Como Donald Trump quer reviver a busca pela ‘Guerra nas Estrelas’ da era Reagan

A busca de Donald Trump pelo domínio orbital

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Por The Economist
Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

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Ronald Reagan quis isso muitos anos atrás”, declarou Donald Trump, “mas eles não tinham a tecnologia necessária”. Agora, disse ele, os Estados Unidos podem finalmente construir um “escudo de defesa antimísseis de última geração”. O Domo Dourado de Trump — uma alusão ao Domo de Ferro de Israel, mais modesto — visa proteger os EUA de ataques usando, entre outras coisas, centenas ou milhares de satélites que podem rastrear e atacar mísseis inimigos durante a decolagem.

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Trump havia prometido tal escudo durante a campanha eleitoral. Em 20 de maio, ele disse que seu “grande e belo” projeto de lei tributária, que ainda não foi aprovado pelo Congresso, incluía US$ 25 bilhões em financiamento inicial, e que o projeto custaria US$ 175 bilhões no total. Na prática, o Domo Dourado provavelmente custará muito mais — o Escritório de Orçamento do Congresso estima que a conta pode chegar a mais de US$ 500 bilhões em 20 anos — e levar muito mais tempo para ser desenvolvido do que o cronograma otimista de Trump, de “dois anos e meio a três anos”.

Também é suspeita a afirmação de Trump de que o sistema oferecerá “proteção próxima de 100%”. A taxa de sucesso provavelmente dependerá do alcance do escudo. Um relatório recente da Sociedade Americana de Física, um grupo de físicos, sugeriu que seriam necessários 16.000 mísseis espaciais para garantir a interceptação de uma saraivada de apenas dez mísseis norte-coreanos Hwasong-18. Mas, se os líderes americanos quisessem 30 segundos de tempo de decisão antes de agir, precisariam de 36.000 interceptadores. E “muito mais interceptadores” do que isso seriam necessários se os EUA também estivessem defendendo cidades muito ao norte, no Alasca ou no Centro-Oeste.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apresenta o projeto de um Domo de Ouro para os Estados Unidos, similar ao Domo de Ferro israelense, na Casa Branca  Foto: Jim Watson/AFP

O Domo Dourado é, em parte, uma resposta à preocupação do Pentágono de que os adversários dos EUA estejam construindo um grande número de mísseis novos e mais diversos. Os radares e as defesas americanas historicamente se concentraram em mísseis que sobrevoam o Polo Norte. Mas mísseis hipersônicos de longo alcance, que são mais manobráveis, e sistemas “orbitais fracionados”, que podem circundar parcialmente a Terra, podem seguir rotas mais imprevisíveis. Um relatório recente da Agência de Inteligência de Defesa mostra flechas atingindo os Estados Unidos de todas as direções. O Canadá, que já possui um comando conjunto de defesa aeroespacial com os EUA, está em negociações para se juntar ao Domo Dourado.

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O escudo defensivo também destaca como a órbita terrestre está se tornando uma linha de frente na nova luta entre Rússia, China e Estados Unidos. Ela está sendo travada por satélites como o Cosmos 2553, um satélite russo que os Estados Unidos acreditam ser um protótipo desarmado de uma arma espacial particularmente sinistra: uma arma nuclear capaz de destruir satélites em grandes faixas da órbita baixa da Terra — como aqueles que fariam parte do Domo Dourado. A China também está construindo uma série de armas antiespaciais. “Eles estão se movendo a uma velocidade impressionante”, disse o general Stephen Whiting, chefe do Comando Espacial dos Estados Unidos, a respeito do crescente arsenal antissatélite da China.

Essas armas colocam em risco muito mais do que apenas a infraestrutura de defesa. Elas também ameaçam as espaçonaves que fornecem a estrutura de comunicações e, talvez mais importante, os dados de posicionamento, navegação e cronometragem, essenciais para as economias modernas. A vulnerabilidade dos sistemas de navegação por satélite foi exposta por um enorme aumento na interferência e falsificação de seus sinais.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deixa a Casa Branca para participar de um jantar em Washington  Foto: Jacquelyn Martin/AP

Rússia e China vêm desenvolvendo satélites com “capacidades avançadas de manobra” que lhes permitiriam interferir ou destruir satélites americanos. Em maio de 2024, por exemplo, o Cosmos 2576, outro satélite russo, entrou em órbita “coplanar” com o USA 314, um satélite espião americano, de forma que “poderia sinalizar o posicionamento de uma arma antiespacial”, de acordo com um novo relatório do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), um think tank em Washington. A França ficou tão alarmada que falou em desenvolver sistemas de “guarda-costas” para satélites, que poderiam permitir que os satélites detectassem ameaças e se defendessem usando um robô ou laser.

Outros tipos de disputas celestes também estão em andamento. Em certo momento do ano passado, a TJS-4, uma nave espacial chinesa suspeita de ser de inteligência de sinais, manobrou para se colocar entre um satélite de vigilância americano e o Sol. Isso, segundo o CSIS, teria criado sombras que impediriam os americanos de tirar boas fotos da nave chinesa. No início deste ano, o General Michael Guetlein, o novo chefe do Domo Dourado, acusou a China de praticar “escaramuças no espaço”.

