Guga: ‘Se eu tivesse parado por seis meses, minha carreira teria durado mais tempo’

Ao Estadão, astro do tênis relembra despedida das quadras, valida movimento de autocuidado da brasileira e aponta Fonseca como único tenista capaz de rivalizar com Alcaraz e Sinner no futuro

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Foto do autor Bruno Accorsi
Atualização:
Entrevista comGustavo Kuertentenista

“Não é que eu não queira, é que não consigo mais”, disse Gustavo Kuerten, o Guga, após ser derrotado pelo argentino Carlos Berlocq no Brasil Open, um ATP 250 da Costa do Sauípe, na Bahia, em 2008. Naquele momento começava a turnê de despedida que acabaria em Roland Garros, e o tenista, à época com quase 32 anos, explicava aos fãs que as dores crônicas no quadril o impediam de continuar jogando profissionalmente.

Massacrado pelo ingrato calendário do tênis de alto nível, Guga levou o corpo ao limite e não se arrepende disso. Hoje, quatro cirurgias depois, quando olha para movimentos de autocuidado como o feito por Bia Haddad, que encerrou a temporada 2025 mais cedo para “descansar o corpo e a mente”, percebe que poderia ter prolongado a carreira.

“Eu fiquei sabendo ontem sobre esse assunto”, contou o tenista de 49 anos, avesso às redes sociais e imerso em seu próprio tempo, durante conversa com o Estadão, uma semana após o anúncio de Bia. “De imediato já vem na minha cabeça: cara, se eu tivesse parado mais cedo pelo menos em um ou dois anos, eu teria jogado 20 anos a mais. Eu vejo que é uma decisão muito assertiva.”

Ao longo do papo em seu escritório no centro de Florianópolis, com um semblante reflexivo, ora trocado por gargalhadas e sorrisos largos, Guga revisitou e reimaginou momentos da carreira, depois de uma manhã de surfe e de horas de gravações institucionais. Ele foi escolhido como o rosto para divulgar o retorno do Torneio do Sauípe, agora como Challenger 125, em ação da Stella Artois, marca que patrocina a competição e da qual o tenista é embaixador.

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Jogar o ATP Finals de 2001, então chamado de Masters Cup, foi um dos episódios que custaram caro fisicamente ao tricampeão de Roland Garros. “Já não tinha mais condições de competir. Só que eu estou no Finals, oito melhores. Eu vou de arrasto”. Naquele ano, o torneio que reúne os tenistas top 8 do ranking quase foi realizado no Brasil, ao fim desbancado pela Austrália na disputa para ser sede.

“O natural seria, se eu entendo e tenho o conhecimento de hoje, algumas experiências, parar seis meses pelo menos, ou até um pouco mais. Ninguém vai morrer deixando de jogar Roland Garros, mas a sensação era aquela.”

Gustavo Kuerten, ex-tenista

Tenista Gustavo Kuerten, Guga, concede entrevista exclusiva ao Estadão em Florianópolis Foto: Bruno Nogueirão

A discussão sobre o calendário do tênis e o impacto físico e mental desse arranjo nos tenistas está mais quente do que nunca. Atual número 3 do mundo, o alemão Alexander Zverev disse estar “sozinho na vida e sem alegria”, em entrevista recente, na qual revelou enfrentar dificuldades para se sentir realizado mesmo quando vence em quadra.

Ex-número 1, Novak Djokovic aproveitou coletiva antes do Masters de Xangai para pedir maior união dos tenistas por mudanças no calendário. “Há mais de 15 anos eu falava que precisávamos nos unir e reorganizar”, declarou o tenista de 38 anos, vencedor de 24 Grand Slams. A fala veio após uma série de lesões no Torneio de Pequim e de Carlos Alcaraz ter desistido de jogar em Xangai por causa de problemas físicos.

Mesmo que fosse um atleta com a sensibilidade de dar atenção à vida pessoal e até ao lazer dentro da rotina de competições, Guga não conseguia fugir do desgaste ao qual todos os companheiros de profissão eram submetidos.

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Ainda assim, mostrou que tinha um pensamento contrário à cultura do sofrimento no esporte. Ao ser campeão da Masters Cup de Lisboa e virar número 1 do mundo em dezembro de 2000, aos 24 anos, o manezinho da Ilha se mandou para o Havaí e sumiu dos holofotes para passar alguns dias surfando, acompanhado dos amigos.

