Alto custo de vida nos Estados Unidos pode ser calcanhar de Aquiles de Trump, diz diretor da Eurásia

Em entrevista ao Estadão, Christopher Garman fala sobre impacto das tarifas na população americana

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Foto do autor Daniel Gateno
Foto: TABA BENEDICTO / ESTADAO
Entrevista comChristopher GarmanDiretor-executivo para as Américas da Eurasia

O protecionismo de Donald Trump pode prejudicar sua popularidade com o eleitorado. Essa é a avaliação de Christopher Garman, diretor-executivo da Eurásia para as Américas.

Em entrevista ao Estadão, Garman destaca que o presidente republicano pode cair no mesmo problema que prejudicou o Partido Democrata na última eleição: o alto custo de vida nos Estados Unidos.

“A Casa Branca acredita que uma combinação de tarifas, menos impostos, regulação e deportação em massa vão levar o país a uma reindustrialização”, aponta o diretor da Eurásia. “Mas se o resultado dessas políticas for menos crescimento, mais inflação e um aumento no custo de vida, Trump vai pagar um preço por isso e suas políticas podem causar a mesma insatisfação que foi o calcanhar de Aquiles de Biden”.

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El presidente Donald Trump devuelve una pluma tras firmar una orden ejecutiva con la que se restablece la Prueba Presidencial de Aptitud Física en las escuelas públicas, el jueves 31 de julio de 2025, en el Salón Roosevelt de la Casa Blanca, en Washington. (AP Foto/Jacquelyn Martin) Foto: Jacquelyn Martin/AP

O diretor da Eurásia também comentou as divergências entre Brasil e Estados Unidos, classificando o momento das relações diplomáticas como “histórico”. “O governo Jimmy Carter também tinha uma relação muito ruim com o regime militar brasileiro, mas o atual momento é pior por conta das tarifas”.

Garman diz que o Brasil pode reduzir as tensões com Trump se oferecer pacotes de incentivos relacionados a terras raras aos EUA. “O Brasil não vai dar tratamento preferencial a compradores americanos em detrimento de chineses, mas pode oferecer incentivos tributários para agradar os americanos”.

O diretor da Eurásia vem ao Brasil na semana que vem para participar do Rio Innovation Week (RIW), um dos principais eventos de inovação do País, que acontece entre 12 e 15 de agosto — o Estadão é parceiro de mídia do RIW. Garman irá participar de painéis sobre perspectivas da política brasileira, rivalidade entre Estados Unidos e China, desafios do governo Trump e os impactos da inteligência artificial na geopolítica global.

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Confira trechos da entrevista:

Queria começar perguntando sobre as relações Brasil-Estados Unidos. Na sua avaliação, esse é o pior momento das relações entre os dois países?

Acho justo dizer que nós estamos vivendo um momento histórico na relação bilateral. Talvez o outro momento muito ruim da relação seja no governo Jimmy Carter, onde os EUA aplicaram medidas contra o regime militar brasileiro.

Mas o que estamos vivendo hoje é pior, porque os EUA estão aplicando tarifas mais proibitivas ao Brasil do que a outros países, além da média esperada para um país como o Brasil, e também temos um governo americano que está dando sinais de que vai ampliar as sanções para tentar reverter as regulações das redes sociais e julgamento contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.

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Então estamos em um momento histórico e muito preocupante na relação bilateral.

Estamos vivendo um momento histórico na relação bilateral, diz diretor da Eurásia

Christopher Garman destaca que o nível das relações diplomáticas entre Estados Unidos e Brasil é o pior desde a época do regime militar brasileiro.

Como as tensões poderiam ser reduzidas?

Se o governo brasileiro não retaliar as medidas de Trump, isso poderia reduzir as tensões. A Casa Branca já indicou que deve aplicar a Lei Magnitsky contra outros ministros do Supremo Tribunal Federal à medida que o julgamento de Bolsonaro se aproximar.

