Assassinato de JFK: novos documentos revelam mais conexões da CIA com Lee Harvey Oswald

Novos documentos mostram um agente conhecido apenas como ‘Howard’ que interagiu com Oswald nos meses anteriores ao assassinato de JFK

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Por Tom Jackman (The Washington Post)

As fotos pessoais de JFK tirado por seu fotógrafo particular, Jacques Lowe

Esgueirando-se pelos bastidores e com acesso privilegiado a John e Jackie, o fotógrafo produziu imagens que ajudaram a moldar o jeito com que o mundo ainda hoje olha para os Kennedys. Seus retratos estão expostos no Newseum de Washington. Crédito: Divulgação | 16.11.2013

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Por mais de 60 anos, a CIA alegou ter pouco ou nenhum conhecimento das atividades de Lee Harvey Oswald antes do assassinato do presidente John F. Kennedy (JFK), em novembro de 1963. Isso não era verdade. Novos documentos descobertos por uma força-tarefa da Câmara dos Estados Unidos comprovam a ligação entre a CIA e o assassino. A revelação alimenta as teorias conspiratórias há muito tempo em aberto sobre o que a agência sabia sobre o complô para assassinar o presidente e o que mais ela pode estar escondendo.

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Os documentos confirmam que George Joannides, um agente da CIA baseado em Miami em 1963, ajudou a financiar e supervisionar um grupo de estudantes cubanos que se opunham à ascensão de Fidel Castro. Joannides tinha uma missão secreta de gerenciar a propaganda anticastrista e desorganizar os grupos pró-Castro, mesmo que a CIA fosse proibida de fazer espionagem doméstica.

O grupo apoiado pela CIA, conhecido como DRE, estava ciente de Oswald, pois ele promovia publicamente uma política pró-Castro para os EUA, e seus membros entraram em “confronto físico” com ele três meses antes do assassinato. E então, disse um membro do DRE, Oswald se aproximou deles e ofereceu ajuda, possivelmente para trabalhar como espião dentro de seu grupo pró-Castro, o Comitê “Fair Play for Cuba”.

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Lee Harvey Oswald Foto: Arquivo Municipal de Nova York

A CIA negou por muito tempo qualquer envolvimento com o grupo cubano ou qualquer conhecimento da defesa pró-Cuba de Oswald. Após a divulgação dos documentos, a agência não respondeu a um pedido de comentário.

O Comitê de Supervisão da Câmara criou uma força-tarefa sobre “segredos federais” para revisar as ordens executivas do presidente Trump, em ambos os seus mandatos, exigindo a divulgação dos arquivos do assassinato pelas agências governamentais. Após a força-tarefa realizar audiências sobre o assassinato de JFK no começo do ano, a presidente Anna Paulina Luna (Republicana da Flórida) liderou a pressão para que a CIA divulgasse seus arquivos, o que produziu descobertas significativas, incluindo novos detalhes sobre Joannides, que anteriormente havia sido identificado apenas com o pseudônimo de Howard.

Esse era o nome dado pelos membros da DRE em Miami ao contato da CIA que mantinha a agência informada sobre suas ações, mas a CIA informou tanto à Comissão Warren em 1964 quanto ao Comitê Especial da Câmara sobre Assassinatos em 1978 que Howard não existia. Em 1998, após a formação do Conselho de Revisão de Registros de Assassinatos, a CIA afirmou novamente não ter registros relacionados a Howard.

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Documentos do arquivo pessoal de Joannides na CIA foram divulgados no início deste mês, mostrando que ele havia obtido uma carteira de motorista falsa de Washington, D.C. O nome usado: “Howard Mark Gebler”.

“Isso confirma muito do que o público já especulava: a CIA mentiu para o povo americano e houve um acobertamento”, disse Luna em um e-mail.

Os documentos também mostram que a CIA concedeu a Joannides uma medalha de louvor à carreira em 1981, em parte por sua atuação com o grupo cubano e também por seu papel como contato com a comissão de assassinatos da Câmara. Pesquisadores afirmaram que Joannides os impediu de aprofundar suas investigações nos arquivos da CIA. A condecoração destacou sua função como “vice-chefe do Departamento de Guerra Psicológica” em Miami em 1962 e afirmou que “ele se saiu particularmente bem no tratamento de grupos de estudantes e professores exilados”.

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“É um grande avanço, e há mais por vir”, disse Jefferson Morley, pesquisador de longa data sobre JFK e ex-repórter do The Washington Post, que processou pela primeira vez a CIA por seus arquivos sobre o assassinato em 2003. “O ônus da prova mudou. Há uma história aqui que foi escondida e evitada, e agora precisa ser explorada. Cabe ao governo explicar”.