Enxergar que a vida vai além do esporte me ajudou muito. Balanceava de forma generosa as minhas iniciativas, ações e empenhos. Mas a gente se entrega para tudo porque é um desafio imenso... Com o tempo, descobriu-se que quem não quer se atrever tanto, é de direito. Antes, o atleta tinha que ser o super herói, sempre pronto. Não é assim, nunca foi e nunca será.”

Gustavo Kuerten, ex-tenista

Guga sai do mar depois de surfar na praia da Costa de Sauípe, na Bahia, durante o Brasil Open 2005. Foto: Valter Pontes/COPERPHOTO/AE

A percepção de Guga sobre vida e esporte foi moldada ao longo de uma trajetória em que a solidariedade e a gentileza sempre estiveram presentes, na figura da mãe Alice Kuerten, assistente social e presidente do Instituto Guga Kuerten, cujo objetivo é transformar a vida e resgatar a autoestima de jovens por meio do esporte.

O tenista entendeu cedo que a prática esportiva vai além da competitividade e usa há mais de duas décadas a grandeza do próprio nome para apoiar causas como a da luta por dignidade às pessoas com deficiência (PCDs). Era o caso de seu irmão, Guilherme, que tinha paralisia cerebral e morreu aos 28 anos, em 2007.

Muito antes, com apenas 9 anos, Guga perdeu pai, Aldo, vítima de uma parada cardíaca enquanto apitava uma partida de tênis. Em maio deste ano, quando entrou para o Hall da Fama do Comitê Olímpico do Brasil (COB), se emocionou ao lembrar dos entes queridos e ainda homenageou atletas paralímpicos como Clodoaldo Silva e Daniel Dias.

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Junto da consciência de que é preciso olhar o esporte por outros prismas, contudo, Kuerten tem nítido para si que para chegar e se manter no topo de uma modalidade como o tênis é preciso fazer escolhas.

“Se quiser viver esse desafio, precisa lidar com isso”, opina. “Para mim nunca foi abdicar de parte da minha vida, e sim que o lado do tênis naquele momento tinha uma prioridade maior. Isso também contribuía, porque não tinha um peso muito grande para carregar.”

Ao observar as escolhas feitas até agora por por João Fonseca, grande expoente da modalidade no Brasil atualmente, Guga não hesita em dizer que em breve o jovem carioca estará rivalizando com Jannik Sinner e Carlos Alcaraz como rivalizaram outrora Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic.

“Naturalmente, ele vai querer encostar e começar a ir para o front com os dois. Dessa geração que está próxima, o outro garoto, o Mensik, ganhou o Miami Open e também tem muito potencial, mas acho que o João, a longo prazo, desenvolve mais e, claro, depende do que pode aparecer semana que vem, num próximo ano. Existem rompantes de quem quer ir para festa. É um lugar que ninguém é convidado, precisa se intrometer e conquistar seu espaço aos trancos e barrancos.”

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O tricampeão de Roland Garros não repousa suas esperanças apenas em Fonseca e vê o tênis brasileiro com condições de chegar ao topo em um período relativamente curto ao longo dos próximos anos. Nomes como a própria Bia Haddad e as promessas Naná Silva e Victoria Barros, ambas de 15 anos, consolidam tal expectativa.

“A hora que tiver um jogador brasileiro, masculino ou feminino, em uma final de Grand Slam… vai ter em breve. Vamos arriscar nos próximos 10 anos. É difícil, mas vamos arriscar que vai dar certo. Imagina a alegria desse país, o que vai acontecer. A gente merece esse momento”

Leia a entrevista com completa com Gustavo Kuerten, o Guga:

A Costa do Sauípe voltará a ter um torneio do circuito, de 19 a 26 de outubro. É um Challenger 125, e não um ATP 250 como foi nos anos 2000. De qualquer forma, há uma importância em ter mais uma competição no Brasil e você tem uma história bonita com o Sauípe, onde venceu dois títulos, inclusive o seu último, e iniciou sua turnê de despedida. Como é ver o retorno de um torneio a um lugar tão emblemático?

