O mundo da bola e o futebol pelo mundo

O mundo da bola e o futebol pelo mundo

José Maria Marin, do campo às tribunas e aos tribunais

Apaixonado por futebol, palanques, palcos e premiações, ex-presidente da CBF morre aos 93 anos

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Foto do autor Mauro  Beting
Atualização:

Março de 1970, dias depois da demissão do treinador (e comunista...) João Saldanha da CBD, o vereador paulistano da Arena, partido governista, vai à tribuna da Câmara Municipal de São Paulo, pedir às autoridades militares uma “intervenção” e uma devassa na CBD (a CBF, de 1914 a 1979). Entre outras coisas, a maioria absurdas (quando não abstrusas e abjetas), pela entidade ser um suposto antro comunista, mesmo com o afastamento de Saldanha; e, também, porque o futebol brasileiro não poderia ficar à mercê da “vontade dos dirigentes cariocas”.

Esse vereador paulistano havia sido um discreto ponta-direita do São Paulo, no início dos anos 1950. Viria a ser, entre 1982 e 1988, presidente da Federação Paulista de Futebol. Por mais de anos, seria vice-presidente da CBF, até assumir em 12 de março de 2012, pelo afastamento “voluntário” (pressionado pela Justiça, FBI e quem mais pudesse) de Ricardo Teixeira. E, de março de 2012, até o Fifa Gate, em maio de 2015, quando foi preso, esse vereador que queria os comunistas longe da CBD em 1970, ficaria preso até a covid-19.

José Maria Marin durante entrevista em seu gabinete, quando era governador de São Paulo Foto: Oswaldo Jurno/Estadão Conteúdo

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O cartola político morreu neste domingo, logo depois do Dia do Futebol, um dia de paz e sempre do futebol. O dia em que José Maria Marin, aos 93 anos, partiu.

Uma longa ficha corrida no esporte. E na política esportiva. Como atleta discreto, como dirigente atuante e como agitador dos bastidores. Porque não só em 1970 ele pediu ao próprio governo ditatorial o afastamento dos cariocas. Também porque, cinco anos depois, na tribuna da Assembleia Legislativa paulista, ele fez um aparte ao discurso de ódio, e odioso, de Wadih Helu, ex-presidente corintiano. Deputado arenista que incitou ideológica e politicamente a prisão, dias depois, do diretor de jornalismo da TV Cultura, Vladimir Herzog.

Detido, torturado e morto nos porões da ditadura militar brasileira, há 50 anos.

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José Maria Marin, por quem tenho um apreço pessoal, pelo apreço que ele tinha, também pessoal, e nada ideológico, pelo meu pai, e eu menos ainda. Mas com quem eu tive boas conversas, boas brigas dentro e fora do ar, mas, ao mesmo tempo, uma convivência muito boa, quando eu fui curador do Museu da Seleção Brasileira, montado pela Media Pro, empresa espanhola, contratada durante a gestão de José Maria Marin e Marco Polo del Nero, em 2013-14.

Também na mesma época, eu fui diretor de uma série oficial da National Geographic, a respeito dos cem anos da Seleção Brasileira, produzida pela Canal Azul. E em todos esses momentos, a convivência foi muito correta, profissional e também pacífica. Até nas pendengas particulares e profissionais, Marin e Marco Polo foram muito corretos comigo e com as empresas de conteúdo que contaram a história centenária da Seleção Brasileira. E, para contar essa jornada, não se pode nunca tirar José Maria Marin de campo. Certamente, do nome do edifício da entidade na Barra da Tijuca, não devia nem ter sido escalado como nome oficial.

Marin nunca foi o cara do time. Mas esteve sempre nas escalações. Até quando foi governador de São Paulo, em 1982, ele foi vice de outro biônico, o inefável Paulo Maluf.

Mas, enquanto apaixonado por esporte, grande entendedor de futebol, por ter sido atleta e também dirigente, Marin era um personagem sempre presente. Inclusive, quando em todas as premiações e pódios, tinha que se esperar a chegada dele no palco, de Copa São Paulo, Campeonato Paulista e premiações da CBF e da Conmebol, no Estado de São Paulo.

Eu sempre brincava, ao microfone da Rádio Bandeirantes, vendo da cabine, de binóculos, a chegada dele... Eu dizia então que “agora já podia começar a cerimônia, porque Marin havia chegado”. E eu não sabia o porquê que a gente saberia anos depois das medalhas logo depois, quando Marin apareceu na televisão flagrado colocando no bolso uma das medalhas dos campeões juniores...

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Ele mesmo tinha uma série delas no pescoço. De Jesus a Einstein. Era uma das coleções de um cartola que veio do campo. Como tantas vezes queremos e desejamos. E nem sempre é a solução. Muito menos a seleção.

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Opinião por Mauro Beting

Comentarista SBT, TNT, Xsports, N Sports e BandNews FM. Escritor e documentarista. Curador do Museu Pelé e do Museu da Seleção Brasileira.