Se o governo Trump não ver uma reversão na regulação das redes sociais ou uma revogação do julgamento de Bolsonaro é provável que as sanções contra o Brasil escalem.

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Caso Lula retalie com tarifas, isso poderia levar Trump a anunciar mais tarifas.

Em paralelo, o governo brasileiro deve ter uma atuação diplomática junto com o setor privado brasileiro e americano para reduzir ainda mais o número de produtos que ficarão fora da lista de 50%.

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, participa de um evento em São Paulo Foto: Nelson Almeida/AFP

Nós vimos que a lista de produtos excluídos das tarifas só foi possível por conta de um lobby local. Foram empresas americanas que dependiam de importações de produtos brasileiros que fizeram o seu pitch para a Secretaria de Comércio dos EUA e saíram da lista das tarifas.

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Se o governo Lula conseguir unir esforços com o setor privado americano e brasileiro, pode ser que consiga mais resultados. Isso inclui conversas entre Lula e Trump, entre Geraldo Alckmin e Howard Lutnick e entre Fernando Haddad e Scott Bessent para colocar panos quentes.

Do lado americano, existem demandas que podem destravar as negociações, como o acesso a minerais críticos e as tarifas do etanol. Então existe um espaço para reduzir o tamanho do impacto das tarifas.

Para termos uma desescalada mais forte ainda, mas isso está no campo do improvável, o Congresso brasileiro poderia aprovar uma lei que ameniza a regulação das redes sociais ou a lei da anistia. A família Bolsonaro também poderia tentar intervir e pedir mais alívio nas tarifas.

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Esses são caminhos menos prováveis.

O ex-presidente do Brasil Jair Bolsonaro posa para uma foto um cartaz com seu rosto em Brasília  Foto: Luis Nova/AP

Existe um cenário em que a situação escale ainda mais?

Sim, é um cenário improvável, mas possível.

Trump poderia revogar os vistos dos ministros do governo Lula e poderia aplicar novas tarifas. Além disso, investigações americanas sobre práticas de comércio no Brasil podem levar a novas tarifas contra o Brasil.

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Se após tudo isso o governo Lula decidir retaliar com alguma medida, seja quebra de patentes ou taxar Big Techs, nós estaremos em um cenário que iria prejudicar muito a economia brasileira.

Em vários países que tiveram eleições como o Canadá nós vimos um aumento na popularidade dos candidatos anti-Trump. Lula deve surfar nesta mesma onda, ou está muito cedo para falar isso?

Se a eleição fosse daqui a cinco meses, eu diria que Lula se beneficiaria sim. Sem dúvida nenhuma ele está se beneficiando dessa onda nacionalista e também está se beneficiando dos preços dos alimentos, que estão se arrefecendo devido a boa safra.

Então, segundo nossa projeção da Eurásia, Lula já entraria em uma recuperação nos seus índices de aprovação neste segundo semestre e deve ter bons meses perante a opinião pública.

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Se olharmos para os institutos de pesquisa, a aprovação de Lula já subiu de quatro a cinco pontos percentuais em média e deve subir um pouquinho mais.

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, cumprimenta o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, em Brasília Foto: Wilton Junior/Estadão

Entretanto, se pensarmos em 2026, essa onda nacionalista tende a se dissipar e o impacto deve ser menor. Precisamos ver o perfil do candidato de oposição.

Quando olhamos para as principais preocupações do eleitor, as perspectivas não são boas para Lula porque o eleitor se preocupa com temas como segurança e corrupção, que tendem a favorecer a oposição.

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Mas quando olhamos a aprovação de Lula, ele tem um caminho mais favorável. Segundo os índices da Eurásia, Lula é o favorito porque vai estar com uma aprovação acima de 40% em 2026.

Principais preocupações do eleitor favorecem oposição, mas Lula tem aprovação favorável

O diretor da Eurásia, Christopher Garman, analisou o cenário eleitoral brasileiro para as eleições de 2026. Crédito: Danial Gateno

Então os sinais são mistos porque geralmente os candidatos com índices de aprovação acima de 40% ganham as eleições, mas o candidato que consegue ter o perfil mais próximo das preocupações da população, que seria o caso da oposição, também ganha.

