Gerando resumo
ENVIADA ESPECIAL A BUENOS AIRES - Alícia Moreira, 80 anos, segura uma pequena lista de compras enquanto checa atentamente o preço de cada marca de farinha na prateleira de um mercado no centro de Buenos Aires. A aposentada mora sozinha na capital da Argentina e tem somente a sua pensão para se sustentar. Apesar de ganhar um pouco acima do valor mínimo da aposentadoria, de 320.277 pesos argentinos (R$ 1.151), o montante é insuficiente para todo o mês.
“Eu compro o mínimo, não compro roupas há anos, só comida. Sempre cozinho em casa para economizar e não sou de ficar saindo”, relata. “Mas ainda assim o valor não chega ao fim do mês. E olha que eu não ganho só o mínimo. Se para mim já está ruim, imagina para quem é mais pobre do que eu.”
Para ela, a situação piorou nos últimos dois anos. Embora a inflação tenha sido controlada, segundo os dados do governo argentino, o preço das coisas hoje consome muito mais de sua pequena aposentadoria que foi achatada ao longo desse período.

Falando alguns dias depois das eleições na província de Buenos Aires, ela diz esperar que os resultados ruins para o governo de Javier Milei tenham dado uma lição ao libertário. “Espero que a província tenha mostrado para ele que as pessoas não estão felizes, as coisas não vão bem e precisa melhorar”, disse.
A alguns corredores dali, Norma, também com 80 anos, olha o preço dos frios. Ela não quis compartilhar o sobrenome. Depois de trabalhar a vida inteira na área da saúde, ela se aposentou com um salário acima do mínimo. Ainda assim, precisa de ajuda dos filhos para sobreviver todo o mês. “Eu não gosto de política, para mim não importa quem está no poder, mas se impacta a vida das pessoas, é isso que eu quero saber”, desabafa.
Em um supermercado diferente, Silvia, 75 anos, começa a revirar o carrinho de compras depois de ser questionada sobre o que pensa dos preços. “Isso é caro”, levanta um pacote de bolachas. “Isso aqui também é caro”, levanta outro item. “Se eu for pensar ‘não vou levar’, eu não levo nada”, disse com indignação. “Mas eu tenho que ficar pensando nas coisas que eu vou comprar pra poder gastar, porque senão não consigo”.
Ela votou em Milei em 2023 porque não queria mais ver o peronismo no poder. Hoje reconhece que sua vida ficou mais difícil sob o governo libertário, mas não quer de forma alguma “ver o retorno do kirchnerismo”.
As três idosas, escolhidas ao acaso para compartilhar seus relatos com o Estadão em supermercados de Buenos Aires, reverberam uma reclamação unânime entre os aposentados argentinos: o empobrecimento.
Segundo o estudo “Perfis da pobreza” realizado no final de 2024 por acadêmicos da UBA (Universidade de Buenos Aires) e do Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Tecnológica (Conicet), os aposentados ficaram mais pobres no governo de Javier Milei.
No primeiro semestre de 2023, 13,2% dos idosos maiores de 65 anos inativos no mercado de trabalho estavam abaixo da linha da pobreza. No segundo semestre o dado foi para 17,2% e alcançou 30,8% no primeiro semestre de 2024. Não houve ainda atualização dos dados para 2025.
“A incidência de pobreza entre aposentados mais que dobrou no último ano [2024]”, aponta o estudo. “Esses dados revelam que um em cada três aposentados é pobre na Argentina e que, no último ano, mais de meio milhão de aposentados caíram na pobreza.”
Os números acompanham a flutuação dos dados de pobreza total no país, que saltou de 2023 para 2024, voltando a cair em 2025. Segundo dados do Indec (o IBGE argentino), 10,8% das pessoas mais mais de 65 anos (sem distinção de ativos e inativos) são pobres. É a menor taxa entre as faixas etárias, sendo as crianças o maior contingente. No entanto, diferentemente de outros grupos vulneráveis, os idosos não tiveram correções em suas assistências.
“A deterioração das aposentadorias já vem de muito tempo na Argentina. É histórico que, sempre que há algum ajuste, as pessoas que estão em situação de inatividade laboral são as que mais sofrem com isso”, explica Solange Rodríguez Espínola, psicóloga e pesquisadora do Observatório da Dívida Social da Universidade Católica Argentina (UCA).

Desvalorização da aposentadoria
A previdência é um problema em quase todo o mundo, onde a longevidade e a queda de natalidade tem invertido a pirâmide etária, com cada vez mais pessoas idosas se aposentando e menos jovens em atividade. Na Argentina, o tema se tornou mais sensível devido ao congelamento dos valores das aposentadorias em um contexto de aumento da inflação, e com a queda de empregos formais para sustentar os pagamentos.
“A Argentina tem um desequilíbrio estrutural nesse sentido e, hoje, esse assunto é sensível porque representa aproximadamente dois terços dos gastos. Então, qualquer modificação que você queira fazer, por menor que seja, fiscalmente representa um número muito grande”, pontua o economista da Universidade de Buenos Aires Fabio Rodriguez.
Hoje a aposentadoria mínima é de 320.277 pesos argentinos (R$ 1.151), valor recebido por cerca de 60% dos argentinos. Quem recebe esse valor também acrescenta mais 70 mil pesos (R$ 251) de bônus. O valor mínimo é ajustado conforme a inflação do mês anterior, o que significa que, na prática, se há aumento do índice, o poder de compra sempre estará um mês defasado.
Mas o cenário fica ainda pior por causa do valor do bônus, congelado nesses 70 mil desde março de 2023. Ou seja: o montante nunca foi ajustado pela inflação.
Para comparação, em agosto, o preço da cesta básica de alimentos, que delimita a linha da indigência no país, foi de 168.456,04 (R$ 609) para uma única pessoa (520.529,16 para uma família de quatro pessoas, R$ 1.882). Já a cesta básica total, que inclui artigos de vestimenta, transporte, educação e saúde, foi de 375.656,97 pesos por adulto (R$ 1.358), e 1.160.780,04 para uma família de quatro pessoas (R$ 4.197).

