Gerando resumo
Regimes militares no Brasil, na Argentina, no Chile e no Uruguai cometeram crimes – este é um fato reconhecido oficialmente pelos governos democráticos que sucederam os ditatoriais. Abusos e violações de direitos foram extensivamente descritos por historiadores que coletaram documentos, testemunhos e até confissões. Nas redes sociais, porém, negacionistas se dedicam à desconstrução dessa memória ao disseminar narrativas em que números de desaparecidos e mortos são subestimados, algozes aparecem como heróis e a violência é justificada por guerras que não existiram.
Nesta quarta-feira, 10 de dezembro, que marca o Dia Internacional dos Direitos Humanos, as agências de checagem Estadão Verifica, la diaria Verifica (Uruguai) e Fast Check CL (Chile), que fazem parte do LatamChequea, rede latino-americana de checadores de fatos, publicam uma série especial de reportagens sobre as campanhas de desinformação que deturpam a história das ditaduras militares do chamado Cone Sul.
As mensagens, mesmo em diferentes países, seguem padrões parecidos ao negar os crimes dos regimes autoritários ou justificar o rompimento das normas democráticas. As principais narrativas que serão analisadas ao longo deste texto são:
- Ameaça comunista – a alegação de que as intervenções militares foram necessárias para evitar a implantação de regimes coletivistas de inspiração soviética.
- Guerra entre dois lados – o argumento de que dois campos opostos cometeram excessos equivalentes ao lutar pelo poder.
- Apagamento de vítimas – o questionamento dos registros de números de mortos e desaparecidos, com o objetivo de levantar dúvidas sobre a prática de abusos.

As vozes do negacionismo histórico são amplificadas ou até lideradas por políticos de direita que se projetaram na última década, como Jair Bolsonaro, no Brasil, Javier Milei, na Argentina, José Antonio Kast, no Chile, e Guido Manini Ríos, no Uruguai. Não se trata de afirmar que apenas um dos extremos ideológicos seja negacionista. Na esquerda também há quem negue as fartas evidências de que Cuba e Venezuela são ditaduras. Mas esta reportagem tem foco no Cone Sul e na tentativa de reabilitação de seus regimes militares.
Para monitorar publicações feitas nas redes sociais entre 2019 e 2025, as agências de checagem fizeram pesquisas com palavras-chave como “regime militar”, “ditadura”, “contragolpe”, “falsa memória” e “desaparecidos”. As buscas foram feitas nas redes sociais X, Facebook, Instagram, Threads, TikTok e YouTube.
As pessoas citadas nesta reportagem – Jair Bolsonaro, General Girão, Zé Trovão, Pastor Marco Feliciano, Coronel Christóstomo, Javier Milei, Victoria Villarruel, José Antonio Kast, Johannes Kaiser, Hermógenes Pérez de Arce, Gloria Naveillán, Guido Manini Ríos e Roque García – foram procuradas, mas apenas o deputado brasileiro Coronel Chrisóstomo e o militar uruguaio Roque García responderam. Chrisóstomo disse que “jamais foi favorável a qualquer tipo de regime ditatorial implantado no Brasil e que é totalmente favorável a um país democrático que defenda permanentemente o povo brasileiro”. Já García afirmou que seria “uma canalhice” dizer que ele nega “a tragédia dos desaparecidos”.
No caso de Hermógenes Pérez de Arce, ele se limitou a comentar que em seu site estão disponíveis as instruções que Augusto Pinochet deu às unidades militares para respeitar os direitos humanos e a declaração de princípios da Junta Militar, mas não se referiu aos fatos negados sobre os quais foi questionado. Por sua vez, a deputada chilena Gloria Naveillán declarou que “nunca disse que não houve agressões sexuais, porque não tenho por que duvidar do que dizem as vítimas. O que eu disse é que isso não era uma política de estado, nesse sentido disse que afirmar que era uma política de estado era uma lenda urbana”.
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O fantasma do comunismo e as ditaduras como salvação
Nas redes sociais dos quatro países se encontra a narrativa de que os golpes militares perpetrados teriam evitado uma “ditadura comunista”.

Um post no Facebook, por exemplo, mostra imagens dos cinco presidentes do regime militar brasileiro e a data “31 de março de 1964” em letras amarelas. A legenda diz que houve naquele ano um “contragolpe no comunismo” e que o período militar foi de “21 anos de muita prosperidade, Ordem e Progresso”. Nos comentários, há pessoas dizendo que aquela foi “a melhor época” e pedindo a volta do regime militar.