Esse torneio do Sauípe tem um gosto todo especial. Eu lembro bem. Jogar em casa na época era raridade. E olha que ficamos buscando esse evento por anos a fio lá na ATP. Precisei chegar ao número 2… não, já era número 1! Precisou estar lá no topo para convencer a turma e, de fato, ter essa alegria imensa de jogar em casa, ao ponto de os títulos que eu venci, se fosse em outro lugar, não ganharia. Foram jogos que eu já tinha dificuldades no quadril, precisei lidar com adversários jogando em um nível altíssimo. Até chuva para dar um intervalo e colaborar.

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E com o Cória (Federico, tenista argentino), a outra final, até hoje emociona, cara. Se eu não me engano salvei o match point. Um calor de 85º graus naquela quadra, um forno, e ele novinho correndo para tudo que é lado. Eu olhava para a torcida. É claro, a gente encontra força do espírito, da energia, e as pessoas me fizeram acreditar muito durante essas duas finais que eu joguei no Sauípe.

Além disso, a diversão, o carinho, a oportunidade. O ambiente de jogar no Brasil é uma coisa de outro planeta. Para os outros jogadores já é especial. Para a gente, naquela época, que tinha pouco de internet. Viajava para a Europa e ficava totalmente isolado. Era realmente estar em casa, poder tomar o café da manhã, um pãozinho de queijo.

“Não é que eu não queira mais, é que não consigo”. Foi o que você disse na Costa do Sauípe, durante o Brasil Open de 2008, campeonato escolhido para iniciar sua turnê de despedida, para explicar aos fãs que suas dores nos quadris o impediam de continuar a carreira. Você mostrou uma vulnerabilidade que não era comum à época…

Ali deu para perceber a vontade das pessoas de que eu continuasse. Hoje eu retificaria a frase: em vez de pedir desculpas, era só pedir licença. É que nessa hora é permissível. O atleta faz tudo além do que pode. Mais do que atleta, a família, o treinador, é um projeto que a entrega é completa. Nessa hora, o momento precisa ser respeitado. De fato, nós tentamos buscar soluções e alternativas em todos os lugares. O nível da competição estava muito distante do que eu conseguia atuar.

Por isso, eu já fui para lá sabendo que seria a última ocasião desse gostinho lindo e inesquecível. Lá eu descobri que as pessoas gostariam imensamente, e até hoje: ‘Bora. Volta, Guga, para a quadra!’. Estavam esbanjando essa vontade nítida. Por isso, foi o motivo da manifestação também. Para que ficasse claro e, ao mesmo tempo, tivesse essa bênção do povo baiano, ir para uma nova fase da minha vida. Já passou tanto tempo e aparecem novos desafios, oportunidades, mas ainda uma conexão com o tênis muito forte.

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Guga ganhou seu segundo título de Roland Garros em 2000. Foto: Wilson Pedrosa/AE

Por muito tempo, dentro do esporte, se vendeu uma cultura de sofrimento que era praticamente obrigatória ao atleta, quase que uma glamourização dos sacrifícios inerentes ao alto desempenho. Esse discurso é utilizado até fora do universo esportivo, com analogias aplicadas ao cotidiano ou ao trabalho, e que nem sempre são saudáveis. Você, como todo atleta profissional, sacrificou aspectos da sua vida, mas sempre pareceu saber equilibrar isso. O que você pensa dessa lógica que coloca a competição acima de tudo?

A maneira de enxergar que a vida vai além do esporte sempre me ajudou muito. Balanceava de uma forma generosa as minhas iniciativas, ações e empenhos. De qualquer forma, a gente se entrega para tudo porque é um desafio imenso. E precisa ser assim. Com o tempo, descobriu-se que quem não que se atrever tanto também, poxa, é de direito. Antes, tudo era questionado, requisitado, e o atleta tinha de ser o super herói, estar sempre pronto e preparado. Não é assim, nunca foi e nunca será.

A gente, assim como todo ser humano, tem os momentos mais de disposição, de nitidez para solucionar, e horas que são duras, pesadas, isolado dentro da quadra ou até mesmo em um quarto de hotel . Mas também, para mim ainda é muito claro que, se quiser viver esse desafio, precisa lidar com isso. O mundo do tênis, que é um esporte extremamente competitivo, talvez um dos mais profissionais que existem, que requer competências de todas as valências possíveis, cada segundo vale muito a mais na quadra. Hoje em dia, até de descanso adequado, na comida e alimentação certa.

Quem tiver mais disposição e vontade de fazer isso terá mais sucesso. Claro, é um lugar que todo mundo busca, por isso que eu vejo a percepção mais nítida do extremo e excesso de necessidade, de treino. Talvez até seja uma troca. Para mim nunca foi abdicar de parte da minha vida e, sim, o lado do tênis naquele momento tinha uma prioridade maior. Isso também contribuía, porque não tinha um peso muito grande para carregar. Mas, o dia a dia, a função, o cara dorme e acorda, não tem descanso. Todo mundo comentando, falando lidando, e depois entrar na quadro.

Acho que foi ano passado que eu me deparei com isso. Cheguei em um jogo que estava aquela situação dramática, match point, eu olhava de perto e falava: ‘cara, como é que os caras aguentam?’. É por isso que o esporte é tão fascinante e, ao mesmo tempo, requer o máximo. Então, é natural que algumas pessoas se satisfaçam sendo o número 5 do mundo, 15, 20, e é um baita sucesso. Só que os questionamentos estão caindo por água abaixo. No final, é de direito, como eu pedir licença. Não é falta de vontade, é incapacidade de competir. Da mesma forma: eu quero descansar por motivos próprios. Assim como foi o meu motivo para encarar todo esse desafio. Ninguém me obrigou.

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Guga toca violão ao lado do treinador Larri Passos, no hotel Ritz, durante celebração do bicampeonato de Roland Garros em 2001. Foto: Wilson Pedrosa/AE

Como fazer as escolhas certas enquanto busca o equilíbrio entre ser um tenista competitivo e levar uma vida que não te esgote mentalmente?

Normalmente, o atleta e sua equipe, família, esse conjunto que bota o barco para navegar bem, deixa tudo preparado para ir tão longe. Essas pessoas são os responsáveis de estar opinando, dando lucidez para quem joga. imagina, 18 anos, 20, até 25, pegar o mundo, o dia a dia, dar explicações, ser convincente e perfeito na quadra. Conseguir determinar os próximo passos, o que de fato é melhor. Quanto mais a gente repara, os jogadores com maior sucesso e maior vitoriosos estão amparados por 10, 15 pessoas muito excepcionais. Deixam ele pronto para fazer o mais simples possível. A parte legal, que é jogar tênis.

De vez em quando apavora, mas é isso que a gente gosta. As outras tarefas exigem no mesmo gabarito de esforço. O que eu considero é esse grupo de suporte que dá condição para um Djokovic dá vida ficar lá 15, 20 anos. Federer, Nadal... atletas que a gente vê e percebe que de alguma maneira é possível lidar com essa situação. Porque também é prazeroso, é o nosso sonho, o que todos sempre buscaram. E vem normalmente, consequentemente, uma transformação de vida que requer ajustes de todas as formas.

A Bia Haddad decidiu encerrar a temporada mais cedo para cuidar do corpo e da mente. Como você vê esse movimento de autocuidado?

Eu fiquei sabendo ontem sobre esse assunto. De imediato já vem na minha cabeça: cara, se eu tivesse parado mais pelo menos em um ou dois anos, eu teria jogado 20 anos a mais. Eu vejo que é uma decisão muito assertiva. Quando a gente fala, hoje em dia a palavra é focada no estresse mental, mas tudo é mental, tudo é físico. Tem de estar lá, resolver. Tênis é assim, 150%, todos os dias, semanas, meses e anos. Por isso eu digo, esses caras (Federer, Djokovic e Nadal) são sensacionais, são únicos. Tem de observar e realmente tentar tirar o máximo do que eles fazem que é tão grandioso.

A normalidade é - e hoje em dia cada vez mais claro - parar um pouco mais cedo, dar o seu tempo para recuperações, estar novamente apto para enfrentar tudo isso. Na nossa época, não era nem permitido falar do assunto. Por isso ninguém trazia o tema, mas todo mundo colapsava da sua forma. Tinha gente que ficava seis meses sem ganhar uma partida e tinha que seguir. Hoje em dia, eu acho que é mais generoso com o atleta. Tanto na sua longevidade como profissional... começam com 18, 20, como a gente, e vão até os 40 se quiser, por causa dessa inteligência de se permitir, observar. ‘Esse ano eu vou me acalmar’.