“Em termos de aposentados, o que você teve foi um ajuste muito forte nos primeiros meses”, explica o economista Juan Manuel Telechea. “O que Milei fez, após esse ajuste, foi congelar as aposentadorias em níveis bastante baixos. Por essa defasagem, as aposentadorias se recuperaram, mas ainda hoje estão 4 ou 5% abaixo [da inflação]. Se considerarmos um tecnicismo que é um bônus que era dado em 2023 e que em 2024 foi mantido congelado, então isso reduziu o poder de compra.”
Volta ao trabalho
Para complementar a renda, idosos de mais baixa renda têm voltado a trabalhar na informalidade. Segundo um estudo do Observatório da Dívida Social da UCA feito para o jornal argentino La Nación, dois de cada 10 aposentados voltaram a trabalhar para sobreviver. O número é o dobro de uma década atrás.
Há uma situação consequente, por exemplo, de pessoas que estão empregadas ou procurando emprego quando são pessoas em idade de aposentadoria. São dados que continuam sendo coletados, mas que observamos um aumento no último período temporal.
Solange Rodríguez Espínola, psicóloga e pesquisadora do Observatório da Dívida Social da UCA
Durante uma entrevista sobre a situação das universidades públicas, a ex-líder estudantil e agora docente da UBA Piera Fernández mencionou que seu pai continua trabalhando apesar de ter 72 anos e um problema grave de saúde. Ao pedir para explicar o caso, ela se emocionou.
“Sou muito grata por poder contar com meus irmãos, minha família e as economias dos meus pais, isso ajuda, mas gera muita angústia, ver que um pai enfrentou várias crises de forma constante na Argentina, sempre se reinventando para seguir em frente e agora, na aposentadoria, essa aposentadoria não é suficiente para pagar por seus medicamentos”, desabafa.
Pela situação, os aposentados se tornaram o retrato do ajuste econômico de Milei. Todas as quartas-feiras, associações de aposentados se reúnem em frente ao Congresso Nacional para pedir reajuste nas aposentadorias e pensões. Em uma dessas manifestações, a polícia entrou em confronto com os idosos e apoiadores, deixando vários feridos.
Em resposta, o Legislativo argentino chegou a aprovar uma lei de emergência que aumentava o valor das pensões e aposentadorias, descongelava e corrigia os bônus e atrelava os valores à inflação. Milei vetou a legislação, provocando um grande incômodo em sua base de apoio e entre seus apoiadores. Ele diz que os reajustes prejudicam sua meta de déficit zero. Por causa do veto, o presidente rompeu com sua vice, Victoria Villarruel, que tentou recolocar a lei em votação no Senado.
Depois da contundente derrota dos libertários nas eleições legislativas da província de Buenos Aires, Milei voltou atrás na intransigência, apresentando um plano de Orçamento de 2026 com aumento para aposentados e pensionistas. Os valores, no entanto, são ínfimos, segundo economistas.

Medicamentos, pessoas com deficiência e escândalo de corrupção
Além do cálculo econômico, outro fator contribui para a crise entre os aposentados: o governo modificou o programa de medicamentos gratuitos, tornando mais exigente o acesso além de demandar inscrição pela internet - o que por si só é um obstáculo para os idosos.
Em uma conversa informal sobre o contexto político argentino, o taxista Alejandro, 40, desabafou que estava fazendo corridas para comprar os remédios de sua avó. Ela é diabética e aposentada, mas o dinheiro da aposentadoria é insuficiente para comprar os medicamentos que precisa.
Eram quase 19h do dia 8 de setembro. Ainda faltavam 40 mil pesos (R$158) para comprar o remédio. Uma viagem de 10 minutos da Praça Constituição até a Praça do Congresso, no centro, deu um pouco mais de 5 mil pesos (R$ 20). “Antes a gente conseguia comer direito, podia viajar um pouco”, falou com revolta.
“Os idosos têm essa pirâmide de necessidades, em que os medicamentos estão acima de outras necessidades”, explica Solange Rodríguez Espínola, pesquisadora do Observatório da Dívida Social da Universidade Católica Argentina (UCA). “Talvez acima de vestuário e de saídas. Embora entendamos que tenha sido uma questão de se ajustar para ter os medicamentos, ou por não ter os medicamentos como antes eram fornecidos pelo Estado, o idoso também cria estratégias para resolver esse problema, redefinindo ou redirecionando outras despesas.”
No começo da política de ajuste fiscal, foram muitos os relatos de famílias que precisavam escolher entre comprar remédios ou comprar alimentos, porque levar os dois era inviável.
Uma situação semelhante à dos aposentados é a das pessoas com deficiência, mas com um plus: seus medicamentos estão em meio a um escândalo de corrupção. Áudios vazados por ex-funcionário do governo e amigo próximo do presidente afirmavam que 8% dos preços dos medicamentos para pessoas com deficiência eram supostamente desviados em propinas, sendo que 3% iam para Karina Milei.
O caso, embora ainda esteja em investigação, tem causado mal estar dentro do governo e com seus apoiadores. O escândalo é, inclusive, apontado como um dos motivos para a derrota dos libertários na província de Buenos Aires.
“Alguns dizem que o governo começou a ruir em julho e agosto, porque se meteu a mexer nos benefícios de setores muito sensíveis política e socialmente. Fica muito difícil aderir a um governo que, por exemplo, tira dos aposentados ou tira dos deficientes”, afirma Fabio Rodriguez.




