Auckland City vai da soberania na Oceania a desafiar gigantes no Mundial
Foto: New Zealand Football/DivulgaçãoO futebol da Oceania, de modo geral, não é profissional. A exceção é a Austrália, cujos times e a seleção jogam campeonatos asiáticos. Por isso que, na maioria das vezes, é a Nova Zelândia que emplaca o representante no Mundial de Clubes, com o Auckland City.
São 12 participações do clube no torneio, considerando o antigo formato (hoje Copa Intercontinental). A Nova Zelândia até tem equipes profissionais. O Auckland FC e o Wellington Phoenix, porém, disputam o Campeonato Australiano e não disputam a OFC Champions League, vencida 13 vezes pelo Auckland City.
“Antes de tudo, nós temos uma ótima estrutura no clube. Desde o topo, do presidente, aos treinadores, ao roupeiro, ao fisioterapeuta... todos esperam um padrão muito alto de futebol e esperam que a gente atue nesse nível”, conta Dylan Manickum, jogador do Auckland, em entrevista ao Estadão.

Após a goleada por 10 a 0 sofrida para o Bayern de Munique, o torcedor brasileiro conheceu as profissões dos atletas do time neozelandês, que dividem o futebol com outras carreiras. O deslumbramento é semelhante ao vivido há mais de 10 anos, quando a seleção do Taiti, também amadora, disputou a Copa das Confederações no Brasil e ganhou a simpatia dos torcedores, em 2013.
Manickum é um dos líderes do Auckland City. O camisa 10 da equipe também atua como engenheiro assistente na construção civil. Como se fosse pouco, ele ainda é capitão da seleção neozelandesa de futsal, que jogou a Copa do Mundo pela primeira vez em 2024.
Em dias de treino, a rotina do atleta carece de pausas. Do trabalho, vai direto para o clube. “Depois vou para casa, faço um jantar rápido e, então, vou para a cama. E repito, às vezes“, relata.

O neozelandês já esteve no Brasil, em 2016, quando disputou o Mundial Universitário de Futsal. Hoje, a seleção de futsal da Nova Zelândia conta com o brasileiro Enrico Meirelles como auxiliar. Não é por isso, contudo, que Manickum é fã de Ronaldinho.
Campeão do mundo com a seleção brasileira em 2002, o “bruxo” nunca venceu um Mundial de Clubes. Perdeu, pelo Barcelona, para o Internacional, em 2006. Manickum também não conquistou, mas já comemora o fato de enfrentar astros como Kane (Bayern), Di María (Benfica) e Cavani (Boca Juniors).
Você não só tem uma carreira e joga futebol, como ainda soma o futsal. Seu dia tem tempo para sua rotina inteira?
É, de verdade, um tanto duro. Eu levanto às 7h, vou para o trabalho e aí, basicamente, direto do trabalho para o treino, nos dias em que treinamos, o que acontece três ou quatro vezes na semana.
A estrada não é ótima, a partir de onde estou trabalhando agora. Leva mais ou menos uma hora, uma hora e meia para chegar.
O treino começa entre 17h30 e 18h e vai até 20h30. E aí vou para casa, faço um jantar rápido e, então, vou para a cama. E repito, às vezes.

Você começou primeiro em qual das modalidades?
Eu tinha 13 anos quando jogava em um clube de futebol, e o técnico pensou que seria uma boa ideia que eu ingressasse no time de futsal. Comecei naquela época e jogo desde então. É um esporte que cresce na Nova Zelândia.
Obviamente, nós fomos para a Copa do Mundo no último ano, mas há um processo enorme quando o futebol da Nova Zelândia se envolveu e começou a criar ligas e ligas juvenis apropriadas. Agora temos um torneio nacional juvenil, o que é ótimo, e muitos mais jogadores estão surgindo. Quando comecei, eram apenas ligas locais e, a partir daí, continuei.
Já no futebol, o que explica o domínio que o Auckland City tem na Oceania?
Antes de tudo, nós temos uma ótima estrutura no clube. Desde o topo, do presidente, aos treinadores, ao roupeiro, ao fisioterapeuta... todos esperam um padrão muito alto de futebol e esperam que a gente atue nesse nível. E eles nos dão todas as condições. Quando viajamos, ficamos em hotéis muito bons, temos recursos, treinamentos. As sessões de treinos são excelentes. E, obviamente, os jogadores também cobram um alto nível uns dos outros.

