Peronismo triunfa na província de Buenos Aires, em derrota amarga para Milei

Coalizão peronista sai na frente com mais de 10 pontos percentuais contra candidatos libertários para o legislativo local, em um resultado que adianta a disputa nacional de outubro

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Foto do autor Carolina Marins
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O inferno astral de Javier Milei: escândalo de corrupção e eleições fazem liberal intervir no câmbio

No Fala, Duquesa!, colunista reage ao anúncio do secretário de Finanças de que o BC argentino será mais ativo para controlar o câmbio. Crédito: Edição: Jefferson Perleberg

Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

Em 7 de setembro, o presidente argentino Javier Milei sofreu uma derrota nas eleições legislativas da província de Buenos Aires, com o peronismo liderado por Axel Kicillof vencendo com 47% dos votos. A eleição, antecipada por Kicillof, reflete a insatisfação com Milei, agravada por escândalos e estagnação econômica. A participação foi de 63%. A derrota sinaliza desafios para Milei nas eleições nacionais de outubro, enquanto Kicillof emerge fortalecido como potencial candidato para 2027.

ENVIADA ESPECIAL A BUENOS AIRES - O presidente da Argentina, Javier Milei, recebeu um péssimo recado do seu eleitorado neste domingo, 7, ao ver o peronismo triunfar nas eleições legislativas da província de Buenos Aires. Embora a sua governabilidade não estivesse em jogo neste pleito, a votação adianta os humores para a disputa nacional de 26 de outubro.

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Segundo dados preliminares divulgados pela Junta Eleitoral da província, com 88% das urnas apuradas, a coalizão peronista Força Pátria levou a melhor com 47% dos votos contra 33,8% do partido libertário A Liberdade Avança. Ainda resta calcular como ficará a distribuição dos assentos no parlamento local.

Os argentinos estão renovando 46 assentos dos 92 do Congresso provincial e 23 bancadas das 46 do Senado local - que no Brasil seria comparável a um cargo de deputado estadual, mas a nível bicameral. Também foram eleitos vereadores e orientadores escolares em 135 municípios.

O governador de Buenos Aires, Axel Kicillof, vota nas eleições legislativas da província de Buenos Aires, em La Plata Foto: Ignacio Amiconi/AFP

Em geral, as eleições provinciais servem para avaliar a gestão dos governadores e prefeitos, além de definir as suas governabilidades pelos próximos dois anos. No entanto, este ano a eleição da maior província do país ganhou projeção nacional e está servindo de avaliador da gestão de Milei.

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A disputa se polarizou entre os libertários do A Liberdade Avança, de Milei, e o Força Pátria, do peronismo representado pelo governador Axel Kicillof. O partido Somos Buenos Aires tentou se apresentar como uma terceira via na disputa, levando 5% dos votos.

Milei reconheceu a derrota por voltas das 22h e disse que é o momento de fazer uma autocrítica dos erros. “O que precisamos deixar claro é que, sem dúvida, no plano político, sofremos uma clara derrota hoje. E se alguém quiser começar a reconstruir e seguir em frente, a primeira coisa que precisa aceitar são os resultados, e os resultados de hoje não foram positivos. Sofremos um revés eleitoral e precisamos aceitá-lo.”

“Quero avisar aos argentinos que o rumo que tomamos desde 2023 não vai se modificar, vai redobrar”, afirmou à sua base, que se encontra insatisfeita. “Vamos melhorar a cada dia para ter um resultado melhor no dia 26 de outubro”.

Já Kicillof celebrou os resultados em um longo discurso em seus comitê de campanha em La Plata sob gritos de “Axel Presidente”.

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Segundo análises, uma diferença percentual tão grande sinaliza uma previsão amarga para a disputa nacional. “Uma vitória do peronismo acima de cinco pontos será visto pelo mercado como um resultado ruim para o governo e reagirá a partir de segunda-feira”, opina o cientista político da UBA Facundo Cruz.

O presidente da Argentina, Javier Milei, participa de um comício em Moreno, na província de Buenos Aires Foto: Natacha Pisarenko / AP

Esquenta para as nacionais

Estas eleições também foram atípicas por sua data. Nos últimos 40 anos, as eleições legislativas de Buenos Aires ocorreram no mesmo dia que as eleições nacionais, que este ano serão em 26 de outubro. No entanto, o governador Kicillof decidiu antecipá-la, por uma razão política interna do peronismo.

Ao antecipar, a disputa acabou coincidindo com uma tempestade perfeita dentro do governo Milei, que pela primeira vez em dois anos vê os seus dados de aprovação cair. A estagnação econômica, as derrotas políticas do governo no Congresso e um recente escândalo de corrupção envolvendo a irmã do presidente, Karina Milei, nacionalizou uma disputa que deveria ser local.

Os resultados deste domingo adiantam o cenário que deve ocorrer em 26 de outubro, quando o país todo votará para renovar metade dos assentos do Congresso e um terço do Senado nacional.