Outra publicação, com mais de 6 mil interações, mostra uma vereadora gaúcha discursando a favor da ditadura e afirmando que, em 31 de março de 1964, o Brasil “disse não ao comunismo”.
A principal alegação é de que o presidente João Goulart e organizações de esquerda tentavam implantar uma ditadura comunista ou do proletariado no Brasil, nos moldes do comunismo da Rússia e da Revolução Cubana. Assim, a ação dos militares teria sido um contragolpe.
O professor do departamento de História da Universidade de São Paulo (USP) Marcos Napolitano explica que não existia ameaça comunista no Brasil em 1964. “Não havia luta armada em curso, nem há evidências de um golpe de Estado planejado pelo governo João Goulart, ainda que houvesse pressão de setores mais radicais para convocar uma Assembleia Constituinte, pois o Congresso bloqueava as reformas”, afirmou.
Para Napolitano, o que existia, de fato, era uma política reformista e nacionalista, que era conduzida pelo governo eleito e apoiada por alas de esquerda. No contexto da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, o nacionalismo econômico era entendido por setores conservadores como uma ameaça ao bloco Ocidental.
Nesse sentido, existem aqueles que chamam o golpe de “revolução”. Para Napolitano, é fato que a derrubada de João Goulart contou com o apoio de diversas camadas da sociedade, mas a ideia de que houve uma revolução, e não um golpe, não se sustenta. “O que houve foi um golpe de Estado, definido pela literatura acadêmica como uma intervenção da burocracia civil ou militar ou do sistema político institucional para derrubar um governo constitucional, ferindo a própria Constituição”, disse.
Revolução, explica Napolitano, é outra coisa. “Não foi a sociedade civil, ou parte dela, que derrubou o governo através de um levante, rebelião ou tomada do poder, o que poderia caracterizar uma revolução.”
Antes de chegar às redes, mensagens que deturpam a história são proferidas até em espaços públicos, como o Congresso. Em 2019, por exemplo, o deputado General Girão (PSL-RN) disse que o golpe “salvou” a democracia. “Nós não podemos permitir que queiram reescrever a história. A história verdadeira é esta: a revolução foi feita para implantar no Brasil um regime de democracia, e hoje nós festejamos essa democracia com eleições livres.”
Em sua carreira de sete mandatos consecutivos como deputado federal, antes de se eleger presidente, Jair Bolsonaro defendeu em diferentes ocasiões a “revolução de 1964”, chegando a pedir, em 2014, uma sessão solene para homenageá-la, o que foi negado.
Entre 2014 e 2019, por exemplo, Bolsonaro fez 18 postagens no antigo Twitter com o termo “1964” – elas somam mais de 61 mil curtidas. As publicações, no geral, enaltecem o golpe de Estado e falam em “ameaça comunista”.
Carlos Zacarias, professor de História da Universidade Federal da Bahia (UFBA), alerta para o fator multiplicador das narrativas negacionistas nas redes sociais. “Esses discursos, na medida em que são disseminados, são mais assimilados e produzem novos negacionistas.”
No Uruguai, o golpe de Estado foi perpetrado nove anos depois do Brasil, em 27 de junho de 1973. Foi o próprio presidente eleito, Juan María Bordaberry, do Partido Colorado, quem deu o golpe ao dissolver o Senado e a Câmara com apoio das Forças Armadas. Os anos anteriores foram marcados por ações armadas do grupo guerrilheiro de esquerda Movimiento de Libertación Nacional – Tupamaros (MLN-T). Até hoje, há publicações nas redes sociais que afirmam que o golpe teve como objetivo impedir a ascensão ao poder do MLN, porém o grupo havia sido derrotado em meados de 1972 com a desarticulação de sua estrutura militar e financeira.

Segundo o Site de Memórias do Uruguai, o autoritarismo avançava no país antes mesmo do golpe. As Medidas Prontas de Segurança, adotadas pelo ex-presidente Jorge Pacheco Areco, antecessor de Bordaberry, suspenderam garantias constitucionais e obteve poderes extraordinários em um contexto de repressão a grupos de esquerda.
Durante a ditadura uruguaia, o país implementou a Operação Condor – campanha de terror estatal realizada pelas ditaduras do Cone Sul com o apoio dos Estados Unidos – contra grupos de esquerda como a Federação de Estudantes Universitários do Uruguai, considerada pelo regime como o braço estudantil do Partido Comunista do Uruguai, ou a Convenção Nacional dos Trabalhadores.
Nas redes sociais, simpatizantes dos militares afirmam que as Forças de Segurança foram chamadas a defender os que estavam sendo ameaçados por terroristas marxistas, como mostra o post a seguir, no X. Outra publicação justifica a ditadura uruguaia ao dizer que, nas décadas de 1960 e 1970, toda a América Latina estava sob ataque do terrorismo marxista.

No Chile, o golpe militar foi dado alguns meses depois do Uruguai: 11 de setembro de 1973. A ideia de que a data “salvou” a nação de uma “ameaça comunista” foi amplificada por figuras públicas chilenas. É o caso do deputado Johannes Kaiser, fundador da sigla chilena Partido Nacional Libertário (PNL), que chamou o golpe de Estado de “justo e necessário”.
Kaiser tem alimentado a narrativa de que, na época, uma guerra civil foi evitada graças ao golpe perpetrado por militares em 1973 (aqui e aqui). Ele declarou explicitamente apoio ao ditador Augusto Pinochet. Nas eleições presidenciais de outubro, Kaiser obteve 13,94% dos votos, ficando em quarto lugar.
Outros defensores do regime no Chile tentaram renomear o período para suavizar o caráter violento e ditatorial. O ex-deputado e advogado Hermógenes Pérez de Arce, declarado pinochetista, publicou livros nos quais se refere ao período da ditadura como “Revolução Militar Chilena”, comparando-o em importância a eventos como a Revolução Francesa ou a Russa.
Assim como no Brasil e Uruguai, há publicações virais nas redes sociais afirmando que, ao intervir, os militares livraram o Chile de uma ameaça maior. O post a seguir, por exemplo, feito no X em 15 de junho de 2023, diz que o Chile estaria celebrando 50 anos de “ditadura comunista” se os militares não tivessem intervindo. A publicação alcançou 22,4 mil visualizações.

Outro post, com 252,9 mil visualizações no X, mostra uma foto de Pinochet com a legenda: “Está de acordo que Augusto Pinochet fez o correto ao derrotar o socialista empobrecedor Salvador Allende e salvar o Chile do comunismo?”.
A diretora do Centro de Direitos Humanos da Universidade Diego Portales, Lidia Casas, aponta que esses civis recuperam uma narrativa negacionista que impacta não apenas as violações de direitos humanos, mas a sociedade chilena como um todo. “Dizer que vamos encerrar este capítulo dos anos 1973 a 1990 e virar a página é ignorar que a sociedade chilena ainda sofre feridas decorrentes disso”, disse.
Na Argentina, os militares que deram o golpe de 1976, três anos depois do Uruguai e Chile, chamavam a ditadura civil-militar no país de “Processo de Reorganização Nacional”. Por meio deste “processo”, eles prometiam combater “a corrupção e a demagogia”, além de introduzir a Argentina num mundo “ocidental e cristão”. Desde 1975, os militares já perseguiam e desapareciam com opositores que, segundo eles, formavam um exército comunista com atuação na província de Tucumán.
Para justificar as ações do Estado, defensores dos militares afirmam que os opositores ao regime eram comunistas e terroristas. A Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (Conadep), criada após a redemocratização, observou em seu relatório que apenas uma pequena parte dos presos e desaparecidos políticos estava envolvida em ações armadas. A repressão teve como alvo uma base social ampla de sindicalistas, estudantes e outros grupos politicamente ativos.
A socióloga argentina Valentina Salvi, pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre Memória (IDES), explica que todos os opositores ao regime acabaram colocados no mesmo pacote, como comunistas e terroristas.
Um dos ditadores mais lembrados da Argentina é Jorge Rafael Videla, citado em postagens como o “herói” que teria salvado a nação das “garras comunistas”. Nessas publicações, é comum identificar menções ao comunismo “cubano” e “soviético”. É o que mostra esta publicação no X, que afirma que a Argentina está em dívida com Videla por “liberar este país das garras do comunismo”.

Terrorismo de Estado com outro nome: guerra entre dois lados
Na Argentina e no Uruguai, há um discurso coordenado conhecido como “teoria dos dois demônios”, que visa colocar em situação de equivalência a atuação dos regimes militares e dos grupos guerrilheiros que os combatiam. Essas narrativas difundem a ideia de que houve uma guerra entre lados opostos: de um lado, o Estado; de outro, os “terroristas” e “comunistas” – Montoneros na Argentina e Tupamaros no Uruguai.
Para a socióloga argentina Valentina Salvi, não há necessariamente uma negação de que houve uma ditadura na Argentina, mas uma operação mais sutil, que tenta justificar o que aconteceu. “O que está sendo dito é que houve uma guerra na Argentina. Se dissermos que houve uma guerra, não reconheceremos que, durante a ditadura, houve outra coisa, que foi o terrorismo de Estado”, explicou.
A pesquisadora explica a diferença: dizer que houve guerra é afirmar que havia combatentes de ambos os lados que lutaram com as mesmas forças e que, como em qualquer guerra, houve mortes. “Isso é esconder, obliterar, dissimular, eclipsar, podemos dizer muitas coisas”, enumerou. “É uma operação muito mais sutil do que a negação, porque convence.”
Esse movimento de igualar os dois lados deu origem à chamada luta pela “memória completa”. Para Salvi, trata-se de uma reação paradoxal decorrente das próprias políticas de memória adotadas pelo país. Após o fim do regime ditatorial, a Argentina não permitiu passar uma “borracha” nos acontecimentos, punindo torturadores.
Agora, contudo, muitos cobram que a memória seja completa: que a história dos crimes dos guerrilheiros seja contada também, como mostra a publicação ao lado, feita no Facebook. Ela lista supostas vítimas feitas pelos Montoneros e “outros grupos terroristas” na década de 1970 e afirma que eles também são “inocentes que esperam há mais de 30 anos que seus Direitos Humanos sejam reconhecidos e garantidos”.

Segundo Salvi, alguns jovens argentinos educados em instituições que reforçaram o discurso hegemônico da transição democrática, em favor das políticas de memória tão significativas no país, agora questionam esse discurso.
“Há um paradoxo, que é o fato de as políticas de memória terem produzido um efeito inesperado, que é uma reação a essas políticas”, disse.
As falas transgressoras e disruptivas de alguns jovens, explica, passaram a repetir termos usados pelos militares durante a ditadura, e agora eles falam em expressões como a “época do Processo [de Reorganização Nacional]” e chamam vítimas de terroristas e assassinos.
Um desses grupos é o Centro de Estudos Legais sobre Terrorismo e suas Vítimas (CELTYV), ligado à atual vice-presidente, Victoria Villarruel – um dos principais expoentes do discurso negacionista no país. A reportagem encontrou pelo menos duas publicações patrocinadas na Biblioteca de Anúncios da Meta vinculadas ao grupo afirmando que “faltam partes” na história argentina contada às pessoas.
Durante a campanha eleitoral, em 2023, Villarruel defendeu a revisão das políticas de memória do país, que tem um histórico de punição dos agentes da ditadura. A vice argumenta que as memórias preservadas na Argentina seriam “incompletas”, pois não contemplariam as vítimas dos grupos que lutavam contra a ditadura militar. Ela se refere às guerrilhas como grupos “terroristas”.
Entre 2019 e 2024, Villarruel fez 70 postagens no X com variações da hashtag “No Fueron 30 mil” – elas somam mais de 112 mil curtidas (veja aqui e aqui). Além de negar o número de desaparecidos, ela também destaca para a importância das “vítimas do terrorismo”.
O dia 24 de março, em que se relembra a data do golpe militar na Argentina, é chamado por estes grupos em diversas publicações nas redes sociais como o “Dia da Memória Completa”. Essas postagens são, geralmente, sinalizadas com algumas hashtags próprias do movimento: “#NoEranJovenesIdealistas”, “#EranAsesinos”, “#NoFueronIdealistasFueronAsesinos”, “#DiadeLaMemoriaCompleta”, “#MemoriaCompleta”, “#LaVerdadCompleta”. Os conteúdos reivindicam que os grupos guerrilheiros eram compostos por “assassinos”, e não “jovens idealistas”.
Nesta data, em 2024, a vice-presidente fez duas publicações negacionistas que somam mais de 5 milhões de visualizações. “Os direitos humanos são para todos. Assim como a memória. Verdade, justiça e reparação para as vítimas do terrorismo. Os responsáveis por esses crimes não podem ficar impunes. #NoFueron30000”, escreveu em uma delas.
As narrativas, contudo, não se limitaram somente à vice, mas se estenderam à própria Presidência. No primeiro Dia da Memória da Verdade e da Justiça do mandato de Javier Milei, data que relembra o golpe de Estado na Argentina, as redes oficiais da Casa Rosada divulgaram um vídeo com narrativas negacionistas. O conteúdo levanta a necessidade de uma “memória completa”, que contemple vítimas do “terrorismo” dos grupos de resistência à ditadura. Nega, ainda, os 30 mil desaparecidos. Em 2025, a data foi relembrada pelo governo com um vídeo de mesmo tom.

Para a socióloga Valentina Salvi, a direita e os setores ligados aos militares têm tido a capacidade de renovar o discurso ligado à memória. Ela ressalta que as mudanças do governo de Milei sobre o dia 24 de março, por exemplo, mostram que essa renovação de narrativa faz com que esses discursos sejam espalhados e aderidos ao presente pela sua ressignificação.
A especialista pontua que as disputas memoriais na Argentina despontaram com o início do julgamento por crimes contra humanidade e a transformação da Escola Superior da Marinha (Esma), local que foi usado na ditadura militar como centro de detenção de presos políticos, em um museu.
“Quando os julgamentos começaram, eles sabiam que a maneira de impedir os julgamentos era lutar no terreno da memória. Não era apenas para mostrar a ilegalidade atribuída aos julgamentos, era para mostrar a ilegitimidade dos julgamentos e trazer de volta a narrativa da guerra”, afirmou.
No Uruguai, uma rede articulada busca deslegitimar a violência do Estado ao atacar equipes de investigação de crimes de lesa-humanidade e violações de direitos humanos. Um dos alvos é o promotor especializado em direitos humanos Ricardo Perciballe, que lidera o trabalho de investigar e, eventualmente, solicitar o processamento de integrantes das Forças Policiais ou Militares, assim como colaboradores civis.
Os ataques coordenados alegam que a Justiça uruguaia é “injusta” e que os pedidos de processo são feitos “sem provas suficientes”, em uma tentativa de minimizar os crimes praticados pelo regime militar. Entre as acusações disseminadas nas redes, postagens alegam supostas ligações familiares de Perciballe com integrantes de grupos armados de esquerda.

Esses conteúdos são baseados em um documento dos arquivos da ditadura que registra as visitas do promotor a um centro de detenção militar incluído em denúncias administrativas. Perciballe, no entanto, afirma que teve um primo que foi preso político – o documento apenas registrava sua visita.
“Eu tive um primo que foi preso político e que eu ia visitar na prisão. Não tenho problema em reconhecer isso. Ele não tinha família no Uruguai porque todos estavam exilados. Depois saiu da prisão, mas nunca fez denúncia, nem prestou depoimento em nenhum processo”, explicou.
No Chile, de forma semelhante à Argentina e ao Uruguai, há uma narrativa que busca criticar o trabalho feito pelo Museu da Memória, que rememora as vítimas da ditadura militar. Nas redes sociais, um perfil com mais de 30 mil seguidores no X ironiza e invalida o trabalho realizado pela instituição oficial, acusando-a de ser tendenciosa e incompleta.
O Museu da Memória também foi alvo de ataques de figuras políticas. O deputado Johannes Kaiser, disse que, caso eleito, fecharia o instituto. Ele se referiu ao centro de memória como “antro anti-chilenos”.
O advogado Pietro Sferrazza, vice-diretor do Centro de Direitos Humanos da Universidade do Chile, aponta que a minimização é uma das formas de negar a violência de Estado durante a ditadura militar.
“Negacionismo é negar, justificar, minimizar. Preocupa-me que, desde certos setores políticos, não se aceitem esses consensos mínimos”, disse.
No Brasil, embora não exista um movimento coordenado que peça a “memória completa”, existem conteúdos que disseminam que a ditadura existiu somente para os “bandidos” e os “terroristas”. Essas postagens negam a truculência e violência do Estado, que seria limitada apenas àqueles que “mereciam”.
Esse tipo de narrativa, inclusive, já foi disseminada em espaços públicos, reproduzida por autoridades políticas. Em discurso na Câmara dos Deputados no dia 1º de abril deste ano, no aniversário de 61 anos do golpe, o deputado federal Zé Trovão (PL-SC) afirmou que a ditadura existiu somente para os terroristas.
“É muito fácil a esquerda, que não tem o mínimo de respeito por esta Casa, ficar nesse discursinho mole, nesse papinho furado de 1964, de ditadura! A ditadura só existiu para vagabundo! A ditadura só existiu para terrorista! A ditadura só existiu para quem explodiu bomba, para quem sequestrou, para quem roubou banco! Para quem trabalha não existe ditadura! Para quem luta pelos seus direitos nunca existiu ditadura neste País!”, afirmou.
No TikTok, um post de um canal de apologia à ditadura minimiza as ações do Estado: um vídeo mostra uma foto do presidente Lula e da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), enquanto questiona: “Se o período militar foi tão horrível, por que prenderam Lula e Dilma e depois soltaram?”. Outro conteúdo tenta dizer que a ditadura, na verdade, foi benéfica: “se não fosse pelos militares, a gente não teria expansão das universidades federais, ensino técnico gratuito, industrialização pesada”.
Outra estratégia semelhante que é disseminada no Brasil é a de imputar às vítimas do regime crimes que não foram cometidos por eles. A ex-presidente brasileira Dilma Rousseff e a jornalista Miriam Leitão, por exemplo, são comumente chamadas de “assaltantes de banco” e “assassinas”. Elas nunca foram sequer acusadas desses crimes.
Negação do inegável: das vítimas, dos crimes e da ditadura
Na Argentina, há um embate significativo sobre o número de desaparecidos da ditadura. Organizações de direitos humanos contabilizam 30 mil desaparecidos, o que é contestado por grupos de direita. O discurso ganhou fôlego com o apoio do presidente Javer Milei, que vem falando que o número de desaparecidos é de pouco mais de 8 mil pessoas.
Nas redes sociais, é comum que postagens que tratam dessa disputa sobre os números venham acompanhadas da hashtag “nofueron30000”. No geral, as publicações minimizam a quantidade de pessoas desaparecidas na ditadura argentina e frisam que as vítimas não eram “inocentes” ou “jovens idealistas”. Os posts virais que subestimam os crimes de Estado costumam ressaltar que a violência, na verdade, teria sido cometida por grupos guerrilheiros armados – recorrendo, novamente, à “memória completa”.
Como explicou a agência de checagem argentina Chequeado, a cifra de 30 mil desaparecidos começou a circular entre as reivindicações de organizações de direitos humanos. O número ganhou visibilidade pública em setembro de 1983, durante a terceira “Marcha da Resistência”, com a criação de 30 mil cartazes com silhuetas de pessoas – o que representava os 30 mil desaparecidos.
A agência de checagem argentina explicou que, em 2006, documentos desclassificados pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos mostram que militares estimaram cerca de 22 mil vítimas entre 1975 e meados de 1978. Essa cifra incluiria desaparecidos e assassinados.
Para o ativista Manuel Gonçalves, secretário das Abuelas de Plaza de Mayo e um dos bebês sequestrados durante a ditadura, há um debate sobre contar ou não o número de desaparecidos, mas o importante é que aqueles que planejaram os sequestros digam onde essas pessoas estão.
“Eles têm de nos dizer onde estão, quantos são, e nós encontraremos todos eles e cada família poderá ficar de luto. Algo que o desaparecimento forçado não permite que um membro da família faça, que é lamentar o desaparecimento de um ente querido, assim como o roubo de bebês”, disse.

Na tentativa de desqualificar esses desaparecidos e seus familiares, alguns grupos atacam essas pessoas nas redes sociais. As Mães e Avós da Praça de Maio são constantemente chamadas de “madres de terroristas” ou “viejas terroristas”.
No Uruguai, também há um embate nas redes sobre o número de desaparecidos. Nos primeiros anos do período democrático, ganhou força um discurso que afirmava que os desaparecidos estavam vivendo no exterior, ou que haviam adotado novas identidades para evadir as autoridades. Esse tipo de narrativa buscava desacreditar as denúncias de familiares e organizações de direitos humanos, e diluir a responsabilidade estatal nos crimes do terrorismo de Estado.
A elaboração de uma primeira lista oficial de detidos desaparecidos só ocorreu com a instalação da Comissão para a Paz, criada em 2000 durante o governo de Jorge Batlle, do Partido Colorado. O trabalho da comissão representou um marco no reconhecimento institucional do fenômeno e nas primeiras ações estatais orientadas a esclarecer os fatos. Atualmente, a lista oficial registra 197 pessoas detidas desaparecidas, das quais pelo menos 34 foram desaparecidas em território uruguaio, segundo a documentação da Secretaria de Direitos Humanos para o Passado Recente.

No entanto, a existência de um registro oficial não impediu a persistência de discursos negacionistas que questionam a veracidade do número e promovem a ideia de que o Estado uruguaio não seria responsável pela maioria dos casos. Essas afirmações omitem que a maior parte das vítimas foram desaparecidas em países vizinhos, fundamentalmente na Argentina, no âmbito do Plano Condor, dispositivo repressivo regional do qual participaram ativamente forças de segurança uruguaias.
Além disso, os relatos de suposto avistamento e localização atual desses desaparecidos não costumam ter base factual. Um dos casos frequentemente citados em campanhas de desinformação é o de Miguel Ángel Moreno Malugani, uruguaio que atuava na Federação Anarquista do Uruguai e na Resistência Estudantil Operária. Ele foi sequestrado em 1º de outubro de 1976 junto com María del Rosario Carretero na Argentina. Os dois seguem desaparecidos até hoje.
Alguns posts afirmam que Moreno teria reaparecido vivo após o terremoto no México em 1985, versão que tem como única fonte a declaração do coronel José Nino Gavazzo durante o Tribunal de Honra do Exército em 2006, sem evidência comprovável. Gavazzo, que morreu em 2021, foi condenado à prisão pelo assassinato de ao menos 29 pessoas durante a ditadura militar uruguaia.
A minimização do caráter violento da última ditadura uruguaia é amplificada por atores como o ex-comandante do Exército Guido Manini Ríos, que lidera o partido nacionalista de direita Cabildo Abierto (CA). Ele ganhou notoriedade pública por questionar o Judiciário e o tratamento dos casos de violações de direitos humanos cometidas durante o regime autoritário.
Em 2020, por exemplo, Manini Ríos disse ao jornal O Globo que houve “excessos” por parte dos militares, mas minimizou o caráter violento da ditadura. Ele afirmou, por exemplo, que não houve “política de aniquilação de opositores” durante o período.
O partido de Manini levou à ascensão de diferentes figuras vinculadas às Forças Armadas. Um exemplo é Roque García, militar radicado em Genebra, na Suíça, que constantemente alega “desmentir” narrativas sobre a responsabilidade dos militares no terrorismo de Estado durante a ditadura.
García foi candidato à Intendência de Montevidéu dentro da Coalizão Republicana, que engloba siglas de direita como Partido Nacional (PN), Partido Colorado (PC), Cabildo Aberto e o Partido Independente (PI). O militar obteve 5.594 votos.
Em abril deste ano, García classificou como “jogada de marketing” a Marcha do Silêncio – manifestação realizada anualmente em 20 de maio para rememorar os desaparecidos durante a ditadura militar. Sobre os detentos desaparecidos no período autoritário, ele disse que trata-se de uma “farsa lamentável”.
Procurado, García afirmou que é “uma canalhice” dizer que ele nega “a tragédia dos desaparecidos” e que isso seria uma forma rápida de “silenciar qualquer um que se atreva a questionar a farsa montada sobre uma tragédia real e dolorosa”.
Ele considera válidas 169 vítimas, número surgido da Comissão para a Paz do ano 2000, por ser um dado “frio, concreto e sem militância”. Afirma que depois veio “a decisão política” de que o Estado indenizasse 197 famílias, às quais teriam sido incorporados casos “extremamente duvidosos”, tanto em sua origem quanto na suposta responsabilidade do Estado uruguaio.
Além disso, discorda de que sejam considerados a maioria dos casos ocorridos fora do território uruguaio, já que o Estado responde “pelo que fazem seus agentes dentro do país, e corresponsabiliza-se pelo que fazem no exterior somente se atuarem com consentimento das autoridades locais”. Considerou que, às 32 desaparições forçadas no Uruguai, poderiam ser somadas responsabilidades pelos fatos de Automotores Orletti (um centro clandestino de detenção e tortura da ditadura militar argentina) e outros pontuais no Paraguai, o que levaria a cifra, “com generosidade”, a um total de “70 ou 80”.
No Chile, a negação e minimização do número de vítimas e da violência sistemática do Estado é uma das estratégias mais comuns e mais cruéis atualmente, e está bastante presente nos discursos de políticos. O ex-candidato à presidência Johannes Kaiser costuma se referir aos presos desaparecidos como “supostos”. Apoiador declarado de Pinochet, Hermógenes Pérez de Arce põe em dúvida não só a quantidade como a existência de desaparecidos.
José Antonio Kast, que disputará o segundo turno da corrida presidencial no próximo dia 14 de dezembro, disse em 2021 que na ditadura “não se prendeu opositores políticos”. Ele também relativizou os crimes pelos quais Miguel Krassnoff — ex-brigadeiro durante o período autoritário, condenado a mais de mil anos de prisão — foi sentenciado. Ele declarou “conhecer” Krassnoff e “não acreditar” em “todas as coisas que dizem sobre ele”.
Já Kaiser, durante um debate presidencial, afirmou que deseja encerrar o capítulo de 1973–1990 e sugeriu que indultaria os criminosos de Punta Peuco, uma prisão chilena voltada para crimes contra a humanidade e violações de direitos humanos durante a ditadura militar. Ele afirmou que “não se pode deixar pessoas de 80 e 90 anos apodrecendo em uma prisão apenas porque não agradam politicamente”.
Em um exemplo específico de violência de gênero, a deputada Gloria Naveillán, do mesmo partido de Kast, afirmou que as agressões sexuais cometidas contra mulheres durante a ditadura são uma “lenda urbana” e que “essas são denúncias que não estão provadas”. A violência sexual, no entanto, foi uma prática durante a ditadura, utilizada como uma forma de levar as vítimas à submissão, inclusive meninas.
O negacionismo no Chile também é utilizado para atacar políticas públicas fundamentais, como o Plano Nacional de Busca, iniciativa do governo de Gabriel Boric cujo objetivo é localizar as pessoas que desapareceram durante a ditadura. A pesquisadora Lidia Casas classifica como “maior crueldade” a atitude de indicar que a busca se mantém aberta apenas para manter o tema vivo, conforme sugerido por Kaiser. A dor que provoca a negação ou relativização é profunda, já que implica a negação persistente de um sofrimento que é transmitido entre gerações.
No Brasil, os questionamentos não circulam necessariamente em torno do número de mortos ou desaparecidos. O discurso mais comum é o que nega crimes, como torturas e assassinatos, e questiona até mesmo a existência da ditadura. Os discursos negacionistas são amplificados no Congresso Nacional: em 2017, no plenário da Câmara, o deputado Pastor Marco Feliciano (PSC-SP) disse “desafiar” a esquerda a mostrar quando houve ditadura no Brasil. “Vossas Excelências têm que aprender que não houve ditadura no nosso País”, disse.
Recentemente, o tenente-brigadeiro do ar Carlos Augusto Amaral Oliveira, ministro do Superior Tribunal Militar (STM), rechaçou o pedido de desculpas feito pela presidente da Corte Militar, ministra Maria Elizabeth Rocha, pelos erros da ditadura.
“Cada grupo social pode ter uma memória própria do período, é um direito. Já a desinformação histórica, ou negacionismo, é fruto de uma ação mais planejada que visa impedir o debate e ocultar fatos e processos históricos objetivos”, afirma o historiador Marcos Napolitano.
A Comissão Nacional da Verdade (CNV) conseguiu confirmar, em 2014, que as graves violações de direitos humanos durante a ditadura militar brasileira produziram ao menos 434 mortos e desaparecidos: foram identificados 191 óbitos, 210 desaparecidos e outros 33 desaparecidos que tiveram os corpos posteriormente encontrados.
“Esses números certamente não correspondem ao total de mortos e desaparecidos, mas apenas ao de casos cuja comprovação foi possível em função do trabalho realizado, apesar dos obstáculos encontrados na investigação, em especial a falta de acesso à documentação produzida pelas Forças Armadas, oficialmente dada como destruída”, diz o relatório final, publicado em 2014.
O Brasil teve, de 1995 a 2022, uma Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos. O grupo foi encerrado no penúltimo dia do governo de Bolsonaro, em dezembro de 2022, e reinstalado em agosto deste ano.
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