Luiz Teixeira foi levado à TV por Neto e hoje orgulha avó na Globo: ‘Ocupo e amplio espaços’

Jornalista cresceu ouvindo rádio e não se imaginava na televisão por ser negro, mas chegou ao Jornal Hoje e ao Esporte Espetacular; em conversa com o ‘Estadão’, relembra trajetória e reflete sobre a responsabilidade de ser uma exceção

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Foto do autor Bruno Accorsi
Atualização:

‘Vó Maria, um beijo!’, dizia Luiz Teixeira ao encerrar o Globo Esporte SP, comandado por ele durante as férias de Felipe Andreoli ou no rodízio de apresentadores após a saída do titular, até a contratação de Fred Bruno. Do outro lado da tela, no Jardim Mirna, bairro de Taboão da Serra conhecido como Morro do Piolho, as palavras eram recebidas por Dona Maria dos Prazeres, avó do jornalista, que mantém religiosamente o hábito de assisti-lo, agora na faixa esportiva do Jornal Hoje e no bloco paulista do Esporte Espetacular.

Assistir aos dois tradicionais programas da Rede Globo preenche para Dona Maria, de 92 anos, a dose de companhia diária que teve de Luiz enquanto ele crescia, em uma casa onde moravam o total de 14 pessoas da família. A avó passou ao neto a paixão pelo rádio, meio pelo qual ele se enveredou logo no início da carreira, sem imaginar que um dia faria a transição para a televisão, realizada com apoio de José Ferreira Neto, no Grupo Band, em 2018.

Dona Maria, avó de Luiz Teixeira, acompanha os passos do neto. Foto: Arquivo pessoal

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“Por que que você acha que pode fazer jornalismo se você não tem espaço para trabalhar?”, ouviu de um de seus familiares, quando começou a cursar a faculdade na Anhembi Morumbi, em 2006, por meio do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies).

Quem disse aquilo vivia a mesma realidade que Luiz e mantinha um pensamento duro sobre o mundo, o qual o neto de Dona Maria resolveu desafiar. Em resumo, ele não sonhava com carreira na TV porque não se via nessa posição por ser um homem negro, mas travou uma batalha interna e construiu o caminho que o levou a ser uma das exceções.

“Não passava pela minha cabeça porque existem estereótipos que a gente acaba absorvendo ao longo da vida. Quando se conta uma história com narrativa única, você acaba acreditando naquilo como verdade absoluta. Então, não há homens pretos trabalhando numa bancada de jornal e, quando tem, é o preto único. Tinha a Glória Maria, e o Heraldo (Pereira) no jornalismo, e o Abel (Neto) no esporte. Então, não cabe mais ninguém. Isso foi sendo vendido ao longo do tempo para mim”, conta ao Estadão.

Na Globo, Luiz Teixeira tem o objetivo de “ocupar e ampliar espaços”, lema que aprendeu com Paulo César Vasconcellos, comentarista da SporTV, e repetiu no encerramento de sua primeira aparição no Globo Esporte. Por mais que seja desgastante assumir o posto de ativista e se expor diariamente, ignorar o tema racismo não lhe parece viável, muito menos sensato, até porque sua simples presença na TV é recebida com ataques racistas nas redes sociais.

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“Gera um desgaste diário, mas tem uma frase do James Baldwin que ele diz que ser negro e minimamente consciente é viver o tempo todo com raiva. Eu só preciso - e faço isso através da terapia - canalizar essa raiva e transformar ela em energia para eu poder continuar lutando. Não posso tirar minha pele para viver e nem gostaria, porque eu adoro o jeito que eu sou”, diz.

Não posso abrir mão das minhas convicções, se não vou acabar não sendo eu. Me contrataram desse jeito, eu falava sobre isso antes de estar na TV, eu falava sobre isso no rádio, eu fui me aprimorando, eu fui ampliando o meu conhecimento. Fui ocupando alguns espaços e ampliando esses espaços.

Luiz Teixeira, jornalista esportivo

Dias de rádio no “Morro do Piolho”

Luiz Teixeira descreve sua infância como a de “quase todos os garotos brasileiros”, especialmente jovens de periferia e jovens negros, começando pelo sonho de ser jogador de futebol. Como tantos, foi criado por uma mãe solo, Lena Almeida, professora de português da rede pública que complementava renda com trabalhos secundários.

Uma das ocupações dela foi como telefonista e atendente do Show do Esporte na Band, com Luciano do Valle, antes mesmo do nascimento do filho, que virou jornalista e trabalhou na emissora por longo período da carreira. A vida corrida da mãe fazia o garoto passar muito tempo com a avó.