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A secretária-geral da Presidência da Argentina, Karina Milei, acena para apoiadores em um comício na cidade de Moreno Foto: Luis Robayo/AFP

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Milei precisa urgentemente aumentar a sua bancada no legislativo se quiser garantir o futuro de suas reformas econômicas, já que perdeu o apoio dos demais partidos da direita argentina que davam base ao seu governo.

Atualmente o A Liberdade Avança conta com apenas 38 deputados, de 257, e seis senadores, de 72. Isso tornava o governo dependente dos partidos da direita tradicional e independentes. Mas uma série de brigas internas fez a governabilidade de Milei derreter.

Antes do escândalo de corrupção envolvendo Karina Milei, que tem desgastado a imagem do governo mesmo que não tenha sido comprovado, os libertários tinham como certa uma vitória no histórico reduto peronista.

Pesquisas de intenção de votos previam que Milei poderia levar sete dos oito distritos. A realidade foi outra, com o peronismo vencendo em seis dos oito distritos, inclusive onde não ganhava há 20 anos.

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O presidente da Argentina, Javier Milei, participa de um comício com a secretária-geral da Presidência, Karina Milei, em Moreno, Argentina Foto: Luis Robayo/AFP

Participação eleitoral

O maior temor tanto do peronismo, mas principalmente dos libertários, era a baixa participação eleitoral. Com o clima de apatia que vem se instalando na população argentina, esperava-se uma abstenção considerável.

Mas os argentinos se motivaram a votar. Antes do meio-dia, a taxa de participação já estava em 30% e às 16h já havia superado os 50%. Às 18h a participação terminou em 63%, segundo a Junta Eleitoral, muito acima das expectativas.

Historicamente, as eleições de meio de mandato têm menos eleitores do que as que se realizam junto com as nacionais. Em 2023, quando também se elegeu o presidente, a participação ficou próxima de 75% e em 2021 foi de 70%. Porém, as pesquisas de intenção de votos vinham capturando um sentimento negativo que poderia incentivar a abstenção.

A província de Buenos Aires é dividida em oito distritos, sendo que dois deles, o primeiro e o terceiro, concentram 70% do eleitorado total. A primeira seção abarca 24 municípios, alguns de alta ou média renda, sendo eles Tigre, Moreno, Vicente López, San Isidro e outros. Mais de 4,6 milhões de pessoas votam neste distrito. Aí o peronismo saiu com mais de 12 pontos à frente.

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Já o terceiro distrito, um reduto histórico do peronismo, reúne 19 municípios, entre eles Avellaneda, Lanús e Lomas de Zamora, esse último onde a carreata de Milei foi apedrejada. Mais de 5 milhões de pessoas votam aí. O Força Pátria confirmou seu reduto com uma vitória de mais de 50%.

Cristina celebra em prisão domiciliar

Logo após a divulgação dos resultados, a ex-presidente Cristina Kirchner saiu em sua varanda para celebrar junto com militantes kirchneristas que aguardavam os resultados em frente à sua casa, onde ela cumpre prisão domiciliar. Ela também dançou aos apoiadores.

A vitória, no entanto, pode não ser tão boa notícia aos kirchneristas. O peronismo está fragmentado desde a vitória de Milei em 2023, uma ruptura que ficou visível no dia de hoje.

A ex-presidente da Argentina Cristina Kirchner acena para seus apoiadores da varanda de sua casa em Buenos Aires Foto: Natacha Pisarenko/AP

Enquanto Axel Kicillof convocou os peronistas a se reunirem no comitê de campanha do Força Pátria, em La Plata, capital da província, para acompanhar os resultados. O deputado Máximo Kirchner, filho de Cristina, foi à casa da ex-presidente, no bairro Constitución, na capital, Buenos Aires, onde também convocou sua militância.

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Máximo é líder de uma dissidência mais à esquerda dentro do peronismo que se chama La Cámpora. Embora seja inicialmente um peronista-kirchnerista, Kicillof protagonizou disputas abertas com Máximo, expondo uma cisão dentro do movimento.

A própria separação das eleições provinciais das nacionais foi motivo de disputa interna entre Kicillof, Cristina e Máximo.

Na disputa deste domingo, o governador é quem sai como grande vitorioso. Ao tomar a frente nos embates contra Milei, Kicillof projeta ainda mais seu nome como possível candidato para 2027.

Em um discurso em La Plata após a divulgação dos resultados, Kicillof destacou a “vitória esmagadora” do peronismo nas eleições legislativas e agradeceu nomes importantes da política argentina como Cristina Kirchner e Sergio Massa.

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Em uma tentativa de mostrar união, Kicillof transmitiu uma mensagem gravada por Cristina aos seus apoiadores em La Plata. Em seus agradecimentos à ex-presidente, o governador chamou sua prisão e “injusta” e disse que ela deveria estar em La Plata.