Isso meio que já está enraizado no clube desde quando começaram a ter sucesso local e internacionalmente. Esses padrões nunca caíram. A gente sabe que é esperado continuar atuando no mais alto nível. Acho que é por isso que somos, ou temos sido, o melhor time da Oceania nas últimas décadas.
Recentemente se fala em propostas para profissionalizar o futebol da Oceania, além da Austrália. Você tem uma opinião sobre isso?
Para ser sincero, acho que seria ótimo se houvesse uma liga profissional na Oceania. Pelo que ouvi, a ideia é que começasse no início do ano que vem. Mas, além disso, não ouvi mais nada. Mas acho que, obviamente, ter uma liga profissional na Oceania seria ótimo para a região.
Você esteve em quatro títulos continentais com o Auckland City. Teve algum que foi mais especial?
Para mim, pessoalmente, acho que o primeiro foi o mais especial. O meu primeiro foi em 2022, logo depois da covid. Tivemos uma pausa enorme no futebol e foi meu primeiro título, e o primeiro título de muitos garotos no time. Aquilo nos impulsionou para a temporada, e nós ganhamos os quatro troféus que poderíamos conquistar naquele ano. Fazer parte disso foi o mais especial para mim.

Como vocês lidam com essa diferença de domínio na Oceania e disparidade contra os times que enfrentam no Mundial?
Obviamente, a gente se prepara de forma diferente do que fazemos em casa. Em casa, estamos acostumados a ser o time que tem mais a bola, que domina a posse, que cria as chances e tem oportunidades de marcar. Mas aqui é uma mudança de mentalidade, precisamos defender muito, trabalhar mais na defesa.
Temos grandes jogadores e uma comissão técnica que está junto, e todo mundo está disposto a trabalhar duro e fazer o que precisa ser feito. É só um pouco diferente para nós, e estamos processando isso e trabalhando duro nos treinos para tentar ser mais eficazes na defesa. Mas, claro, jogando contra os melhores times do mundo, eles vão criar chances, e é importante que a gente consiga impedir mais dessas oportunidades conforme avançamos no torneio.
E vocês ainda caíram em um grupo de pedreiras, com Bayern, Benfica e Boca Juniors.
É um grupo muito, muito difícil. Mas, para nós, é uma oportunidade de nos testarmos contra os melhores jogadores do mundo, e essa chance não aparece com frequência para jogadores da Nova Zelândia, especialmente jogando pela Oceania e chegando ao cenário mundial. Ter a chance de jogar contra esses times é algo que vamos lembrar para sempre.
Jogando contra os melhores times do mundo, eles vão criar chances, e é importante que a gente consiga impedir mais dessas oportunidades conforme avançamos no torneio
Dylan Manickum, atacante do Auckland City
Claro, no primeiro jogo tomamos 10 gols — e provavelmente poderíamos ter evitado alguns deles — mas agora temos mais dois jogos contra clubes enormes, e é o que queremos é competir. Queremos enfrentar os melhores times do mundo, e agora estamos aqui, então temos de seguir em frente.
Você é torcedor do Liverpool, que, infelizmente, não está nos Estados Unidos com vocês desta vez. Conseguiu acompanhar o título da Premier League?
O fuso horário na Nova Zelândia é meio chato (risos). A gente tem de acordar muito cedo para assistir aos jogos. E, se o jogo é numa segunda-feira de manhã, você vai direto para o trabalho depois. Mas eu acordo sempre que posso. Acordei para assistir ao último jogo, quando eles ganharam o campeonato, e vi eles levantando o troféu. É incrível de ver. Foram alguns anos difíceis, ficando em segundo lugar, mas é bom de ver.
O quanto você conhece do futebol brasileiro? Tem um jogador favorito do Brasil?
Meu jogador favorito de todos os tempos é o Ronaldinho. Acho que o jeito como ele jogava futebol era incrível, fazia as pessoas se apaixonarem pelo jogo. A habilidade, os dribles, as finalizações… tudo o que ele trazia para o futebol. E a forma como ele se comportava em campo era divertida de assistir, emocionante. Acho que foi um dos jogadores que me fizeram me apaixonar por futebol.
