Como explicar para uma criança que coisas boas e ruins vão acontecer com ela ao longo da vida? E como deixar claro que não são as tristezas que vão definir quem ela é, mas a mistura de todas as coisas boas ou ruins, como uma colcha de retalhos.

Em Kuski é mais ou menos assim. O personagem-título do novo livro do ganhador do Prêmio Jabuti na categoria livro infantil, Ilan Brenman, é um menino que nasceu incompleto e foi se costurando ao longo da vida como um bordado. Uma alegria e ele se costurava um pouco, uma tristeza e ele perdia um pedaço de sua costura.
Lançamento da editora Moderna, o livro se apresenta como uma forma de conversar com as crianças sobre dores, mas também sobre as alegrias da vida. De alguma forma, traz um tema que algumas pessoas podem considerar delicado demais para os pequenos, mas que a ciência já identificou a necessidade de ser abordado.
Para o autor, um livro é, muitas vezes, uma maneira de oferecer a possibilidade de dar nome a alguns sentimentos. “Temos medo de falar de certos assuntos com as crianças, e elas têm uma compreensão desse tipo de texto, porque ele nomeia aquilo que ela não sabe nomear”, pontua o autor.
Ilan sugere a ideia de que sentimentos como tristeza, raiva, alegria, são coisas que elas podem ainda não entender o que é, mas compreendem que atitudes de outras pessoas podem ajudar ou piorar a situação. “Um abraço, uma amizade podem melhorar o que estou sentindo? Um grito pode piorar? E às vezes ela não consegue falar, aí tem literatura para dar sentido”, comenta.
Em Kuski, o garotinho do título se descostura, perdendo algo de si sempre que algo ruim acontece, como por exemplo, levar um grito do seu pai ou perder a avó. Mas se costura quando acontece o contrário e algum sentimento positivo toma conta dele, como ao adotar um cachorro.

