Médicos antivacina usam redes para faturar com ‘síndrome pós-spike’ sem comprovação científica
Após revelação do Estadão, curso de um dos profissionais saiu do ar; ministro da Saúde se manifestou sobre o caso. Crédito: João Abel/Estadão
A Advocacia Geral da União (AGU) enviou notificação extrajudicial à Meta, empresa responsável pelo Facebook e pelo Instagram, solicitando a remoção de postagens em que três médicos antivacina promovem consultas, tratamentos e cursos relacionados ao que chamam de “síndrome pós-spike”, cuja existência não tem comprovação científica.
Após a publicação de reportagem do Estadão Verifica sobre o assunto, o Ministério da Saúde constatou que os médicos difundiram informações falsas sobre a suposta doença e a alegada relação entre ela e as vacinas contra covid-19.
Para o ministério, “a disseminação, por médicos, de desinformação sobre vacinas de covid-19 por meio da narrativa de síndrome pós-spike, sem respaldo científico, associada à oferta de ‘tratamentos de detox vacinal’ de alto custo e à venda de cursos em redes sociais com tom alarmista, pode configurar múltiplas violações” ao ordenamento legal vigente.
Nota técnica do órgão afirma que as ações dos médicos podem, em tese, “enquadrar-se como charlatanismo, ao prometer cura por meios não reconhecidos, e como crime de publicidade enganosa ou abusiva na forma do Código de Defesa do Consumidor”.
Os médicos foram procurados por e-mail na quinta-feira, 20. Apenas Cardoso se pronunciou. Ele contestou as acusações (leia abaixo).
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A notificação à Meta é a primeira iniciativa tomada pelo governo federal depois de o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, anunciar ações em quatro frentes contra os médicos – as demais serão a abertura de processos civis e criminais na Justiça e de representação no Conselho Regional de Medicina de São Paulo. Esses passos serão tomados mais adiante, segundo o ministério.
Os médicos em questão são Roberto Zeballos, Francisco Cardoso e Paulo Porto de Melo. Eles publicaram um artigo em uma revista científica sobre uma suposta “síndrome pós-spike” ou “spikeopatia”, causada pela proteína spike, presente no coronavírus e produzida pelo organismo após a vacinação. O estudo foi retirado de circulação pela revista – isso acontece quando há falhas graves ou evidências de má conduta.
Utilizadas durante e após a pandemia, as vacinas de RNA mensageiro (mRNA) estimulam o corpo a produzir a proteína spike para ensinar o sistema imunológico a reagir contra ela, provocando a destruição do vírus em caso de infecção. Diferentemente do que alegam os médicos, estudos confirmaram a segurança e a eficácia dos imunizantes.

Na notificação à Meta, a AGU argumenta que, em julgamento recente sobre o artigo 19 do Marco Civil da Internet, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que provedores de aplicações de internet serão responsabilizados se, tendo ciência do cometimento de atos ilícitos, não removerem conteúdos gerados por terceiros. Nesses casos, segundo a decisão do STF, a remoção independe da existência de ordem judicial.
Para municiar a AGU, o Ministério da Saúde produziu uma nota técnica que analisou as revelações feitas pela reportagem do Estadão Verifica. Segundo o ministério, postagens feitas pelos três médicos no Instagram “desestimulam a vacinação, promovem teorias sem comprovação científica e associam indevidamente as vacinas de mRNA a desfechos graves”.
A nota técnica diz ainda que “tais conteúdos não se fundamentam em evidências consistentes sobre segurança ou eficácia vacinal, recorrendo à seleção enviesada de estudos preliminares e à omissão de contexto metodológico, caracterizando desinformação sistemática, com potencial de prejudicar coberturas vacinais, favorecer a ocorrência de agravos preveníveis e estimular disputas judiciais”.
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O ministério afirmou ter encontrado três categorias principais de narrativas que configuram desinformação. A primeira envolve o diagnóstico sem validação científica: “os autores promovem a chamada síndrome pós-spike como condição alternativa à covid longa, alegando que a proteína spike, induzida pela vacinação, permaneceria no organismo, causando efeitos crônicos”.
A nota observa que “essa síndrome não é reconhecida por comunidades científicas ou autoridades sanitárias e carece de evidências robustas”.
A segunda narrativa envolve “tratamentos inadequados e sem comprovação”: “a divulgação de supostas terapias para a síndrome pós-spike” em cursos e atendimentos particulares é realizada sem evidência de eficácia ou segurança, (...) configurando potencial infração ética ao explorar temores infundados para se obter vantagens econômicas.”
Por fim, o ministério analisou o desestímulo à vacinação contra covid. “Os profissionais vinculam a vacinação, especialmente com tecnologias de mRNA, a condições crônicas como fadiga, névoa mental e dores articulares, sugerindo paralelos com a covid longa”, afirma a nota.
“Tais alegações não são apoiadas por estudos clínicos ou análises consistentes, contrariando o consenso de segurança das vacinas e podendo impactar negativamente a adesão aos programas de imunização”, informa a nota.
A assessoria de imprensa da Meta não quis comentar a notificação extrajudicial enviada pela AGU. Em resposta ao Verifica, o médico Francisco Cardoso contestou as violações apontadas pelo Ministério da Saúde na nota técnica. “Trata-se de uma peça politizada, tecnicamente frágil e construída a partir de interpretações distorcidas de fatos inexistentes e assinada por notórios inimigos políticos”, afirmou.
Cardoso disse que nunca vendeu, promoveu ou divulgou nada sobre “detox vacinal” e que sempre combateu essa ideia. “Isso está amplamente registrado em aulas, vídeos e materiais abertos”, comentou. Ele também negou ter prometido cura ou oferecido procedimentos não reconhecidos. “Atribuir a mim supostas condutas, declarações ou práticas alheias a minha pessoa é uma imputação maliciosa, sem base nos fatos e violadora dos limites éticos mínimos do debate público.”