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Mãe de Luiz Teixeira, Lena trabalhou na Bandeirantes como atendente e telefonista do Show do Esporte. Foto: Arquivo pessoal

“Eu ficava o tempo inteiro com a minha avó ou com uma das minhas tias. Então a minha relação era muito próxima com elas. A relação materna, de proximidade, é óbvio que é com a minha mãe, mas de convivência era com a minha avó em todos os sentidos”, lembra.

Vinda da Bahia, Maria dos Prazeres, a matriarca, se instalou no bairro do Bixiga quando chegou a São Paulo, e foi lá que nasceu a filha Lena, até hoje passista da Vai-Vai, escola de samba pela qual Teixeira nutre grande paixão. Mãe de mais nove filhos, Dona Maria mais tarde se mudou para o Jardim Mirna. Foi a primeira moradora do local e, junto do marido, criava cabras, por isso era conhecida como Dona Maria das Cabras.

Quando Luiz nasceu, o avô já havia morrido. A casa na periferia de Taboão da Serra era ocupada por 14 pessoas, entre tios, tias e primos, abrigados em três quartos, uma sala, uma cozinha e um banheiro. Lá dentro, ressoavam as rádios AM ouvidas pelos mais velhos, como a Capital e a Record, e as vozes de comunicadores do calibre de Zé Béttio e Eli Correia.

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“A gente só tinha uma TV na casa, a TV da sala. Então, na hora do futebol a gente assistia, mas assistia à novela depois. E os outros jogos tinha que ouvir no rádio. Então, era um apaixonado por rádio, porque a minha família também é uma família que veio do do Nordeste ouvindo rádio”, conta.

Apesar da familiaridade com o rádio, o pequeno Luiz Teixeira não pensava em ser um comunicador. Antes, por volta dos oito anos, considerou até mesmo ser motorista de ônibus, pois morava perto de um retorno de divisão de bairro e via muitos veículos do tipo. “Eu adorava aquilo, então falava: ‘Se for para ser alguma coisa que não fosse jogador de futebol, queria ser motorista de ônibus’.”

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Colocado por Lena na escolinha Pequeninos do Jockey, na zona sul paulistana, o aspirante a jogador, então apelidado de ‘Romarinho’ por seu tipo físico, fez testes em clubes como Corinthians, Palmeiras e São Paulo, sem passar em nenhum. Chegou a avançar na primeira parte de um teste da Portuguesa, porém a mãe não tinha como levá-lo à segunda. O sonho de ser jogador de futebol começou a parecer uma utopia.

O jornalismo foi colocado no caminho de Luiz durante o ensino médio na Escola Estadual Wandyck Freitas, nome que tem bem gravado na memória por que a mãe o obrigava a decorar os nomes completos de suas escolas. “É uma parte triste. Se a gente fosse abordado pela polícia voltando para casa com a mochila, eles não precisariam abrir, porque ‘eu estudo no Maria Alice Borges Ghion’, meu ensino infantil. ‘Eu estudo no Domingos Mignoni’, que foi da quinta até a oitava série.”.

Na Wandyck Freitas, acompanhava a antipatia que os demais alunos sentiam por uma professora chamada Valquíria, formada em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP) e conhecida por ser zangada. Até o dia em que teve uma conversa com ela sobre o futuro, quando respondeu que não sabia o que fazer de vida, pois sempre quis ser jogador de futebol, ao ser questionado se pretendia fazer o pré-Enem.

“Ela começou meio que me a entrevistar: ‘O que você gostava de fazer?’. ‘Ah, gosto de assistir programas de esporte, ouvir narração em rádio, jogar futebol de botão e narrar, jogar videogame e narrar’. Ela falou: ‘Bom, se você não pode ser um jogador de futebol por falta de talento e oportunidade, nessa ordem, por que que você não faz jornalismo e virar um repórter, um apresentador’?”, lembra.

Ele decidiu prestar vestibular para jornalismo e tentou o programa federal Escola da Família, que oferecia faculdade gratuita em troca de trabalho em escolas públicas nos fins de semana. Passou na primeira fase da USP e foi aprovado na Casper Líbero e na Anhembi Morumbi. No entanto, a Casper não aceitava o programa na época, e quando ele foi assinar o contrato na Anhembi, descobriu que haviam encerrado o convênio.

Na infância, Luiz Teixeira queria ser jogador de futebol. Foto: Arquivo pessoal

Telemarketing e jornadas duplas

Matriculou-se mesmo assim. Aos 17 anos, trabalhava em telemarketing, recebia R$ 600 de salário para arcar com uma mensalidade de R$ 750, à qual sua mãe ajudava a pagar metade. Todo o primeiro semestre de 2006 decorreu dessa forma, até Luiz conseguir acesso ao Fies. Formado em 2009, quitou o financiamento apenas em 2018, quando já trabalhava na BandNews FM.

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Sua primeira oportunidade no jornalismo surgiu na Rádio Nova Difusora, em Osasco, onde gravava boletins não remunerados sobre os Jogos Olímpicos de Pequim em 2008. A rotina era desafiadora. Ainda trabalhava em telemarketing, ia para a faculdade à noite e de madrugada acompanhava os jogos para gravar os boletins no horário do almoço, muitas vezes usando o computador do trabalho por não ter internet em casa.

A seguir, ele conseguiu um estágio na Federação Paulista de Futebol (FPF). Foi lá que Isabel Tanese, responsável pela comunicação da entidade, decidiu que ele seria conhecido como Luiz Teixeira, o sobrenome de seu pai.

Nessa mesma época, com 19 anos, mudou-se com a mãe para um apartamento financiado por ela na Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU). “Eu ia ter o meu próprio banheiro, o meu próprio quarto, eu teria meus espaços. Trabalhando, eu consegui ajudar minha mãe com um computador e com uma internet.”

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Então, trabalhou como editor de esportes no Portal Vírgula, ao mesmo tempo em que acumulava múltiplos empregos, além de procurar oportunidades em grandes rádios. Sua primeira chance no rádio AM veio na Rádio Iguatemi, e mais tarde, através de um amigo, se juntou à equipe de Alexandre Barros, na Rádio Tupi, cobrindo a Portuguesa e campeonatos como a Libertadores e a Copa do Brasi.

Manteve a rotina de dois empregos por muito tempo, mesmo quando recebeu uma proposta para uma TV de automobilismo em Alphaville, que faliu em três meses. Um momento de grande satisfação profissional e pessoal foi quando conseguiu trabalhar na Rádio Capital, que sua avó tanto gostava.

“Eu falei para a minha avó: ‘a senhora vai me ouvir pela primeira vez na rádio que a senhora adora. A senhora sempre ouviu, vou tirar foto com o Eli Corrêa’. Eu cresci ouvindo o Eli Corrêa, ouvindo a Rádio Capital, então eu vou dar esse prazer para a senhora. Quando ela ouviu, foi uma realização tremenda para mim.”

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Em 2014, em busca de novo desafio e maior visibilidade após a Copa do Mundo no Brasil, Luiz foi para o R7. A rotina continuava intensa, e a notícia de que sua então namorada e hoje mulher, Suzane Nogueira, estava grávida da filha Sofia, o fez reconsiderar a exaustiva jornada de dois empregos. No dia em que decidiu pedir desligamento do trabalho na rádio, recebeu uma ligação que mudaria sua vida. Estava atravessando a ponte do Limão, na zona norte paulista, a caminho da casa da sogra.

Embora não tenha o costume de atender ligações dirigindo, abriu uma exceção. Era Eduardo Barão, então chefe de esportes da Rádio BandNews FM e hoje correspondente da Band em Nova York, oferecendo-lhe uma vaga de repórter, indicada por Fábio França, o mesmo amigo que o havia indicado para a Rádio Tupi.

“Sabe quem está falando?”, disse Barão. “Sei, eu não estou acreditando que é você, mas eu sei quem está falando”, respondeu Luiz. Então, parou em um posto de gasolina na Marginal Tietê. “Eu tremia assim... tremia, tremia, tremia”, relembra.

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“Eu ia ter um trabalho só, eu ia deixar de ter os dois empregos, ia deixar de ter o apelido de Julius do Todo Mundo Odeia o Chris, que todo mundo brincava comigo. A minha esposa brincava: ‘Ah, meu marido tem dois empregos, então não tem problema’. Isso que ela ainda era a minha namorada. E aí eu cheguei na casa da minha sogra em prantos, falando para ela e ela não acreditava”.

Essa foi sua primeira oportunidade CLT em uma grande rádio. Além disso, havia um forte laço afetivo. Ele já havia estado na sede da Bandeirantes quando criança, levado pela mãe nos tempos em que lá trabalhava, e teve uma breve interação com o jornalista Elia Júnior, que o levou para conhecer o prédio. “Eu sabia que minha mãe tinha esse sonho. Ela falava: ‘Um dia você vai trabalhar na Band, um dia você vai trabalhar com o Elia Júnior’”.