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Guga e Bia Haddad Maia. Foto: Reprodução/Instagram

Se você fosse fazer esse mesmo movimento feito pela Bia em algum momento da sua carreira, qual seria?

Vários anos. Por exemplo, 2001 quando eu terminei completamente no limite das minhas capacidades totais lá na Austrália. Era para o Master ter sido jogado aqui no Brasil, olha que fatalidade aconteceu. Não conseguimos botar de pé esse local para receber o torneio e tivemos que ir lá para a Austrália. No final do ano, ‘vamos lá, vamos encarar’, fazer o quê?. Já não tinha mais condições de competir. Só que eu estou no Finals, oito melhores. Eu vou de arrasto.

O natural seria, se eu entendo e tenho o conhecimento de hoje, algumas experiências, pararia seis meses pelo menos, ou até um pouco mais. Ninguém vai morrer eixando de jogar Roland Garros, mas a sensação era aquela: “Não é possível, quando é que é que eu preciso estar lá?”. Tudo era montado dessa forma. Hoje, eu vejo que é mais harmonioso e os jogadores estão estendendo suas carreiras por muito mais tempo. Ele teve de ir lá longe para perceber que valia muito a pena se dedicar mais na hora que estivesse na quadra.

E o ser humano tem disso: tudo que está disponível, perto, ao redor, todo dia, o tempo todo, parece que “po, tô meio cansado, de novo, que chato”. De repente, fica um ano sem fazer aquilo, imagina a vontade que vem! De novo, tem o jogador que está mirando ser primeiro, segundo do mundo, entrar no top 100, está começando, top 10 pela primeira vez, está correndo atrás e não vai querer trocar por nada. Outros jogadores não só vivem momentos como precisam dar um passo calmo e de tranquilidade para voltar a vencer.

É natural e faz todo sentido. Os inconsequentes éramos nós. Começava a primeira semana de janeiro e terminava… o Finals de Portugal terminou dia 3 de dezembro. Aí eu volto para casa ficar cinco dias descansando e depois volto a treinar de novo. Não tem cabimento nenhum. Não vai dar certo, mas às vezes tem de ser a cobaia para outros tomarem decisões melhores.

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Guga lamenta derrota para Flávio Seretta no Brasil Open 2001, na Costa do Sauípe. Foto: Paulo Libert/AE

Apesar das discussões sobre o calendário, para o Brasil é importante receber mais torneios em solo nacional, como está acontecendo com o Challenger 125 do Sauípe. O quanto esse tipo de evento ajuda no desenvolvimento dos tenistas brasileiros que tentam escalar no ranking?

Quanto mais a gente tiver torneios desse nível com jogadores entre os 100, 200 do mundo competindo aqui no Brasil, nossos tenistas estarão mais próximos da realidade. É fundamental. Até, por coincidência, a gente terá dois eventos, um masculino e um feminino na mesma semana. Brinquei com o Léo (sobrinho de Guga), falei: ‘sensacional!’. Melhor mais do que menos nesse caso.

Isso é a vida do jogador, depende dessas oportunidades, de estar aí próximo jogando em casa. Eu, com as lembranças lá de trás, virei partidas perdidas com aquele ambiente da torcida. Às vezes, naquele torneio, na semana determinada, transforma, dá o salto. Os meninos, alguns mais jovens, outros estão há cinco, 10 anos ali, prontos para decolar. Essas competições dentro de casa acabam contribuindo imensamente.

E participar disso como embaixador da Stella Artois, que patrocina o Costa do Sauípe Open, fica uma maravilha. Primeiro, fui para Roland Garros, redesenhei o coração. Agora, o Sauípe veio até minha casa com as lembranças tão detalhadas e refinadas, com o saibro fazendo parte do contorno da taça (recebida por ele em ação de marketing), é uma satisfação muito especial. Lembro daquele ponto, daquele troféu. É um trabalho que acaba facilitando muito dentro do tênis: torneios com memórias inesquecíveis. Ainda, de alguma forma, trazer vida nova e longevidade para o tênis brasileiro é fantástico.

