Adversário do Flamengo nas quartas-de-final da Copa Libertadores, o Estudiantes foge à regra dos principais clubes argentinos e tenta ir na contramão das regras impostas pelo futebol do país, sobretudo da Associação do Futebol Argentino (AFA), para se tornar uma SAD (Sociedade Anônima Desportiva), o equivalente à SAF (Sociedade Anônima do Futebol), no Brasil.
Quem tomou a dianteira desta transformação foi o ídolo do clube e atual presidente, Juan Sebastián Verón, que no final de 2024, comandou as operações que levaram à assinatura de um pré-acordo com o magnata Foster Gillett, filho de George Gillett (ex-dono do Liverpool), que prevê um aporte inicial de 200 milhões de dólares (R$ 1 milhão) caso o negócio se concretize.
Acontece que, na Argentina, a mudança para as SADs são proibidas por causa da legislação, algo que já gerou profundas e intensas discussões entre o presidente da AFA, Claudio Tapa, e o presidente da Argentina, Javier Milei.

Desde que se tornou candidato à presidência da Argentina, em dezembro de 2023, que Javier Milei vem deixando claro seu desejo de constituir a entrada das SADs (Sociedade Anônima Desportiva) no país. Para especialistas, a a abertura para constituição das SADs na Argentina promoveria no país um conjunto de mudanças maior e mais célere do que no Brasil. No entanto, com frutos sendo colhidos a médio e longo prazo.
“O equilíbrio, no âmbito técnico e esportivo, demandaria alguns anos e não seria atingido ainda nessa década. Na próxima, certamente. De imediato, teríamos uma significativa redução de interesse dos investidores qualificados, europeus e americanos na aquisição das ações dos clubes brasileiros, com a concorrência dos argentinos por seus recursos.”, explica Thiago Freitas, COO da Roc Nation Sports no Brasil, empresa americana que agencia a carreira de atletas, como Endrick.
Ainda de acordo com Freitas, outros fatores contribuem para colocar os argentinos em evidência caso possam se tornar SAF. “Questões como logística e número de efetivos torcedores, não somente simpatizantes, fazem com que clubes argentinos sejam muito mais atrativos sob diferentes aspectos do que os clubes brasileiros. Pesaria também a favor dos argentinos a percepção internacional de enorme insegurança jurídica do ambiente de negócios brasileiro, inerente a todo tipo de grande negócio em nosso território, potencializada nesse caso específico, por conta do que se passou com o Vasco”, acrescenta.
No final de 2024, Milei revogou um decreto que promovia benefícios fiscais para os clubes de futebol do país, numa demonstração que vai de encontro ao desejo de ver os clubes se tornarem empresas. Ao assumir o cargo em março daquele ano, o mandatário discursou na feira agroindustrial Expoagro, um dos principais eventos da época em Buenos Aires, e revelou que o Grupo City tinha interesse em comprar grandes clubes da Argentina. “É um investimento monumental. Ou preferem continuar nessa miséria, onde cada vez mais temos um futebol de pior qualidade?”, disparou.
“Os clubes argentinos deveriam ter ao menos o poder de optarem por um modelo associativo ou não, como ocorre no Brasil. Em outros países, como Portugal e Espanha, a lei foi ainda mais incisiva e obrigou a transformação. A gestão de um clube por uma empresa permite a atração de mais e maiores investimentos, na medida em que o investidor se torna dono, a governança passa a ser levada a sério”, explica Cristiano Caús, sócio fundador e responsável pela área de Direito Desportivo na CCLA Advogados.

Para Talita Garcez, sócia do escritório Garcez Advogados e Associados, o Estudiantes pode tentar romper as barreiras políticas e jurídicas que hoje impedem a criação de SADs na Argentina. “O caminho passa por duas frentes: de um lado, a pressão política, aproveitando o discurso do presidente Milei, que já se posicionou favorável à abertura do futebol ao capital privado; de outro, a via judicial, questionando se a AFA pode de fato restringir a autonomia dos clubes em se organizarem como empresas. Portanto, sim, existem recursos e meios para avançar, mas o êxito depende muito mais da correlação de forças entre AFA e governo”, explica.
Em julho de 2024, o Governo da Argentina havia liberado o capital privado no futebol argentino a partir de novembro deste ano, autorizando a transformação em SADs. Mas o principal entrave para essa mudança está na briga com Claudio “Chiqui” Tapia, presidente da Associação do Futebol Argentino (AFA) e que vem conseguindo mobilizar os clubes mais tradicionais do país, como o Boca Juniors, fazendo com que essas medidas cautelares acabem parando na Justiça e barrando essa liberação.
A troca de farpas não terminou por aí. Em julho deste ano, o presidente da Argentina, Javier Milei, usou suas redes sociais para elogiar o futebol brasileiro e falar da transformação dos clubes argentinos em SADs, após a eliminação de Boca e River Plate ainda na primeira fase do Mundial de Clubes da Fifa, disputado nos Estados Unidos. As críticas também foram um ataque a Tapia.
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“Nem River, nem Boca. Sem argentinos no Mundial de Clubes. O Brasil foi com quatro times, os quatro passaram. Até quando teremos que apontar o fracasso do modelo Chiqui Tapia? Um campeonato frágil, com 30 times, sem competitividade, sem SAD, sem incentivos. Não está a altura do tremendo público argentino que lota estádios ao redor do mundo. Insisto, ‘Chiqui’ Tapia e seu minúsculo círculo fazem mal ao futebol argentino”, publicou.
Além da questão da SAF, o Estudiantes pensa “grande” e se diferencia por capitalizar novas receitas. Dentro do moderno Estádio Jorge Luis Hirschi, o restaurante León se tornou um diferencial do Estudiantes e é um dos únicos três estabelecimentos desse tipo em estádios de toda a Argentina. Localizado à beira do campo, o espaço funciona durante todo o ano e oferece uma experiência gastronômica completa, aproximando ainda mais o torcedor da atmosfera do clube.
“Hoje, estádios e arenas precisam ir além do futebol. Espaços como camarotes e restaurantes têm potencial para se tornarem verdadeiros pontos turísticos. Funcionando durante o ano inteiro com shows, eventos, jogos e até experiências gastronômicas, a ideia é transformar o torcedor ocasional em um frequentador desses ambientes e atrair outros públicos”, afirma Leo Rizzo, CEO da Soccer Hospitality, empresa especializada em ambientes premium, que possui camarotes em nove estádios brasileiros.
Depois de perder o jogo de ida por 2 a 1, no Maracanã, em partida marcada por diversas polêmicas de arbitragem, o Estudiantes recebe o Flamengo, nesta quinta-feira, em La Plata. O time argentino precisa vencer por dois gols de diferença para avançar ou por um gol para levar a decisão para as penalidades. Quem se classificar enfrenta o Racing nas semifinais da Libertadores.