É difícil cravar quem vai ganhar e a Eurásia avaliava que era cedo demais para dizer que a oposição era favorita. Acredito agora que Lula é o favorito. Eu já avaliava que, independente da onda nacionalista, a aprovação dele iria subir nos próximos meses.

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Desde que voltou a Casa Branca, Trump ressalta que quer ter acesso a minerais raros. Como as chamadas terras raras irão definir a disputa entre Estados Unidos e China e qual é o papel do Brasil nesse processo?

Estamos entrando em um mundo onde a competição por minerais críticos vai ser cada vez mais um embate geopolítico global.

Hoje, a China domina o processamento de terras raras que são essenciais para todos os setores e o governo Trump viu como Pequim utilizou a restrição de exportações de minerais críticos aos EUA como um poder de barganha enorme contra as ameaças tarifárias da Casa Branca.

Então os EUA querem buscar outras fontes de terras raras para reduzir a dependência chinesa no setor. É uma agenda que demora anos, não é fácil reverter isso. Existem desafios enormes de investimento e processamento.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, participa de uma reunião na Casa Branca, em Washington Foto: Alex Brandon/AP

O Brasil pode ter um papel nesse processo. O desafio é que o Brasil não vai dar tratamento preferencial a compradores americanos em detrimento de investimentos chineses.

O que pode ser feito é um pacote de incentivo tributário, de facilitação de investimentos, para tentar atrair investimentos americanos ou de outras empresas para poder exportar para os Estados Unidos.

Mas uma preferência aos compradores americanos não deve ocorrer.

Brasil pode ter um papel na disputa por minerais críticos, diz diretor da Eurásia

Christopher Garman analisa a rivalidade entre Estados Unidos e China e a disputa por terras raras. Crédito: Daniel Gateno

Até agora, o governo Trump tem divergido mais com a China em questões comerciais. Em quais outros temas Pequim e Washington podem divergir? Influencia chinesa no Pacífico? Inteligência Artificial?

Existe um consenso entre republicanos e democratas em Washington que a China é o principal adversário geopolítico dos Estados Unidos.

Washington tem o desejo de reduzir a dependência da economia chinesa em temas como minerais críticos e existem divergências geopolíticas. Trump mostra menos interesse na questão de Taiwan, mas quer ter o controle dos canais marítimos próximos ao Mar do Sul da China e a rota de escoamento de produtos.

Muitos membros do governo Trump tem uma visão muito anti-China, até mais do que no governo Biden. Mas Trump está mais disposto a negociar com a China do que alguns de seus principais assessores.

Quando a China ameaçou uma restrição de comércio de minerais críticos, Trump chegou a conclusão de que estava sobrestimando seu poder de barganha e se sentou para negociar com os chineses. Ele relaxou algumas restrições de transferência de tecnologia e gerou surpresa na comunidade de especialistas em China de Washington.

Mas existe uma competição em relação a inteligência artificial, minerais críticos e uma disputa sobre o acesso a passagens marítimas na Ásia.

O presidente da China, Xi Jinping, participa de uma reunião no Grande Salão do Povo, em Pequim, China Foto: Mahesh Kumar A./AP

Qual deve ser a importância da inteligência artificial na geopolítica mundial nos próximos anos?

Nós na Eurásia estamos investindo cada vez mais para repercutir e entender como as transformações tecnológicas vão impactar a geopolítica mundial.

Avaliamos que estamos perante uma onda de transformação tecnológica tremenda e o setor privado está subestimando como essas transformações irão trazer impactos econômicos e sociais.

O primeiro impacto é em relação às guerras. A inteligência artificial deve mudar como as guerras são conduzidas e estamos vendo isso na guerra da Ucrânia e também na guerra em Gaza.

O segundo impacto é em relação aos ataques cibernéticos, que podem ficar mais disruptivos com o auxílio de IA.

IA está mudando a forma que as guerras são conduzidas, diz analista

O diretor da Eurásia, Christopher Garman, analisa o impacto da inteligência artificial na geopolítica global. Crédito: Daniel Gateno

Além disso, tem a questão da produtividade. A inteligência artificial deve ajudar neste quesito e impactar o mercado de trabalho, com dificuldades e demissões em algumas áreas e um certo populismo do lado de políticos que serão contra a adoção de certas tecnologias para proteger indústrias e alguns setores da economia.

Também teremos uma competição geopolítica para desenvolver novas tecnologias. Estados Unidos e China vão competir em relação a isso e os outros países do globo vão avaliar como abraçar essas tecnologias para aumentar a produtividade.

Um robô serve pipoca na Conferência Mundial de Inteligência Artificial em Xangai, China Foto: Hector Retamal/AFP

Gostaria de explorar a relação entre Donald Trump e os empresários do Vale do Silício. Ele teve uma grande aproximação com Elon Musk, que não existe mais, mas ele segue próximo de Jeff Bezos, Mark Zuckerberg e Peter Thiel. Qual é o interesse das big techs no governo americano?

Nós vemos claramente uma relação muito próxima das Big Techs com membros do governo. Isso foi visto na relação entre Trump e Elon Musk, mas vai além disso.

Esse governo quer avançar a agenda de criptomoedas, de inteligência artificial, quer menos regulações. Essa agenda é muito importante para as empresas de tecnologia.

Por isso, o poder político das Big Techs dentro do governo Trump é muito grande e a Eurásia tem chamado a atenção para o perigo dessa influência das empresas de tecnologia na política e na economia.

O dono da Tesla, Elon Musk, participa de um evento sobre inteligência artificial em Bletchley, Inglaterra Foto: Leon Neal/AP

Gostaria de perguntar sobre política americana. Trump venceu em 2016 com um discurso protecionista que seduziu uma parte do eleitorado americano que sentia que tinha sido prejudicada pela globalização. Qual é a chance de Trump ter sucesso? É um investimento de longo prazo?

Donald Trump teve sucesso nas eleições em 2016 e 2024 porque a classe média do meio oeste americano comprou seu discurso de que o sistema estava quebrado e existia uma falta de confiança nas instituições.

Trump se colocou como um candidato antissistema, que não falava como político e transmitia autenticidade.

Ele também conseguiu explorar o sentimento contrário a imigração que existia na população americana. 40% dos americanos acreditam que são estrangeiros em seu próprio país.

Se tarifas trouxerem inflação aos EUA, popularidade de Trump vai cair, diz analista

O diretor da Eurásia, Christopher Garman, destaca os impactos das tarifas impostas por Donald Trump na vida dos americanos. Crédito: Daniel Gateno

Mas se sua política protecionista causarem inflação e aumentarem o custo de vida, isso vai ser um passivo para Trump.

A Casa Branca acredita que tarifas, menos impostos, regulação e deportação em massa vão levar o país a uma reindustrialização que irá atender essa classe média americana esquecida que votou nele.

Mas se o resultado dessas políticas for menos crescimento, mais inflação e um aumento no custo de vida, Trump vai pagar um preço por isso. Na última eleição presidencial, o que fez a diferença para Trump foi a inflação e o alto custo de vida nos Estados do Cinturão da Ferrugem.

Então o risco que Trump está correndo é de que suas políticas causem a mesma insatisfação que foi o calcanhar de Aquiles do governo Biden.

Os economistas estão prevendo que essa inflação deve chegar e os republicanos devem perder a maioria na Câmara dos Deputados nas eleições de meio de mandato no ano que vem.

Isso tudo coloca o movimento do Trump em dúvidas, até porque ele não pode concorrer de novo e é muito difícil eleger um sucessor.

Com isso, os democratas têm uma boa chance nas eleições presidenciais de 2028.