Como a gente está falando do circuito, e de um Challenger, é importante falar sobre os tenistas que estão fora dos 150, um pouco mais abaixo no ranking. Eles vivem um cenário de gastar muito e não receber de volta. Tenistas como a Carol Meligeni e o Karue Sell até produzem conteúdo sobre esse ‘lado B’ do esporte. Há também uma discussão sobre uma distribuição mais justa do prize money. Você acha ainda que há um caminho a ser percorrido nesse sentido?

Eles estão tentando equilibrar mais. Sempre terá porque afunila muito, e os principais levam praticamente tudo. Porém, quem trás o holofote para o tênis são as estrelas. Em todo esporte é uma configuração padronizada. Eu entendo bem essa etapa, que além do tenista receber quase que no tête-à-tête para sobreviver durante o ano. A competição é muito acirrada, e há jogadores, ou que se transformarão nos melhores do mundo, ou então que já estão há cinco, dez anos por ali. Cara experiente, faz de tudo, você vê batendo bola e parece que é top 10.

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Por isso que às vezes, em uma semana, a pessoa nunca quebrou a barreira do 100... De repente, ganha um Challenger desse, na outra passa um quali de Grand Slam, e nunca mais passa dos 50, 40 do mundo. Acontece diversas vezes. Esse estágio, é o mais difícil do tênis. O mais complicado de ultrapassar. Para trás disso é ainda mais doído. jogar os futures, a organização dos eventos é bem inferior. Ali é um se virar nos 30, tem de sobreviver. Na segunda etapa já está gabaritado. É quem está pronto para decolar e precisa passar naquele funil.

Uma final de Challenger de hoje em dia, quando para para observar, esse jogador no final do ano vai estar do mundo, 50 do mundo, 40, pronto para se posicionar entre os melhores. Acho que foi uma mudança da água para o vinho quando conseguimos realizar diversos challengers na América o Sul. Os brasileiros aproveitaram imensamente, os argentinos muito mais. Com isso a gente está crescendo, tem o Rio Open, o São Paulo Open feminino que regressou. Antes tinha o torneio masculino, agora a gente tem as meninas também.

Em 2000, Guga foi campeão de Roland Garros pela segunda vez. Foto: Wilson PEdrosa/AE

Discute-se, inclusive, sobre meios de dar mais visibilidade e reconhecimento, até em termos de equiparação de pagamentos, ao tênis feminino...

O tênis feminino talvez tenha a visibilidade proporcional (no Brasil) maior do mundo. A Bia trouxe esse holofote para a gente acompanhar masculino e feminino com a mesma valência. Mundialmente, o efeito tem uma gangorra importante, muito mais atenção para o masculino. Mas aqui no interno as meninas estão vindo com uma fome de chegar que é lindo de ver. Isso é sensacional.

Tem eventos, as federações estão muito melhor preparadas do que naquela época. Confederação também fez um projeto de muitos anos aprimorando e organizando mais adequadamente o tênis. E agora, o ponto final é continuar investindo nos professores, treinadores e técnicos. O ambiente está bem saudável. O que é difícil para gente? Torneios são na Europa e nos Estados Unidos, os Masters 1000. Tem a China que levou agora, o Oriente Médio que comprou uma série de eventos. Está longe, custa caro, mas os argentinos não fazem tão bem? Nós podemos fazer.

O tênis brasileiro está no caminho certo?

Eu vejo uma completa e distinta realidade do tênis brasileiro para um lado positivo, os próximos anos serão lindos, pode escrever. O João vem com o potencial que todos já sabem. Agora, a gente consegue ser um pouco mais claro. Na hora que ele estava começando, poxa, é sempre importante medir as palavras para deixá-lo amadurecer no tempo certo. Mas, hoje em dia, o mundo inteiro vê o João como futuro top 5, top 3 e com chance de ser número 1 do mundo. Isso vai estar lá, a gente vai poder assistir.

E as meninas no embalo da Bia, estão pegando fogo. É cedo para falar, eu vou me conter, mas tem muita coisa boa por vir. Quem ama o tênis, fica emocionado, lacrimeja os olhos pelo fato de a gente merecer ter jogadores novamente no Grand Slam, já existe uma conexão e uma história aguçada, cativa no emocional das pessoas.