Embora tenha falado na entrevista de emprego que sabia operar a mesa de som, mesmo sem saber, sua curiosidade o fez aprender rapidamente no primeiro dia. Na BandNews FM, acumulou realizações profissionais, viajando e cobrindo competições importantes como a Copa América e as Olimpíadas, mesmo que à distância. Seu estilo solto e descontraído o levou a se tornar setorista do Corinthians.

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Luiz Teixeira apresenta o bloco paulista do Esporte Espetacular. Foto: Divulgação/Globo

Aparecer na TV com consciência racial

O reconhecimento veio do ex-jogador e apresentador Craque Neto, que ouviu Luiz no rádio e o convidou para participar do programa Baita Amigos, na BandSports, sua primeira experiência em TV. Ele estava voltando da transmissão de um jogo no interior de São Paulo, junto do narrador Dirceu Maravilha, que recebeu uma ligação de Neto.

“Dirceu, eu estava ouvindo o jogo do Corinthians com vocês, quem que é esse repórter aí, Luiz?”, disse o ídolo corintiano durante a conversa. “Gostei dele, ele é desenvolto,, desenrolado, fala do jeito que eu gosto”. Então, veio o convite, aceito na hora.

“Eu nunca tinha sentado numa bancada de TV para nada. Não tinha noção de nada. Eu falei: quero, vou”, diz Luiz Teixeira.

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O jornalista de Taboão da Serra continuou participando do programa e, mais tarde, dos Donos da Bola, o que lhe deu grande visibilidade. Isso o levou a fazer o quadro de esportes na BandNews TV. Então, começou a perceber que o espaço na TV, que antes não acreditava pertencer-lhe devido a estereótipos, era, de fato, seu.

“É óbvio que se diariamente eu apareço na TV, se eu estou com o dread solto, vão falar do meu cabelo; se eu estou com o dread preso, vão falar do meu cabelo; se eu faço uma trança, vão falar do meu cabelo. Porque é sempre algo direcionado para para tentar te diminuir, te atacar ou te desumanizar”, comenta.

“Eu acho que na mesma proporção que me gera um desgaste, me traz a certeza de que eu tenho que continuar, porque tudo que gera um desgaste em alguém, está gerando um incômodo. Porque tem um ponto de discordância que precisa ser debatido”.

Luiz Teixeira, jornalista esportivo

Durante a pandemia, Luiz passou 60 dias em casa devido ao acúmulo de horas extras na Band. Nesse período, impulsionado pelo caso George Floyd, aprofundou sua consciência racial e decidiu deixar o cabelo crescer, desafiando discursos antigos de que isso o impediria de conseguir emprego ou o faria ser confundido com “bandido”. Ele passou por um processo de maior autoconhecimento como um homem negro.

“Consciência racial eu sempre tive pela minha família, mas eu não me aprofundava porque a gente não tinha acesso a mais informações, a mais conhecimento. A internet era algo que surgiu muito depois, só na faculdade, quando comecei a abrir mais a a minha cabeça. Durante todo esse período da pandemia era leitura, vídeos e documentários”, conta.

“Deixava o cabelo crescer, e todo dia tirava uma foto no espelho para ver o meu cabelo crescer. Ficou black power, enraizei, fiz dread. Eu me descobri um homem negro. Eu sabia que eu era um homem negro, mas eu me descobri um homem negro durante todo esse processo. Me enxergando dessa forma, eu continuava aparecendo na TV, eu continuava sendo visto na rádio.”

Enquanto vivia a fase de autodescoberta, assistia a um seriado com a mulher no momento em que recebeu mais uma ligação para mudar de vida. Dessa vez, o convite era de Cauê Dias, chefe de reportagem da TV Globo, para uma vaga temporária. Mesmo sendo sincero sobre sua falta de experiência como repórter de TV, aceitou a oportunidade como um passo importante na carreira.

Ao deixar a Band, Luiz ouviu comentários de que sua contratação pela maior emissora do Brasil era por “cota” por ser um homem negro e usar dreads, mas encarou isso como uma validação. “Que bom, porque não dá para eu tirar a minha pele para ir trabalhar.”

