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Oscar Schmidt diz que Brasil não vai à Olimpíada de novo e elogia Abel Ferreira

Ídolo do basquete brasileiro analisa momento da seleção brasileira, aponta semelhança com Pelé e Senna e elogia Abel Ferreira

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Foto do author Marcos Antomil
Atualização:
Foto: Iara Morselli/Estadão
Entrevista comOscar Schmidtex-jogador de basquete e medalhista de ouro no Pan de 1987

Oscar Schmidt foi o maior jogador de basquete brasileiro, embora ele mesmo discorde dessa afirmação. Ele acumulou feitos e títulos na década de 1980 que jamais foram repetidos. Em entrevista ao Estadão, o ex-jogador falou sobre o recorde de pontos superado por LeBron James, afirmou que está muito bem de saúde e elege a concentração como ponto em comum com outros ídolos do esportes do País, Ayrton Senna e Pelé.

Sobre a seleção brasileira masculina de basquete, Oscar critica a troca de técnico às vésperas do Pré-Olímpico, prevê o Brasil fora da segunda Olimpíada consecutiva e descarta assumir o posto de treinador no futuro. Sobre o mundo da política, do qual já fez parte, Oscar afirma ter abandonado o sonho de ser presidente.

Questionado sobre o apelido “Mão Santa”, Oscar diz que “de santo não tem nada” e que tudo o que conquistou foi com base em treinamento, principalmente porque originalmente queria ser jogador de futebol, mas três sentimentos complementares o ajudaram a superar obstáculos e formá-lo como um atleta que mesclava concentração, bom humor e emoção.

Oscar Schmidt foi um dos maiores jogadores de basquete de todos os tempos. Foto: Clayton de Souza/Estadão

LeBron James, astro do Los Angeles Lakers na NBA, derrubou seu recorde de 49.737 pontos como o maior cestinha da história do basquete. Como você viu esse fato?

Eu não dei a menor bola, porque recorde é feito para ser batido. Se eu tenho um recorde, cuidado. Alguém vai chegar aí e passar. Não dei a menor bola, porque ele é um grande jogador. Ele me passou, mas sempre me perguntaram: ‘E o LeBron?’. ‘E o LeBron o quê? Quer saber se ele vai me passar? Claro que vai’.

Quem te transmitiu os ensinamentos mais importantes do basquete?

O (Laurindo) Miura (que revelou Oscar) principalmente. Ele era o treinador da minha categoria. Ele botava uma fileira de pedrinhas no chão e fazia você pegar a pedrinha com uma mão e bater bola com a outra. Pode parecer fácil, mas eu odiava esse exercício, porque eu era completamente descoordenado. Tem cinco jogadores que admiro, todos americanos: Michael Jordan, Kobe Bryant, LeBron James, Magic Johnson e Larry Bird, que não sabia correr nem pular e jogava melhor que todo mundo.

Oscar Schmidt é um dos grandes admiradores de Kobe Bryant, morto em acidente de helicóptero em 2020. Foto: Oscar Schmidt via Instagram

Qual clube com o qual mais se identificou na carreira?

Foi o Sírio. Ganhamos todos os títulos lá. Você normalmente se identifica com o clube em que ganhou mais. Eu fui para a Europa por causa do Sírio. Eu também joguei no Corinthians, fui campeão e fiquei enamorado do Corinthians, mas admiro o Abel Ferreira (técnico de futebol do Palmeiras), vejo nele uma pessoa que estudou o futebol e tenho até livros dele autografados. Ele diz que não quer a seleção, mas se tivesse uma brecha, eu diria: ‘Vai entrar na seleção quando?’.

Oscar Schmidt vestiu a camisa do Flamengo, mas declara ter maior identificação com o Sírio. Foto: Oscar Schmidt via Instagram

Se te fizerem essa mesma pergunta: ‘quando vai entrar na seleção de basquete’?

Houve um tempo em que eu queria muito (ser técnico da seleção). Agora quero pouco. Não tenho muita ambição. Minha vida hoje é de palestrante e comentarista. Se você é comentarista fica de comentarista. Não quero entrar nessas divididas.

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Quem foi melhor: o Oscar jogador ou o Oscar palestrante?

Estou em uma briga danada para ser um bom palestrante, porque eu era muito melhor jogador de basquete. É a minha profissão hoje. Se eu não fizer uma palestra boa, provavelmente não vou fazer outra depois.

Você se vê numa espécie de ‘Santíssima Trindade’ do esporte brasileiro ao lado de Ayrton Senna e Pelé? O que há em comum entre vocês?

Você falou o nome de duas pessoas intocáveis. O Pelé foi meu ídolo da vida toda. E adoro o Ayrton Senna. No domingo, eu parava tudo para ver o Senna correr. Um dia ele disse que falou com Deus. Eu pensei ‘eu também falei com Deus’. A concentração é o que há de comum entre nós. Para falar com Deus tem de ser muito concentrado, porque não é qualquer papinho. Por isso, sei que falei com Deus. Eu fazia meus treinamentos concentrado todos os dias da minha carreira e parei de fazer isso quando fui para a Itália. Aí resolvi parar de falar com Deus.