Mas uma história como essa não é triste demais para uma criança? Não, segundo a psicóloga Tauane Gehm, que recebe esses pequenos em seu consultório todos os dias.
“Crianças podem e devem ser apresentadas a assuntos difíceis. A infância é um território que deveria ser protegido, mas não isolado da realidade, permitindo que a criança aprenda, de forma gradual e acolhida, os repertórios que serão essenciais ao longo da vida”, explica a profissional. “Abordar temas difíceis com a mediação sensível de um adulto não só a prepara para os desafios futuros, mas também a ajuda a entender e lidar com o mundo em que vive”, continua.
A literatura é mais uma arma para ajudar a criança a entender o mundo e seus sentimentos, como conta a profissional e como também acredita o autor, que já lançou x livros infantis, é pedagogo e pesquisa infância. “Livros infantis são ferramentas incríveis para essas conversas, pois traduzem temas complexos de uma forma que faz sentido para elas. Além disso, o brincar e as histórias – seja através de livros ou da imaginação – criam um espaço seguro para a criança processar e elaborar o que está sentindo“, defende Tauane.
Ilan lembra como as histórias sempre trouxeram temas pesados. Basta lembrar dos contos de fadas, com lobos destruindo casas de porquinhos ou atacando “velhinhas indefesas”. No entanto, ele diz que crianças conseguem ouvir e interpretar isso com a lente da fantasia e da metáfora. “Elas são poéticas, têm a metáfora na corrente sanguínea”, comenta. “Quando [o texto] fala que está em pedacinhos ou que o lobo comeu a chapeuzinho, elas não entendem aquilo de uma forma literal, ela sabe que é simbolismo”, continua, lembrando que é importante que o adulto, ao contar uma história para uma criança, precisa ter o bom senso. '
Mas por que temos medo de abordar temas delicados com crianças?
No mundo atual há uma disputa sobre o que pode ou não ser acessado pelas crianças, como se pudéssemos criá-las em uma redoma de boas experiências e apenas notícias boas. Tauane explica que esse medo de abordar temas mais delicados com os pequenos pode ser explicado por “mitos sobre a infância” ou “nossas próprias dificuldades emocionais”.
“Vivemos em uma época em que o desenvolvimento saudável é frequentemente associado à ideia de proteger as crianças de qualquer tristeza ou sofrimento, mesmo os naturais e inevitáveis”, comenta a profissional. A psicóloga cita a psiquiatra americana Ana Lembke, conhecida pelo livro Nação Dopamina, que sugere que a busca constante por realização plena tende a gerar frustração.
“[Ela diz que] talvez tenhamos ‘higienizado demais e patologizado demais a infância, criando nossos filhos no equivalente a uma cela acolchoada, sem a possibilidade de se machucarem, mas também sem meios para se preparar para o mundo’.” A psicóloga elabora em cima da frase da psiquiatra americana. “Embora a proteção seja importante, ela precisa ter limites para permitir que a criança desenvolva os recursos necessários para enfrentar os desafios da vida.”
Tauane ainda pontua que superproteger uma criança pode ser um reflexo de um desconforto do adulto em lidar com as próprias emoções ou o “medo” de lidar com os fantasmas do passado. “Ver uma criança chorando ou sofrendo pode evocar memórias difíceis, como momentos de desamparo ou tristeza vividos na própria infância. Além disso, pode surgir o medo de errar, de dizer algo que ‘traumatize’ ou de não saber como agir diante da vulnerabilidade da criança”, diz. Isso pode fazer com que o adulto opte por evitar temas que pareçam difíceis. “Essa esquiva, embora bem-intencionada, não protege apenas a criança, mas também o próprio adulto do desconforto que esses temas trazem”, complementa.
E diante de tantas atrocidades que portais de notícias e redes sociais apresentam todos os dias, não seria o caso de proteger as crianças de notícias ruins que possam as “descosturar”?
Não, necessariamente, de acordo com Tauane. A psicóloga defende que precisamos entender qual a motivação por trás das escolhas para saber o limite entre abordar um tema difícil e ser cuidadoso demais. “Estamos evitando falar com a criança porque o tema desperta medos ou lembranças difíceis em nós? Ou porque temos receio do julgamento de outras pessoas, como familiares ou amigos?”, questiona a profissional.
Reconhecer qual parte da recusa em tratar determinados assuntos é nossa – baseado em nossas histórias, ansiedades e inseguranças – e o que pertence à criança é essencial para agir de forma mais sensível às necessidades dela. “Essa separação é desafiadora e, muitas vezes, dolorosa. Terapia pessoal e orientação parental podem ser ferramentas valiosas nesse processo”, defende Tauane. “Proteger não é o mesmo que silenciar ou esconder a realidade. Ser cuidadoso significa abordar os temas de forma que respeitem as capacidades emocionais e cognitivas da criança, sem sobrecarregá-la com informações ou expectativas além do que ela consegue sustentar”, continua.
A psicóloga aponta ainda que os adultos observem as perguntas, curiosidade e reações da criança quando um assunto surge, isso pode ajudar a identificar o momento certo. “Quando ela faz perguntas ou demonstra interesse, é um sinal de que está aberta para explorar o tema, mesmo que em doses pequenas e ajustadas ao seu nível de compreensão. No fim, o ideal é que nossas escolhas sejam guiadas pela sensibilidade à criança, criando espaço para validar suas emoções e ajudá-la a construir uma compreensão do tema que a prepare para lidar com ele de maneira saudável e segura.”
Autor de mais de 80 livros infantis e infantojuvenis, Brenman também defende que crianças são capazes de compreender temas diversos, desde que a linguagem seja adequada. “[A gente] não pode ter uma venda nos olhos, a criança está dentro de um contexto que tem coisas pesadas, elas vivenciam essas coisas também: separações, mortes, dores físicas, dores do coração, e isso faz parte também de um bom texto”, explica.
E não adianta muito fingir para os pequenos que nada os atinge. “Eu chamo isso de ‘anticorpos simbólicos’”, comenta o autor. “A gente limpa tanto as histórias que é como aqueles pais que limpam demais as mãos das crianças e acaba desprotegendo. Vem qualquer germe e a criança não tem anticorpos, a mesma coisa vale para a cabeça, para a emoção, a gente limpa tanto, tira todos os percalços simbólicos da frente da criança e ela fica ‘alérgica à vida’, porque não tá está preparada simbolicamente para as frustrações”, diz.
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E como não omitir o mundo real para os pequenos?
De acordo com Tauane, o primeiro ponto é observar como os adultos lidam com a situação. “Crianças não são traumatizadas apenas pelos eventos em si, mas também pela ausência de um suporte emocional adequado para processá-los. Um evento difícil, quando acompanhado por um adulto disponível e sensível, pode se transformar em uma oportunidade de aprendizado e fortalecimento emocional”, revela.
Outra coisa que a psicóloga defende é que ao abordar um tema difícil, é essencial escutar o que a criança sente, validar suas emoções e ajudá-la a organizar esses sentimentos. “Ofereça informações verdadeiras, ajustadas ao nível de compreensão dela, e reforce que ela não está sozinha. Evitar o uso de eufemismos também é crucial – dizer que alguém que faleceu ‘virou uma estrela’ ou ‘foi dormir para sempre’ pode gerar confusão ou interpretações assustadoras", diz. “O ideal é usar uma linguagem clara, direta e respeitosa, que ajude a criança a compreender a realidade de maneira segura”, complementa.
Outra dica é lançar mão de brincadeiras, histórias e metáforas. Estas podem podem ser ferramentas poderosas para ajudar a criança a processar experiências difíceis porque oferecem um ambiente de expressão emocional que facilita a organização dos pensamentos e sentimentos de forma mais leve e acessível. Talvez, inclusive, a criança precise de um tempo para processar as informações e é possível que ela volte ao tema, em algum momento com novas perguntas ou reflexões.
“A curiosidade da criança é um guia valioso. Responda às suas perguntas com sinceridade, indo até o ponto que ela demonstra interesse. Isso respeita os limites da própria criança, sem sobrecarregá-la com informações desnecessárias ou difíceis de compreender”, afirma Tauane. “No fim, o mais importante é criar um espaço seguro onde a criança se sinta acolhida e compreendida. Mostrar-se disponível, oferecer suporte emocional e tratar os temas com abertura e honestidade são formas de ajudá-la a enfrentar as dificuldades da vida com mais segurança e confiança”, finaliza.

Kuski
- Autor: Ilan Brenman
- Editora: Moderna (40 págs.; R$ 81)









