Eu me lembro de estar numa sala de exames sombria, conversando com a veterinária. Sua paciente era a minha jack russell terrier de 17 anos, que não estava só comprovadamente velhinha, mas também sofria de artrite e demência. Zoe se perdia pela casa, muitas vezes ficava olhando para um canto da sala de jantar, depois começava a uivar. Perguntei à veterinária: “Como vou saber?”. A frase inteira não precisou ser dita para ser entendida: “Como vou saber quando for a hora de dizer adeus, de deixá-la ir embora?”

Naquele dia, a veterinária me mandou para casa com um panfleto que continha um pequeno questionário para avaliar a qualidade de vida da Zoe. As 16 perguntas abordavam alterações na respiração e no andar, sinais de dor, perda de apetite, micção e evacuações descontroladas, falta de sociabilidade, sinais de ansiedade e alterações na atividade noturna, entre outros fatores.
Respondi da melhor forma possível em uma versão on-line. A avaliação: “A qualidade de vida de Zoe está bastante preocupante. É provável que as mudanças continuem e fiquem mais graves em um futuro próximo”. Quando falei com a veterinária alguns dias depois, ela me disse o seguinte: “Zoe está em um momento em que essa opção faz sentido. Não é cedo demais para considerar essa opção.”
Esta era a permissão que eu tinha solicitado, mas ainda parecia cedo demais, o que é uma reação comum entre os tutores de animais de estimação. Frank Andonoplas, que optou por colocar seu cão, um bichon frisé, para dormir aos 18 anos de idade, me disse que foi “a pior e mais difícil experiência da minha vida, pior do que perder meus pais”. Eu entendi. Muitos de nós sentimos um amor incondicional por nossos animais de estimação – o que, na verdade, nem sempre acontece com pai e mãe. Zoe foi um grande apoio emocional durante meu divórcio e a morte dos meus pais, e eu sentia que estava em dívida com ela. Em retrospecto, eu me pergunto o que devia a ela: mais vida ou menos sofrimento?
É muito doloroso decidir o momento certo de sacrificar um cão ou gato tão querido. Muitos tutores de animais de estimação esperam uma morte natural, mas, como me disse Mary Gardner, CEO e cofundadora da rede Lap of Love Veterinary Hospice, a morte natural nem sempre é pacífica. O animal pode estar com problemas respiratórios, insuficiência renal ou cardíaca. Relutantes em fazer a eutanásia muito cedo, tutores às vezes esperam demais, e o animal sofre.
“Eu entendo que você não queira perder um dia ou uma hora com um ente querido”, diz Gardner, mas ela acrescenta: “Tem um ditado que diz: uma semana cedo demais é melhor do que um dia tarde demais”. Douglas Smith, um amigo que se despediu de dois cães muito amados, concordou: “Foi muito difícil tomar a decisão, mas eu sabia que era a coisa certa. Não prolongue o sofrimento deles só porque você está com medo.”
Quando se trata de dor, há três categorias gerais, segundo os veterinários. A primeira é a dor causada pela artrite ou por algum problema na coluna. A segunda é a dor associada a doenças ou falência de órgãos. Essas duas são relativamente fáceis de entender, porque geralmente conseguimos reconhecer seus sintomas. Mas o terceiro tipo de sofrimento é emocional, e nem sempre associamos ansiedade, depressão e distúrbios cognitivos à dor. Mas se um cão ou gato estiver uivando, choramingando, ofegando ou babando, esse animal está sofrendo. Eu gostaria de ter entendido melhor essa parte nos últimos meses de vida da Zoe, quando ela ainda adorava passear e brincar, mas uivava todas as noites. É por isso que a escala de qualidade de vida que preenchi contém cinco perguntas sobre saúde mental, além das perguntas físicas e sociais.

Quando tratar ou parar?
O fato de podermos continuar tratando medicamente nossos animais de estimação não significa que devemos fazê-lo. “Isso não faz de você um tutor melhor”, disse Gardner. Significa, sim, que você pode arcar com os custos, não apenas monetários, mas também em termos de tempo (levá-los ao veterinário, à fisioterapia), custo emocional (confortá-los, limpar a sujeira) e demandas físicas (carregá-los, posicioná-los para um tratamento intravenoso). É muita coisa. No caso da minha Zoe, quando ela não comia mais ração, passei a cozinhar para ela diariamente, tentando convencê-la a comer com ovos mexidos, arroz e até mesmo frango picado.
O custo
Quer você leve seu animal de estimação a um consultório ou centro de emergência, ou traga um veterinário até sua casa, a eutanásia geralmente custa em torno de US$ 300 a US$ 500 [nos Estados Unidos; no Brasil, os valores praticados podem ser diferentes], embora haja diferenças regionais. Na Animal Humane Society, a taxa para cães e gatos é de cerca de US$ 100; porquinhos-da-índia e répteis custam cerca de metade desse valor. (Esses valores não incluem a cremação).
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O padrão-ouro para a eutanásia é um processo em duas etapas. A Associação Médica Veterinária Americana recomenda um sedativo para começar. Ele geralmente é injetado em um músculo ou sob a pele e pode levar de cinco a dez minutos para que o animal adormeça ou entre em um estado de sono agradável, sem dor ou ansiedade. O segundo medicamento é o pentobarbital sódico, que tem sido usado com sucesso em procedimentos de eutanásia veterinária desde o início do século 20. Seu efeito ocorre em poucos segundos.
Como fazer uma ‘boa morte’
Tanto os especialistas quanto os tutores de animais de estimação ofereceram várias sugestões para quando você tiver tomado a decisão:
- Tente dar ao seu animal de estimação o seu melhor dia – ou dias – proporcionando guloseimas, passeios e brinquedos especiais.
- Lembre-se de que seu animal de estimação não entende a morte (nem a teme).
- Peça a um amigo próximo ou à família que esteja com você durante o processo, para apoio e conforto.
- Quando você perceber que seu animal de estimação está sofrendo dor e angústia, adiar a eutanásia não vai facilitar as coisas para você ou para o pet; pode deixar tudo mais difícil, especialmente se o animal morrer sozinho ou com dor.
- Pergunte ao veterinário se ele pode ir até sua casa para o procedimento. Muitos animais sofrem de grande ansiedade no consultório, e o processo pode ser mais tranquilo em casa.
- Os veterinários que vão até você geralmente levam o animal com eles se você escolher a cremação. Foi o que eu fiz com a minha Zoe. Partiu meu coração carregar seu corpo sem vida para o carro, mas eu sabia que tinha feito o certo por ela.
Pedi a Mary Gardner um último conselho: “Diga ‘eu te amo’ ao seu animal de estimação todos os dias, porque quando ele morrer, você desejará dizer isso mais uma vez”.
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/ TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU




