A suposta ordem secreta do presidente Donald Trump para que as Forças Armadas dos Estados Unidos estudem opções militares para atacar os cartéis de drogas no México pode ser um erro desastroso. Longe de frear o tráfico de drogas, isso transformaria os narcotraficantes em heróis populares em muitas regiões e os fortaleceria.
Até mesmo alguns dos ex-assessores linha-dura de Trump me disseram que uma invasão unilateral ou um ataque com drones dos Estados Unidos, sem o consentimento do México, seria um erro gravíssimo. Entre outras coisas, provocaria uma onda de nacionalismo no México que beneficiaria os narcotraficantes.
John Bolton, que foi assessor de segurança nacional de Trump, me disse isso sem meias palavras em uma entrevista recente: um ataque dos Estados Unidos aos cartéis no México “não faz sentido algum”.

Bolton reconheceu que é preciso fazer algo para combater os cartéis, mas pensar que os Estados Unidos podem resolver esse problema sem a ajuda do México é “uma fantasia”, ele me disse. Se Trump tentar, “vai piorar as coisas”, acrescentou.
Trump enviou ao Pentágono uma ordem secreta pedindo opções para atacar os cartéis que seu governo classificou como organizações terroristas, segundo informaram o The New York Times e a NBC News em 8 de agosto. Autoridades dos Estados Unidos confirmaram que o presidente está considerando todas as possibilidades, embora nada tenha sido decidido ainda.
Não me surpreenderia se todas essas notícias sobre uma possível ação militar fossem vazamentos da Casa Branca para pressionar o México a dar luz verde para um ataque, apresentando-o depois como uma operação conjunta. Mas se Trump decidir agir por conta própria, os resultados podem ser contraproducentes por três motivos.
Para começar, como Bolton me explicou, um ataque americano sem a aprovação do México poderia tornar os cartéis mais populares no México.
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Os narcotraficantes já compraram a lealdade e a proteção de muitas pessoas em suas comunidades. Não é por acaso que no México se popularizaram os “narcocorridos”, que glorificam os chefes do tráfico de drogas. Um ataque dos Estados Unidos aumentaria o apoio a eles.
Em segundo lugar, um ataque unilateral dos Estados Unidos provocaria uma reação no México. A presidente Claudia Sheinbaum ficaria sob enorme pressão para romper os acordos de cooperação antinarcóticos e de migração com Washington.
Sheinbaum já aumentou as apreensões de fentanil e os controles na fronteira em resposta às pressões dos Estados Unidos. Mas ela disse que uma ação militar americana está “absolutamente descartada”.

E, em terceiro lugar, talvez o mais importante: um ataque militar de Trump não ajudará a reduzir o narcotráfico enquanto os Estados Unidos continuarem sendo o principal consumidor de drogas do mundo.
Guadalupe Correa-Cabrera, diretora do Centro de Terrorismo, Crime Transnacional e Corrupção da Universidade George Mason, me disse que Trump tem um diagnóstico errado. Se continuar havendo demanda por drogas nos Estados Unidos, continuará havendo oferta, explicou.
Mesmo que alguns chefes de cartéis sejam mortos, os cartéis se dividirão em grupos menores e continuarão operando. São redes que se adaptam e sobrevivem. “Os cartéis não são mais estruturas verticais, como nos dias de Pablo Escobar”, ela me disse.
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O mais provável é que a ordem secreta de Trump ao Pentágono tenha sido simplesmente para que lhe dessem todas as opções possíveis, e não veremos nenhum ataque imediato. Mas não me surpreenderia se, no futuro, ele decidisse ordenar um ataque contra o México.
Trump é um mestre da distração. Ele é especialista em encobrir as más notícias de ontem com uma declaração escandalosa ou uma ação inesperada que ganhe as manchetes e desvie a atenção para que todos passem a falar de outra coisa.
Assim, se as coisas piorarem nos Estados Unidos, por exemplo, se a inflação aumentar devido às tarifas, ou se o escândalo político sobre o falecido financista Jeffrey Epstein se intensificar, Trump pode se sentir tentado a lançar um ataque militar como uma manobra de distração.
Sua base de seguidores nacionalistas e anti-imigrantes o aplaudiria, mas qualquer ataque unilateral dos Estados Unidos acabaria ajudando os narcotraficantes.




