Oscar Schmidt deixa legado de títulos, marcas histórias e devoção ao basquete brasileiro

Lenda da modalidade, ‘Mão Santa’ lutou por 15 anos contra um câncer no cérebro e se recusou a jogar na NBA por amor à seleção brasileira

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Foto do autor Ricardo Magatti
Atualização:

Pelé, Senna, tratamento e desejo de ser presidente: Oscar Schmidt falou ao Estadão em 2024

Relembre última entrevista dada pela lenda do basquete ao jornal. Crédito: Marcos Antomil (reportagem) | Carla Menezes e João Abel (edição de vídeo)

Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

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O Brasil perdeu um dos nomes mais importantes do esporte. Oscar Schmidt morreu nesta sexta-feira, 17, aos 68 anos. O “Mão Santa” chegou já sem vida no hospital Municipal Santa Ana, segundo informou a prefeitura de Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo.

Oscar havia sido levado às pressas ao hospital depois de sofrer uma parada cardiorrespiratória em sua casa, em Alphaville. A morte foi confirmada pela família, por meio de comunicado. Ele deixa a mulher, Maria Cristina, e os filhos Felipe e Stephanie.

O ídolo foi cremado, e o velório ocorreu de forma restrita aos familiares, “em respeito ao desejo da família por um momento íntimo de recolhimento”, segundo a família do ex-atleta.

Oscar passou 15 anos lutando contra um câncer no cérebro, descoberto em 2011. Ele passou por duas cirurgias para retirada de dois tumores na região, além de várias sessões de quimioterapia.

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Oscar Schmidt morreu aos 68 anos, em São Paulo Foto: Clayton de Souza/Estadão

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Em 2022, ele anunciou a interrupção do tratamento depois de afirmar estar curado da doença. “Eu venci essa batalha”, disse ele naquela ocasião.

“Houve um período em que as revistas brasileiras me deram como morto. Só pelo motivo de eu querer ser um bom pai. Não quero ser melhor jogador ou palestrante”, afirmou Oscar em entrevista ao Estadão em 2022.

O Mão Santa afirmara que tinha perdido o medo de morrer porque havia ganhado vontade de viver para ficar com a mulher e os filhos.

Oscar era viciado em bombons de chocolates e colecionava selos, segundo contou ao Estadão. Pescar estava entre os hobbies preferidos do Mão Santa, que rejeitava esse apelido. “Mão Santa não, mão treinada”, dizia o tão talentoso quanto dedicado ex-atleta. Carismático, ele cativava pelas respostas sinceras.

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Pelé era o maior ídolo de Oscar, que também adorava Ayrton Senna e manteve o hábito de falar com Deus, como fazia o piloto, enquanto estava em quadra.

Eu pensei ‘eu também falei com Deus’. A concentração é o que há de comum entre nós. Para falar com Deus tem de ser muito concentrado, porque não é qualquer papinho. Por isso, sei que falei com Deus. Eu fazia meus treinamentos concentrado todos os dias da minha carreira e parei de fazer isso quando fui para a Itália. Aí resolvi parar de falar com Deus.

Oscar, em entrevista ao 'Estadão' em 2022

Filho de militar, Oscar descobriu o basquete depois do futebol

Potiguar de Natal, Oscar Daniel Bezerra Schmidt nasceu em 16 de fevereiro de 1958. Seu pai era militar e o criou em um ambiente no qual o esporte era prioridade na formação.

Oscar Schmidt durante a partida contra a seleção da União Soviética, pelas quartas de final dos Jogos Olímpicos de Seul, na Coreia do Sul Foto: Sérgio Berezovsky/Estadão

Sua primeira paixão foi o futebol. Mas o garoto levava jeito mesmo para o basquete, esporte que conheceu em Brasília graças à influência do técnico Zezão, no Colégio Salesiano. Começou a treinar no Clube Unidade de Vizinhança, sob o comando de Laurindo Miura, a quem considera o técnico mais importante da sua carreira.