Conheço clubes como Corinthians, Flamengo, Botafogo. Nosso auxiliar técnico do futsal é brasileiro (Eurico Meirelles).
Como é o trabalho com ele na seleção de futsal?
Trabalhar com ele é ótimo. Ele já está aqui há bastante tempo. Quando eu era mais jovem, ele era um dos jogadores que estavam no time na época. Ele tem muito conhecimento, mantém contato com treinadores no Brasil, e tem sua própria academia de futsal que ele começou em Wellington. Ele é uma das pessoas responsáveis pelo desenvolvimento do futsal em Wellington e na Nova Zelândia. Faz um trabalho incrível, eu acho. É um cara fenomenal.
Meu jogador favorito de todos os tempos é o Ronaldinho. Acho que o jeito como ele jogava futebol era incrível, fazia as pessoas se apaixonarem pelo jogo.
Dylan Manickum, sobre idolatria que tem por Ronaldinho
Qual sua expectativa para a Copa do Mundo de seleções em 2026, para a qual a Nova Zelândia já tem vaga garantida?
Acho que temos um grupo muito forte no momento. Muitos jogadores atuando em grandes ligas ao redor do mundo, algo que nunca tivemos tanto como agora. O desenvolvimento do futebol na Nova Zelândia tem sido ótimo. Temos dois times na A-League (Campeonato Australiano) agora, além de muitos jovens indo para o exterior em busca de grandes experiências e jogando no mais alto nível, o que nos ajuda muito.
Obviamente, é Copa do Mundo, então é sempre muito difícil, depende do grupo, de conseguir bons resultados, essas coisas. Acho que temos desenvolvido um estilo de jogo mais ofensivo, o que é ótimo de ver. Estamos marcando mais gols e competindo contra times de alto nível. Ganhamos da Costa do Marfim recentemente, acho que na semana passada ou na anterior.
Então é ótimo ver que estamos evoluindo na direção certa, e eu espero uma boa participação na Copa do Mundo.
Você tem 32 anos, certo?
Completei 33 ontem mesmo (dia 16 de junho).
Parabéns! Pessoalmente, qual seu planejamento como jogador de futebol e de futsal?
Meu plano é continuar jogando o máximo que eu puder. Acho que conforme você vai ficando mais velho, percebe que não tem tanto tempo assim para jogar futebol, e uma vez que acaba, acabou.
No momento, não estou pensando em jogar por outro time, então quero jogar mais um ciclo de Copa do Mundo (de futsal). Preciso começar esse ciclo agora, pois em quatro anos já será a próxima Copa, e para isso preciso manter meu nível técnico e meu ritmo altos para, com sorte, conseguir fazer parte do elenco novamente.
Como Dylan Manickum define a si mesmo quanto ao estilo de jogo?
Como jogador de futebol, gosto de pensar que sou relativamente inteligente e consigo colocar as táticas em prática. Tecnicamente, acho que sou bom, no um contra um, girar em espaços curtos, muitas coisas que vêm do futsal me deram a chance de desenvolver habilidades técnicas que consigo transferir para o futebol de campo.
No um contra um, provavelmente não sou tão rápido quanto era antes, então estou tentando encontrar outras maneiras de melhorar meu jogo. Acho que tenho uma boa visão de passe. Não marco tantos gols quanto deveria (risos), mas faço alguns. Acho que sou um jogador bastante completo. E acho que defendo bem para um ponta.
Você e os demais jogadores do Auckland ganham simpatia dos brasileiros, o que tem a dizer sobre isso?
Só queria dizer que amo o apoio. É ótimo ver isso. Sei que muitas pessoas assistem aos jogos ao redor do mundo e recebemos muitas mensagens legais, inclusive do Brasil, o que é incrível e muito, muito apreciado, especialmente considerando que acabamos de sofrer uma derrota pesada. É bom ver que as pessoas estão nos apoiando e tentando nos dar incentivo para os próximos jogos.
Foi assim também na Copa do Mundo de Futsal, quando jogamos contra a Espanha, o apoio vindo do Brasil foi incrível. O pessoal no Brasil ama futebol e futsal, e é ótimo ver que ainda há respeito, que as pessoas realmente estão curtindo e, com sorte, se sentindo motivadas e recebendo energia positiva pelas nossas performances e pelo que fizemos para chegar a essa Copa.