Qual foi a consequência de ‘parar de falar com Deus’?

Alguns jogos eu fui mal, mas fui me acostumando e melhorando. De repente, estava dominando o Campeonato Italiano.

Oscar Schmidt em ação em jogo do Campeonato Paulista de Basquete, em dezembro de 1998. Foto: J F Diorio/AE

O erro na última chance do Brasil no jogo com a União Soviética nas quartas de final dos Jogos Olímpicos de 1988, em Seul, te fez ser uma pessoa melhor ou pior?

Esse erro me fez ser uma pessoa pior. Eu já não acreditava mais na minha qualidade. Essa bola era decisiva para a gente ganhar a Olimpíada e custou o emprego do técnico Ari Vidal. Mandaram ele embora por telefone. O que eu mais sinto é por causa dessa demissão. Como se fosse fácil chegar em quinto em uma Olimpíada.

A seleção brasileira está com dificuldades para conseguir a vaga na Olimpíada de Paris...

Não vai mesmo (conseguir a vaga). Joguei cinco Olimpíadas e cinco Pré-Olímpicos e nós ganhamos até um. É triste você pensar que a seleção do seu país não vai aos Jogos. Vai ser bem difícil.

*O Brasil vai jogar o Pré-Olímpico em Riga, na Letônia, a partir do dia 2 de julho. A seleção está no Grupo B, com Montenegro e Camarões. Os dois melhores cruzam, na semifinal, com os melhores do Grupo A, que tem Letônia, Filipinas e Geórgia. Apenas o campeão vai para os Jogos.

O que achou a troca do comando da seleção, com a saída do Gustavo de Conti e retorno do Aleksandar Petrovic?

Não deveria ter trocado. Deixa o cara se ‘estabanar’ sozinho. A chance de o Petrovic não conseguir é muito grande. E o que vão fazer? Mandar embora de novo.

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Por que a seleção brasileira perdeu prestígio?

Porque não tem dinheiro, os jogadores recusam a seleção para atuar na NBA. A seleção não é para qualquer um. O atleta tem de querer jogar pelo Brasil.

O que faltou para nomes que foram importantes para a seleção, como Leandrinho, Anderson Varejão, Nenê, Tiago Splitter e Marcelinho Huertas, e sobrava para você?

Para mim, a seleção era a coisa mais importante que havia na minha vida. Por isso que falei não para a NBA. (Quando ganhei o ouro no Pan de 1987 em Indianápolis) O que mais queria ver era os brasileiros comemorando. Minha família torceu muito por mim e nunca falou onde queria que eu jogasse.

A seleção brasileira tem solução? Em que medida um treinador consegue mexer numa equipe?

Tem (solução), mas precisa de talentos e uns seis ou sete jogadores bons. Hoje tem três ou quatro, mas não é o que necessita para ganhar. (O técnico) não consegue mexer. Se o Ari Vidal não conseguia, esses aí não vão conseguir. Tenho certeza disso.

Como está a saúde?

Está muito boa. Houve um período em que as revistas brasileiras me deram como morto. Só pelo motivo de eu querer ser um bom pai. Não quero ser melhor jogador ou palestrante. Quero ser um bom pai, irmão, marido, filho. Estou me concentrando nisso e conseguindo ser. Não desisti de nenhum tratamento. Fui liberado pelo meu médico. A partir daí, comecei a curtir mais a minha vida.

Você disse que ‘perdeu o medo de morrer’. Você perdeu esse medo ou ganhou mais vontade de viver?

Talvez seja mais vontade de viver. Tem de estar vivendo para ser um pai melhor. Estou feliz com a minha vida, porque tenho a família com a qual sempre sonhei. Para mim, está tudo em ordem.

Tem algum vício além de bombom de chocolate?

Eu coleciono selos. Sem carimbo todos eles. Tenho todos os olhos de boi, cabra... Agora estou em busca dos selos do Império. São selos até mais caros. Estou fazendo essa coleção. Fico namorando os selos por alguns minutos. Até gosto de pescar, mas não tenho um lugar preferido. Nos Estados Unidos ainda tem.

Paulo Maluf foi candidato a governador em 1998 e teve Oscar Schmidt em sua chapa como concorrente ao cargo de senador. Foto: Agliberto Lima/AE

Em 1998, você concorreu ao cargo de senador por São Paulo na chapa do Paulo Maluf e foi derrotado pelo Eduardo Suplicy. Se pudesse voltar no tempo, concorreria novamente?

É claro que sim. Meu objetivo maior era ser presidente. Queria muito. Depois que vi como que era, larguei de vez. O Paulo Maluf me deu a chance, saiu comigo algumas vezes em campanha e viu meu potencial. Meu pai me ensinou a fazer as coisas certas e nem tudo que há na política é certo.

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Ainda guarda alguma aspiração política?

Não quero mais. Para mim, não vai dar certo. Sou uma pessoa do bem.

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