ENVIADO ESPECIAL A PEQUIM - Em disputa franca com os Estados Unidos, a China tentou arrancar de países da Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac) uma declaração conjunta de apoio a duas de suas principais iniciativas internacionais: a Nova Rota da Seda (Belt and Road Initiative) e a Política de uma Só China, que lança fundamentos para reivindicação de controle do país sobre Taiwan.
Nos últimos dias, diplomatas chineses e dos 33 países da Celac se reuniram em Pequim para discutir a portas fechadas o teor de um comunicado final, a ser adotado nesta terça-feira, 13, durante a edição que celebra 10 anos do Fórum China-Celac.
A negociação foi concluída nesta segunda-feira, dia 12, mas a versão final do documento ainda será compartilhada e depois divulgada oficialmente pela chancelaria da China.

O Estadão apurou que diplomatas latinos-americanos, entre eles do Brasil, atuaram nos últimos dias para tentar conter a ambição chinesa por mais endosso político ao seu grande projeto de infraestrutura e ao princípio político que defende, no momento de tensão com os Estados Unidos, e equilibrar o texto, a fim de evitar novamente que a Celac se divida.
A última cúpula de líderes do grupo, realizada no início de abril em Honduras, foi marcada por boicote dos governantes de direita e países que preferiram não assinar a declaração, caso de Argentina e Paraguai.
O fórum terá sua quarta grande reunião e é de nível ministerial, mas com convidados especiais. Cerca de 20 chanceleres latino-americanos e caribenhos estão previstos para participar das discussões.
O presidente Xi Jinping convidou e estarão presentes os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, da Colômbia, Gustavo Petro, e do Chile, Gabriel Boric - todos de esquerda.
A ex-presidente Dilma Rousseff, presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, e o chanceler chinês, Wang Yi, também devem discursar na abertura.
Além das divergências regionais, diplomatas brasileiros ponderaram que havia dificuldades em aprovar o rascunho porque a China queria elogios a alguns de seus princípios diplomáticos e aos “avanços de modernização chinesa”, sem mencionar progressos na América Latina, e incluiu temas de caráter mais bilateral - como a própria Rota da Seda e a questão de Taiwan, que são acordadas de país a país - numa reunião de aspecto multilateral.
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A própria reunião levou o nome de Comunidade de Futuro Comum Compartilhado, um conceito político chinês, cujas nuances não são completamente compreendidas pelos demais países, mas que Pequim costuma insistir para ver mencionada em sua agenda exterior.
Por outro lado, os países da Celac solicitaram a inclusão de uma menção ao objetivo da região de indicar em conjunto o futuro secretário-geral das Nações Unidas, no ano que vem, quando haverá uma eleição para escolher o substituto do português António Guterres. Inicialmente, o Brasil patrocinou a proposta de que seja uma mulher.
Segundo relato de negociadores nacionais, os chineses tiveram que ceder um pouco na linguagem para minimizar resistências de endosso mais explícito e ver os assuntos de seu interesse mencionados no comunicado final.
Foi preciso mudar o tom e usar palavras menos carregadas para evitar que seu teor significasse algum tipo de compromisso dos países visitantes.
Isso porque, por exemplo, há países da região que nunca aderiram à Rota da Seda, caso do Brasil, que resiste apesar de cortejado, enquanto outros estão de saída por pressão dos EUA, caso do Panamá após Trump ameaçar tomar o canal do Panamá, e a Colômbia, que promete agora ingressar formalmente.
A gestão Donald Trump combate a presença chinesa no que considera o seu quintal e pressiona com ameaças países a rasgarem seu compromisso com Pequim. Por isso o teor da declaração do Fórum China Celac pode ser sensível.
Os diplomatas dizem que todos no mundo estarão de olho no Fórum China-Celac nesta terça, sobretudo após os enviados de Xi e Trump anunciarem um acordo para aliviar temporariamente a guerra comercial e tarifária.

A Nova Rota da Seda, nome popular da Iniciativa Cinturão e Rota, é a ponta de lança da inserção global chinesa, com consequências geopolíticas e econômicas. Por meio do projeto lançado em 2013, a China amplia sua influência, financia e constrói obras gigantescas de infraestrutura, como portos, pontes, ferrovias e rodovias, sobretudo de olho em melhorar o escoamento de seus produtos. Cerca de 150 países participam, e os projetos somam US$ 2 trilhões.
Já na disputa sobre Taiwan, a maioria se posiciona em favor da China, por já ter relações diplomáticas com Pequim, mas Taipei tem na região sete de seus únicos 12 aliados em âmbito global: Paraguai, Guatemala, Santa Lúcia, Haiti, Belize, São Cristóvão e Névis, São Vicente e Granadinas.
Pequim usa o princípio de que só existe uma China no mundo para fundamentar sua ambição de controle sobre Taipei. Taiwan se considera um país de fato e se prepara militarmente até para uma enfretamento, embora considere que ele não seja o meio principal.
Xi Jinping já declarou reiteradas vezes que a reunificação é incontornável, por meios pacíficos ou da força, enquanto o taiwanês de William Lai denuncia uma tentativa de anexação.