Aos 16 anos, se mudou para São Paulo para jogar nas categorias de base do Palmeiras. O talento precoce o fez pular etapas. Foi convocado para a seleção juvenil, eleito o melhor pivô do Sul-Americano de 1977 e então chegou à seleção principal.

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No Sírio, que defendeu a convite do técnico Cláudio Mortari, Oscar chegou ao auge. Em 1979, foi campeão do Mundial Interclubes, em uma campanha histórica que o fez ser conhecido internacionalmente.

No ano seguinte, em 1980, disputou sua primeira Olimpíada, em Moscou - o Brasil terminou em quinto. Depois, viriam mais quatro edições de Jogos Olímpicos: Los Angeles-1984, Seul-1988, Barcelona-1992 e Atlanta-1996). Teve papel importante em todas até se tornar o maior cestinha da história dos Jogos Olímpicos.

Oscar Schmidt, arremessa para marcar seu milésimo ponto em partida contra a seleção coreana durante a Olimpíada de Atlanta Foto: Luludi/Estadão

Ele é, até hoje, o maior pontuador da seleção brasileira, com 7.693 pontos, e foi por muito tempo quem mais pontuou na história do basquete até ser superado por Lebron James, em 2024. O astro da NBA ultrapassou a marca de 49.737 pontos do brasileiro, um dos principais responsáveis pela popularização do basquete no Brasil.

Medalhista de ouro no Pan-Americano de Indianápolis-1987, o ala de talento incomum ganhou títulos sul-americanos com a seleção brasileira masculina de basquete (1977, 1983 e 1985). Ídolo da modalidade no País, ele conquistou três bronzes importantes para sua história: no Mundial das Filipinas-1978, Pan de San Juan-1979 e Copa América do México-1989.

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Foram duas décadas de dedicação à seleção brasileira e inúmeras lembranças com a eterna camisa 14, que aposentou em 1996.

Recusa à NBA

Em 2013, Oscar foi eternizado no Hall da Fama do basquete, em Springfield, em Massachusetts, nos Estados Unidos, mesmo sem sequer ter jogado uma partida na NBA. Ele recebeu convite em 1984 para atuar na NBA, mas recusou a liga americana porque, se aceitasse, teria de abrir mão da seleção brasileira.

“Não me arrependo de nada”, falou ele em entrevista ao Estadão. “Três anos depois (de ter recusado a NBA) a gente ganhou o Pan-Americano em 1987, nos EUA. Não me arrependo nunca, imagina? O Pan-Americano foi a coisa mais linda que aconteceu na minha vida. Vencemos dentro dos Estados Unidos, do melhor time do mundo, que já era a equipe norte-americana”.

Oscar Schmidt durante o revezamento da Tocha Olimpica para os Jogos Olímpicos Rio-2016 Foto: Marcos de Paula/Rio2016

O Mão Santa defendeu Palmeiras, no qual iniciou sua trajetória, Corinthians, Flamengo e Clube Sírio, além de ter tido passado dois anos na Espanha e 11 temporadas na Itália - oito pelo Juvecaserta e três pelo Pavia - em um dos períodos mais intensos de sua vida.

No início de abril, ele foi homenageado pelo Comitê Olímpico do Brasil (COB), durante cerimônia do Hall da Fama, no Copacabana Palace, no Rio. Como havia passado por cirurgia, não esteve no evento e foi representado pelo filho.

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Quase senador

Em 1998, Oscar concorreu ao senado por São Paulo na chapa do Paulo Maluf e foi derrotado por Eduardo Suplicy. “Ainda bem que não fui eleito”, declarou o ex-jogador, sob o argumento de que não se via “naquilo”, a política.

“No meio da campanha, eu vi muita coisa que não gostei. Eu queria ser presidente do Brasil, esse era meu objetivo. E, de senador pra presidente é um pulo, né. Faz sua candidatura rapidinho. Mas não gostei de muita coisa e vi que não era o meu mundo. Prefiro andar de bermuda”, justificou.

Seu desejo era ser presidente, mas a política o desiludiu. “Meu pai me ensinou a fazer as coisas certas e nem tudo que há na política é certo”.