George Joannides, um agente da CIA, atuava em Miami quando um grupo anticastrista sob sua supervisão entrou em contato com Lee Harvey Oswald. A CIA resistiu em revelar a identidade de Joannides até este mês  Foto: Arquivo Nacional dos EUA/The Washington Post

Não há nenhuma indicação em nenhum dos arquivos de envolvimento da CIA no assassinato de Kennedy, que a Comissão Warren declarou em 1964 ter sido obra de Oswald como atirador solitário. Em 1976, a Câmara dos Deputados criou uma comissão especial para investigar os assassinatos de Kennedy e Martin Luther King Jr. e concluiu que Oswald atuou como parte de uma “provável conspiração”, mas não conseguiu determinar quem mais estava envolvido na conspiração.

Os membros da equipe da comissão disseram estar fazendo progressos na descoberta de documentos da CIA em 1978, quando um novo contato da agência foi designado: o próprio Joannides. A comissão não tinha ideia, mas ele estava no centro do que estavam tentando descobrir.

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“Joannides começou a mudar a forma como o acesso aos arquivos era tratado”, testemunhou Dan Hardway, membro da equipe da comissão, perante a força-tarefa de Luna em maio. “A obstrução de nossos esforços por Joannides se intensificou durante o verão [de 1978]. ... Ficou claro que a CIA havia começado a revisar cuidadosamente os arquivos antes de nos entregá-los para análise”.

Depois que o filme “JFK” levantou novas questões sobre o assassinato, o Congresso criou, em 1994, o Conselho de Revisão de Registros de Assassinatos, que novamente tentou recuperar documentos importantes das agências federais e novamente investigou a CIA. A agência respondeu com seu memorando sobre “Howard”, dizendo que ele não existia.

“Meu memorando estava incorreto”, disse J. Barry Harrelson, ex-funcionário da CIA que escreveu o documento. “Mas isso não foi deliberado.” Ele disse não ter recebido o arquivo pessoal de Joannides, mas que ele foi fornecido ao conselho de revisão. Morley disse que o conselho de revisão recebeu o arquivo, mas, não vendo nenhuma referência a Oswald, não percebeu sua relevância. Harrelson disse que nunca tinha visto a carteira de motorista de Howard em Washington.

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Um dos documentos da CIA revelados recentemente mostra que George Joannides obteve uma carteira de motorista falsa de Washington de D.C. em 1963 como "Howard Gebler", nome que ele forneceu aos dissidentes cubanos de Miami  Foto: Arquivo Nacional e Administração de Registros/The Washington Post

Em uma entrevista, Harrelson também disse que Howard não constava no banco de dados de “pseudônimos registrados” da CIA. Para Morley, seria uma prova de que a operação de Joannides em Miami era “extraoficial” e não formalmente reconhecida pela agência. Harrelson discordou, dizendo que Howard “tinha uma carteira de motorista pública” e que os estudantes cubanos sabiam seu nome, embora não sua identidade real.

O memorando de Harrelson também observou que não havia relatórios de progresso sobre a operação de Joannides em Miami pelos 17 meses em que ele esteve lá. Para Morley um indicativo claro de que o programa anticastrista era secreto até mesmo dentro da CIA.

A busca por Howard começou na década de 1990, quando Morley entrevistou membros do grupo cubano DRE, abreviação de Directorio Revolucionario Estudiantil, ou Diretório Revolucionário Estudantil. Entre eles estava José Antonio Lanuza, agora com 86 anos, que disse ao Post que “Howard” lidava apenas com o líder do DRE, Luis Fernandez Rocha, e Rocha repassava as instruções de “Howard”.

Documentos divulgados antes mostram que a CIA começou a ler as cartas de Oswald em 1959, quando ele desertou para a União Soviética, uma ação que atraiu a atenção da mídia americana. Oswald voltou aos Estados Unidos em 1962 com uma nova esposa e filha e se estabeleceu em Dallas. Morley descobriu que a CIA continuou a monitorar Oswald.

George Joannides, ao centro, recebe a 'Medalha de Inteligência de Carreira' da CIA por suas atividades, com a agência citando especificamente seu trabalho com estudantes anti-Castro em Miami e com o comitê da Câmara que investigou o assassinato de JFK  Foto: Arquivo Nacional e Administração de Registros/The Washington Post

“Pelo menos 35 funcionários da CIA lidaram com relatórios sobre Oswald entre 1959 e 1963”, disse Morley, “entre elas uma dezena de agentes que se reportavam pessoalmente ao chefe de contra-espionagem James Angleton ou ao vice-diretor Richard Helms”. Os arquivos incluíam relatórios do Departamento de Estado e do FBI sobre sua deserção e suas atividades com o Comitê Fair Play for Cuba, um grupo pró-Castro nos Estados Unidos, para o qual ele lançou uma filial individual em Nova Orleans em agosto de 1963.

Quando Oswald divulgou seu envolvimento no grupo pró-Castro, o DRE entrou em ação e o confrontou nas ruas de Nova Orleans, levando a uma breve discussão e ao envolvimento da polícia. Um dos membros do DRE desafiou Oswald para um debate, transmitido pelo rádio na Crescent City. Rocha enviou uma fita do debate para Howard, mostram os registros do DRE.