Dona Maria, avó de Luiz Teixeira, acompanha os passos do neto. Foto: Arquivo Pessoal

Espaço ocupado e beijos a Maria das Cabras

Na Globo, teve que se readaptar ao formato, que exigia menos fala e mais concisão. Seu ponto forte em se comunicar e narrar histórias foi valorizado, e após um ano e meio na reportagem, foi realocado para a apresentação. Depois de coapresentar o SporTV News e fazer participações no Redação, idealizou e ganhou seu próprio programa, o Tá On, no qual explorava a linguagem radiofônica.

As experiências de sucesso no canal fechado o levaram a gravar um piloto para o Globo Esporte SP, sob o aviso de que “alguma hora iria entrar no rodízio”.

Quando o dia chegou, em um sábado, passou a noite sem dormir, suou frio e sentiu dor de barriga, até entrar no ar e constar que tudo correu bem. Até por isso, teve a confiança de honrar o compromisso que havia assumido consigo e com a mulher, de passar uma mensagem ao final do programa. “Lembrando: espaço ocupado é espaço ampliado”, disse, parafraseando PC Vasconcellos.

Aliviado, recebeu apenas uma cobrança depois da apresentação, de Dona Maria das Cabras. “Você terminou o programa e nem me mandou um beijo, né?”. Sem avisar ninguém, com medo de ser repreendido e não cumprir a missão, encerrou a participação seguinte mandando pela primeira vez o tradicional “beijo, vó Maria”.

“Ela não tinha TV a cabo, então não podia me ver no SporTV. Depois que eu saí da rádio, ela falava: “Ah, eu não te escuto mais, você tá trabalhando aonde?Ela estava no início de processo de Alzheimer, de perder um pouco a memória. Isso foi uma forma que eu encontrei”, diz.

“Depois eu perguntei para chefe se tinha algum problema terminar o programa mandando beijo para minha vó. Eu não sei quanto tempo ela vai ficar presente aqui com a gente. Então, enquanto ela estiver presente, eu acho legal ela saber que eu estou pensando nela naquele momento. Aceitaram, foi tudo numa boa.’

Em 2024, o jornalista que se desdobrava para fazer boletins sobre a Olimpíada de Pequim em 2008 esteve em Paris para cobrir in loco os Jogos Olímpicos. Lá, era inevitável lembrar do trabalho na Rádio Difusora, em Osasco, cidade onde mora desde que se casou.

“Por si só, é uma simbologia, pela dificuldade de buscar informação, de ter que ficar de madrugada assistindo na Globo porque eu não tinha TV a cabo, anotando no papel para gravar o boletim no outro dia, porque de madrugada a voz estava ruim”, diz.

“O Luiz de 2008, dos jogos de Pequim, foi revivido no Luiz de 2024 nos Jogos Olímpicos de Paris. Foi o período em que eu mais trabalhei na minha vida, eram 13 horas diárias, mas assim, eu não me sentia cansado durante o trabalho. Eu só me cansava quando eu fechava o olho e dormia, mas era um cansaço de realização profissional”.

Em Paris, Luiz Teixeira cobriu primeira Olímpiada in loco. Foto: Divulgação/Globo

Neste ano, Luiz foi direcionado para o bloco de esportes do Jornal Hoje e do Esporte Espetacular. Embora essa mudança o tirasse de sua zona de conforto no Tá On, que lhe dava mais liberdade criativa, ele a considera uma “escolha muito acertada”.

No programa de domingos, embora mais atrelado a um formato, trouxe sua assinatura ao implementar o quadro Jogando por Música, cuja ideia é ouvir artistas falarem sobre esporte. Luiz aproveita os muitos contatos que tem no mundo da música, cultivados trabalhando como assessor no meio sertanejo e nos tempos de Vírgula, quando podia acompanhar gravações do Programa Pânico com convidados que o interessavam. Hoje, mantém amizades com nomes como Thiaguinho, Péricles e Mano Brown.

Estar onde está hoje é considerado por Luiz Teixeira o melhor momento de sua carreira, bem próximo da experiência vivida nas Olimpíadas. Paciente e estratégico na condução dos passos profissionais, ele tem um próximo objetivo a cumprir: estar em uma Copa do Mundo. Até final de Liga dos Campeões ele cobriu, mas sonha com o maior torneio do mundo do esporte.

“Todos campeonatos possíveis eu tenho coberturas para contar a história. Uma Copa do Mundo num país diferente, numa cultura diferente, é algo que eu ainda almejo e está nos meus planos. Mas, assim como foram as outras coisas. A pressa vai ser a inimiga da perfeição, eu tenho, eu tenho muita calma nesses nesses sonhos e nesses objetivos. Porque repito, hoje eu vivo o meu melhor momento na TV.”

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