A hora que tiver um jogador brasileiro, masculino ou feminino, em uma final de Grand Slam… vai ter em breve. Vamos arriscar nos próximos 10 anos. É difícil, mas vamos arriscar que vai dar certo. Imagina a alegria desse país, o que vai acontecer. A gente merece esse momento. O tênis brasileiro tem muitas pessoas que trabalham duro. Agentes que se dedicam com sua vida por completo. Se aconteceu duas vezes, primeiro com a Maria Esther e depois conosco, precisa vir a terceira.

Guga, Maria Esther Bueno e Roger Federer durante evento no Ginásio do Ibirapuera, em 2012. Foto: Ernesto Rodrigues/Estadão

Todos já sabem do potencial do João Fonseca e até onde ele pode chegar. Mas o que ele precisa melhorar para tornar realidade toda essa expectativa?

Eu concordo que o João é o jogador que tem tudo a melhorar. A cabeça dele só permite um pensamento: melhorar. Ele vai ser mais preciso no que ele faz bem quando melhorar nos ajustes do jogo dele, é o natural. Eu vejo, pela precocidade que são esses caras, que podemos chamar de absurdo - Alcaraz, Sinner e aí vem o João -, com essa idade jogando nesse nível, a questão dele é o tempo. Boas práticas estão acontecendo. O entorno é muito saudável. Competência e capacidade existe. Precisa quilometragem. Jogar cinco sets diversas vezes, ficar contra a parede e depois acertar tudo. Aí no dia seguinte, ‘como é que pode? Esqueceu?’. É assim Ganha um torneio e depois tem de ver como lida com isso.

O que assusta é a velocidade em que ele aprende. O que demoraria normalmente dois anos, leva três a seis meses. Dessa forma, um menino de 19 anos conseguiu terminar 2025 no pior do cenário 50 do mundo. De repente, se empleca mais uma semanada, 30, 20. Isso é fantástico, é muito acima de muito bom. É algo extraordinário. Nos dá segurança par afalar com convicção porque é justamente. No encontro nacional da nossa escola a gente comentou sobre isso: ‘é o extraordinário, mas lidando e gastando sua energia no ordinário’. Por isso que transforma.

Aquilo que parece tão complexo e mirabolante no tênis, ele enxerga de uma forma simples. Porque ele vai trabalhar, gosta, se desafia o tempo inteiro, e tem uma mentalidade vencedora com pessoas que estão o tempo inteiro regando, nutrindo. Isso tem uma recompensa natural e imediata. Voltando para a origem da pergunta. O que o João precisa melhorar? Tudo, e vai. Pode ter certeza. A direita vai ficar melhor, a esquerda também, a escolha das jogadas, dos golpes, do que fazer, do ritmo de jogo, qual torneio escolher. Ele precisa de tempo para desenvolver esse potencial brilhante que ele tem

A gente viu essa rivalidade entre Federer, Nadal e o Djokovic entrando mais tarde. Agora, está se construindo o Sinner x Alcaraz. Você considera que o João ou algum outro nome pode fazer o papel de Djokovic da atual geração dentro da rivalidade desses dois que estão se mostrando os grandes nomes do tênis?

Eu só vejo ele (João Fonseca). Naturalmente, ele vai querer encostar, dialogar e começar a ir para o front com os dois. Dessa geração que está próxima, o outro garoto, o Mensik, ganhou o Miami Open e também tem muito potencial, mas acho que o João, a longo prazo, desenvolve mais e, claro, depende do que pode aparecer semana que vem, num próximo ano. Existem rompantes de quem quer ir para festa. É um lugar que ninguém é convidado, precisa se intrometer e conquistar seu espaço aos trancos e barrancos. Essa é a pretensão que eu enxergo nele.

A rivalidade do Sinner e do Alcaraz está tão linda de se ver. É um provocando tanto o outro, que se destacaram do resto. Hoje em dia, eles estão em uma liga e a turma está correndo para chegar atrás. E quem quer ser número 1 do mundo hoje tem que subir um Everest. Mas vai devagarinho, com uma boa preparação, depois aquela estilingada. O nosso foi o Sampras e Agassi. Eu falei, ‘que é isso, pê? tem certeza? Está pronto para ser número 1? Então, bora, é acreditar no impossível’.