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Pouco tempo depois, Oswald abordou um dos membros do DRE em Nova Orleans e ofereceu sua ajuda, disse Lanuza em uma entrevista. “Ele indicou que poderia estar interessado em nos ajudar a treinar para operações militares”, disse Lanuza. Então, Oswald enviou uma carta ao DRE, disse Lanuza.

“Era manuscrita, duas páginas”, lembrou Lanuza. “Era uma porcaria. Um texto cheio de reclamações. ‘Estou disposto a ir a Miami para ajudar vocês. ’ Era tudo para construir uma lenda. Eu recebia constantemente cartas de gringos que queriam se alistar, vestir uniformes militares e aparecer no meu escritório”. Ele arquivou a carta.

Parte de um arquivo da CIA, datado de 3 de fevereiro de 1968, sobre o tempo de Lee Harvey Oswald no México e o contato com a embaixada da União Soviética na Cidade do México, divulgado em dezembro de 2021  Foto: Jon Elswick/AP

Oswald estava secretamente se oferecendo para espionar o Fair Play for Cuba, algo que a CIA tinha outros agentes fazendo? Lanuza acredita que sim, mas o DRE não deu continuidade ao caso com Oswald. “Lee Harvey Oswald estava tentando cair nas graças da CIA”, disse Lanuza. “Ele disse: ‘Farei o que for preciso’.”

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Mas quando chegou a notícia de que Oswald havia sido preso três meses depois, Lanuza e Rocha ligaram para Howard. Lanuza disse que Howard lhes disse para ligar para o FBI e entregar a carta, e alertar a mídia sobre as tendências pró-Cuba de Oswald. O FBI veio e levou a carta de Oswald com a promessa de devolvê-la, disse Lanuza, mas nunca o fez.

Lanuza então ligou para seus contatos na mídia, que acrescentaram as tendências políticas de Oswald à sua cobertura. O Comitê Fair Play for Cuba logo implodiu devido à sua associação com Oswald, uma grande vitória para a CIA — e para Howard.

Morley e outros pesquisadores sempre suspeitaram que Howard era Joannides, que morreu em 1990, mas isso não foi confirmado até os documentos da carteira de motorista virem a público, em 3 de julho.

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“Por que eles não podiam dizer isso [antes de 2025]?”, perguntou Morley. “A única razão é que há algo nefasto acontecendo. Se for algo inocente, bastaria dizer que foi isso que aconteceu”.

Oswald disse “sou um bode expiatório” ao falar com jornalistas na sede da polícia de Dallas após sua prisão, e muitos não acreditam na conclusão da Comissão Warren de que ele era um atirador solitário. “Ele realmente não estava sozinho, a CIA o vigiou por quatro anos”, disse Morley.

Rolf Mowatt-Larssen, um ex-oficial de contra-espionagem da CIA que investigou profundamente o caso, disse: “Isso se parece muito com uma operação secreta da CIA”.

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Para ele, uma teoria plausível é que oficiais renegados da CIA criaram a conspiração para assassinar Kennedy, sem o conhecimento da agência, e “a CIA encobriu o caso não porque estivesse envolvida, mas por tentar esconder os segredos daquele período”. Segundo Rolf Mowatt-Larssen, muitos na CIA ficaram irritados com Kennedy depois de ele retirar o apoio à invasão da Baía dos Porcos em Cuba em 1961, bem como por sua gradual aproximação com a União Soviética após a crise dos mísseis cubanos em 1962.

“A questão é: o que Joannides estava fazendo para a CIA monitorando Oswald?”, disse Mowatt-Larssen. “As pessoas que estavam orquestrando isso tinham acesso aos relatórios de Joannides. Elas usaram isso para monitorar Oswald. Sua boa-fé está sendo usada para fazer dele um atirador solitário”, uma história para acobertar outros atiradores.

“Estamos nos aproximando da verdade sobre Oswald e a CIA, mas ainda há mais por vir”, disse o juiz federal John Tunheim, de Minneapolis, que presidiu o comitê de revisão dos assassinatos na década de 1990. “As revelações sobre Joannides são muito importantes, eu acho.”

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Tunheim disse não ter visto nenhuma cumplicidade da CIA “neste momento”. Vejo o ocultamento de informações para evitar “perguntas embaraçosas, informações que provam mentiras passadas”. Ele observou que o Congresso aprovou a Lei dos Registros de JFK em 1992. “Onde estão os relatórios mensais e os relatórios de progresso de Howard? Os arquivos de Howard devem existir, provavelmente separados dos arquivos de Joannides”.

Luna concordou com Mowatt-Larssen. “Havia um elemento desonesto que operava dentro da CIA, fora da alçada do Congresso e do governo federal, que conscientemente se envolveu no encobrimento do assassinato de JFK. Esse elemento intencionalmente fechou os olhos para os indivíduos que orquestraram o assassinato, com os quais tinham conexões diretas. Acho que esse elemento desonesto dentro da CIA via JFK como um radical. Eles não gostavam de sua política externa e foi por isso que justificaram fechar os olhos ao seu assassinato e aos envolvidos”.