endócrino. Não podemos, em hipótese nenhuma descartar a possibilidade de dor.
A minha sorte foi que uma das alunas desse pesquisador é brasileira e trouxe todo esse conceito de avaliação de dor para o Brasil. Assim, podemos aprender e passar a diante esse conhecimento fundamental para o bem-estar dos pets.
Dor em gatos
Ao falar em dor em cães, até temos alguns sinais. Mas quando falamos de gato, o buraco é muito mais embaixo. Conto a história da minha gata, a Pérola.
Sempre ranzinza, a Pérola reclamava de toda e qualquer aproximação minha e dos outros animais da casa, principalmente quando era o Doritos. Ele não podia nem olhar para ela, que já começavam os gritos. Ela só tolerava contato quando ela vinha procurar. Fiz todo um trabalho comportamental com ela, mas preferi levar ao especialista em felinos. Viramos a gata do avesso e não encontramos nada. Mas já que estava lá, o vet olhou a boca e sugeriu fazermos uma limpeza.
No dia seguinte após a cirurgia, eis a minha surpresa: a gata ficou um veludo. "Deve ser pelos analgésicos", pensei. Que nada! A gata estava com dor de dente. Comia normal, bebia água, pulava e tudo como sempre fez. O único sinal era essa rabugentice dela. Como eu ia imaginar que o problema estava na boca?! Gatos, sendo gatos e escondendo tudo que sentem.
"Quando falamos em dor, principalmente em pets, é preciso estar atento aos sinais que eles nos passam. Não é normal um cachorro ter preguiça de passear, de subir no sofá e até de se alimentar. Por isso, é preciso identificar a origem desses sintomas, que podem ser em decorrência da dor" elucida Emilene Prudente, gerente de produtos pet da Zoetis.
Sabe quais outros comportamentos também denotam dor, e que achamos super normais? Não gostar de ser tocado ou pego no colo, medo de barulho, reatividade a cães e pessoas no passeio, evitar subir escadas ou móveis ou até "errar a mira". É, eu vejo dor, o tempo todo... E você?
Simpósio Dor e Comportamento
Depois de tantos casos, inclusive em casa, de tantas discussões com colegas comportamentalistas e vets, entendi que os profissionais deveriam ter mais acesso a conteúdos sobre dor. Então, me juntei com uma amiga vet e criamos o Simpósio Dor e Comportamento. É uma oportunidade de unir médicos-veterinários e comportamentalistas não veterinários para buscar mais conhecimento, embasado em ciência, para avaliar e tratar a dor.
O evento ocorrerá nos dias 25 e 26 de novembro, na cidade de São Paulo. Podem se inscrever médicos-veterinários, adestradores, pet sitter, passeadores, monitores de creche, consultores e terapeutas comportamentais, groomers e estudantes de medicina-veterinária, biologia, psicologia e zootecnia.
Serão 10 palestrantes de renome no mercado, para garantir que todos os inscritos saibam reconhecer dor, avaliar dor, tratar dor, aliando tudo ao comportamento. Quando comportamentalista e veterinários andam de mãos dadas, há a garantia do bem-estar do animal e de toda família.
Para Karina Toledo, Coordenadora de Marketing Terapêuticos da Elanco, eventos como o Simpósio Dor e Comportamento são fundamentais para a troca de experiências e disseminação de conhecimento sobre as melhores alternativas para tratar a dor dos animais, proporcionando-lhes bem-estar e uma vida longa. "Um dos compromissos da marca é oferecer soluções que permitam aos pets receberem os melhores cuidados possíveis por meio do trabalho com médicos-veterinários e tutores. Trabalhamos continuamente no desenvolvimento de soluções que possibilitem que os animais vivam de maneira saudável e feliz" fala.
O evento conta também com prêmios para o melhor relato de caso envolvendo dor e comportamento. São duas categorias: médicos-veterinários e profissionais não veterinários. O envio dos trabalhos pode ser feito até domingo, dia 12/11, pelo site do simpósio.
"Promover um evento desta magnitude, reunindo especialistas de diversas áreas como ortopedia, fisioterapia e comportamental levanta a conscientização sobre o impacto da dor na vida dos animais, fazendo com que o assunto seja abordado com profissionais da área e tutores para ajudar a identificar e tratar esse problema da melhor forma", finaliza Emilene.
Para mais informações e inscrição, basta acessar o site www.dorecomportamento.com.br