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O presidente da China, Xi Jinping, discursa na abertura do fórum China-Celac, em Pequim  Foto: Andy Wong/AP

No entanto, os EUA estão longe de ser um alvo fácil nessa área. No mês passado, o USA 324, um dos satélites de vigilância do general Whiting, aproximou-se do TJS-16 e do TJS-17, um par chinês de satélites suspeitos de coletar inteligência eletrônica. Passou a 17 km do primeiro e a 12 km do segundo, de acordo com a COMSPOC, uma empresa que rastreia objetos no espaço. Essa aproximação foi muito maior do que a do Cosmos 2576 em relação ao USA 314. Essa “fina” em relação aos satélites chineses foi, observa Jonathan McDowell, do Centro Harvard-Smithsonian de Astrofísica, “o tipo de coisa que leva autoridades do Departamento de Defesa a emitir comentários indignados quando a China faz o mesmo com os nossos satélites”.

O plano para proteger os EUA

Na década de 1980, cientistas que trabalhavam na Iniciativa de Defesa Estratégica de Ronald Reagan propuseram o que parecia um plano maluco para defender os Estados Unidos. Milhares de satélites interceptadores orbitariam a Terra e atacariam mísseis inimigos durante a decolagem. A ideia fracassou. Foi ressuscitada por Donald Trump, que em 20 de maio afirmou que seu escudo de defesa antimísseis Domo Dourado custaria US$ 175 bilhões no total, levaria de dois a três anos para ser concluído e ofereceria proteção “próxima a 100%”.

A visão de Trump soa tão fantástica quanto a de Reagan. “Nós a chamamos de supertecnologia”, declarou ele. “Ninguém mais a possui.” Mas, em essência, o Domo Dourado não é tão extravagante quanto poderia ter parecido no passado. Na verdade, se bem executado, poderia se tornar uma parte útil do arsenal defensivo dos EUA.

Na década de 1980, colocar sensores no espaço e construir computadores em miniatura para serem instalados dentro de milhares de interceptadores era muito caro. Agora, graças em parte a Elon Musk e sua empresa SpaceX, os custos de lançamento caíram drasticamente. O Congressional Budget Office (CBO), um centro de estudos estratégicos apartidário, estima que o custo de desenvolvimento de uma constelação capaz de derrotar de um a dois mísseis balísticos de alcance intercontinental (ICBMs) caiu de 30% a 40% em comparação com as estimativas de 2004 e 2012.

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A ideia do Domo Dourado também promete ser mais útil — e é por isso que o governo Biden começou a trabalhar nos sensores espaciais que rastreariam mísseis de cruzeiro e no encanamento digital que transmite dados de rastreamento de satélite para satélite. Os adversários dos EUA cada vez mais utilizam mísseis que podem seguir rotas mais sinuosas para o território continental dos EUA, contornando os radares e interceptadores projetados para ataques vindos da região polar. Além disso, a ameaça aos EUA costumava vir exclusivamente de mísseis com armas nucleares. Agora, inclui mísseis convencionais não nucleares que podem atingir portos, bases aéreas e outras infraestruturas militares.

Inescapavelmente, as alegações de Trump são exageradas. Nenhum sistema de defesa antimísseis jamais oferecerá proteção total. Os EUA precisariam de 36.000 interceptadores espaciais para derrotar apenas dez ICBMs norte-coreanos, permitindo 30 segundos de tempo de decisão, de acordo com a Sociedade Americana de Física, um grupo de físicos. Contestar saraivadas maiores da Rússia e da China e cobrir todos os cantos do território americano faria com que esses números disparassem. O mesmo aconteceria com o custo. Mesmo um escudo modesto, projetado para conter alguns ICBMs, poderia custar de US$ 161 bilhões a US$ 542 bilhões em 20 anos. Essa é uma quantia enorme em um momento em que a modernização das forças nucleares também deve demandar US$ 946 bilhões até 2035.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, desembarca na Casa Branca após participar de um jantar com investidores do setor de criptomoeda  Foto: John Mcdonnell/AP

Na prática, Trump deveria ser mais modesto em suas ambições — e não apenas por causa do custo. Em seu decreto em janeiro, ele exigiu um sistema que pudesse se defender contra qualquer ataque aéreo estrangeiro. Em seu anúncio esta semana, ele prometeu que mísseis de cruzeiro, balísticos e hipersônicos seriam todos destruídos. Se assim for, tal recurso seria desestabilizador. Temendo que suas forças de dissuasão nuclear se tornassem ineficazes, China e Rússia buscariam expandir seus arsenais — no caso da China, ainda mais rápido do que hoje — ou construir armas que dariam aos líderes americanos ainda menos tempo de alerta.

Na realidade, alguns ICBMs russos e chineses com armas nucleares sempre conseguiriam passar. No entanto, isso não significa que a defesa antimísseis nacional seja inútil. Nos anos mais recentes, Israel, Ucrânia e Índia demonstraram como bloquear até mesmo uma parcela modesta dos projéteis que chegam pode limitar os danos e dar algum tempo de tomada de decisão aos líderes políticos — que, de outra forma, poderiam se sentir compelidos a revidar imediatamente. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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