A migração ilegal como negócio em Governador Valadares
Quem são os mineiros que emigram para os EUA e como as redes de tráfico de pessoas lucram com o recrudescimento das políticas migratórias.
Gerando resumo
ENVIADA ESPECIAL A GOVERNADOR VALADARES, CAPITÃO ANDRADE E IPATINGA - O ano era 1994, o então ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso lançava o plano Real, que transformaria a economia brasileira. Mas já era tarde para a produtora rural Maria das Graças Estevão, 61, que depois de anos de hiperinflação, tinha medo de ver os filhos passar fome em Capitão Andrade, cidade do interior de Minas Gerais. Sem perspectivas no Brasil, ela emigrou para os Estados Unidos, deixando marido e filhos, na intenção de enviar de lá o dinheiro que transformaria suas vidas aqui.
Quase 30 anos depois e a cerca de 100 km de Capitão Andrade, o mecânico industrial Ruan Filipe Costa, 32, ouvia que era possível fazer muito dinheiro “na América”. Abandonou seu emprego na Usiminas, o maior complexo siderúrgico da América Latina, em Ipatinga, para emigrar ao norte em 2021. Diferentemente de Maria das Graças, ele levou a família inteira que consistia na esposa e no filho, então com quatro anos.
Ambos representam dois perfis muito diferentes de emigrantes e traduzem a transformação que a migração em Minas Gerais sofreu nos últimos anos. Se no começo os mineiros iam para os EUA como forma de enriquecer e melhorar suas vidas no Brasil, hoje a terra do Tio Sam virou o destino final. Maria das Graças representa o primeiro grupo, enquanto Ruan Filipe é a síntese da mudança. E ambos tiveram fins completamente diferentes.

O Estadão esteve no leste mineiro para compreender sobre os mais de 60 anos de emigração na região de Governador Valadares para os Estados Unidos. Nas primeiras reportagens da série, contamos porque Valadares se tornou uma cidade “exportadora” de gente, uma prática que se espalhou por todo o leste de Minas, e como isso remodelou a economia local.
Lá, conversamos com dezenas de pessoas das regiões do vale do Rio Doce e do vale do Aço sobre os motivos que as levam a migrar, as suas realizações e frustrações com o “sonho americano”.
Os emigrantes
Pela América, só gratidão
Maria das Graças tinha 31 anos em 1994 e trabalhava em dois empregos que lhe rendiam pouco mais que um salário mínimo. Seu maior medo, conta, era ver as coisas faltarem para os seus filhos. Amigos e conhecidos, então, passaram a sugerir que ela fosse aos EUA para ganhar dinheiro. Eles diziam que ela se daria muito bem lá, pois “era uma mulher muito trabalhadora”.
Ela foi e ficou por quatro anos. Quando retornou à minúscula Capitão Andrade, viu que todos os conhecidos que tinham negócios haviam falido. “Aí eu olhei para um lado, para o outro e pensei: como que eu vou fazer? Agora que meus filhos estão entendendo o que é uma roupa melhor, um calçado, ter alguma coisa, trabalhar aqui e sustentar não vai dar.”
Ela então pediu a opinião de um de seus filhos sobre retornar “à América”. “Ele me respondeu: ‘A gente tem que escolher entre passar falta e ter a senhora por perto’. Isso me deu força para encarar e voltar de novo. E eu não me arrependo. A minha gratidão com a América é grande.” Todos os três filhos a seguiram logo depois, quando já estavam na adolescência.
Nos EUA ela conheceu o atual marido, Geraldo Estevão, 57, que era de Tumiritinga, cidade próxima de Capitão Andrade. Com ele, teve mais duas filhas, ambas nascidas nos EUA.
O casal recebeu o Estadão em sua chácara, comprada com os dólares conquistados trabalhando com faxina, pintura e carpintaria. O terreno conta com uma casa ampla, piscina e um pequeno curral.

A propriedade foi comprada na época por 4 mil dólares por alqueire (que em Minas Gerais equivale a 48,4 mil metros quadrados). Hoje ela vale mais de 100 mil dólares. Ao todo o casal tem 120 alqueires de terra, estimados em 200 a 300 mil dólares por alqueire. O cálculo é sempre feito assim, em dólares.
“Você vai trabalhando, vai mandando [o dinheiro], compra a terrinha menor, depois vende ela inteira e compra uma maior, e assim vai jogando”. O casal também tem centenas de cabeças de gado que servem tanto para corte quanto para produção de leite, o carro chefe da economia de Valadares.
Faz 16 anos que eles retornaram ao Brasil, o mesmo período que não vê um dos filhos. A casa é repleta de porta-retratos da família que está nos EUA. A mesa de centro da sala tem dezenas de retratos dos filhos, netos, noras, sobrinhos e tios. Em outras mesas e nas paredes, mais fotos, em uma tentativa de manter perto quem está há 7 mil quilômetros de distância.
O casal está aplicando para o Green Card, já que possuem filhas americanas, em uma tentativa de rever quem ficou. Um dos netos, conta, ela não conhece, pois nasceu depois que ela retornou ao país.
É o que mais me dói. Eu estou muito bem aqui, graças a Deus. Não me falta nada. Mas falta tudo ao mesmo tempo, porque faltam meus filhos, meus netos, minhas noras, tios, um convívio no dia a dia. É o meu sonho, poder abraçar todo mundo.
Maria das Graças Estevão, produtora rural em Capitão Andrade

Um suor de sangue
Em 2001, os EUA haviam sofrido o pior atentado terrorista de sua história. Naquele ano, Elias Maltaro Barbosa, 59, planejava emigrar pela primeira vez à América, em suas próprias palavras, mas a imagem das torres gêmeas colapsando o assustou. Apenas no ano seguinte a coragem retornou e ele decidiu fazer a travessia pelo México.
A decisão de migrar veio por causa da situação difícil que estava passando no momento. Na época ele estava começando a formar família e com filhas pequenas, mas a situação financeira não era suficiente. Seu sonho era adquirir a casa própria, mas não via maneiras de conseguir com o seu trabalho no Brasil.
“A renda só dava conta de sobreviver mesmo. E aí eu pensei que tinha que ir antes que o tempo passasse muito e enquanto eu estava novo, para tentar a vida lá fora”, conta. Sua esposa foi contra, mas recebeu incentivo da mãe e dos irmãos. “Se tiver que ir, é agora”, disseram os familiares.

Lá ele ficou seis anos, período em que trabalhou com pintura. Conta que chegou ganhando 7 dólares por hora, mas havia quem ganhasse 15 devido à profissionalização. Ele se aperfeiçoou na pintura para poder cobrar mais e este se tornou seu ofício até hoje. Enquanto conversa com a reportagem, ele aponta para as paredes de sua casa cuja pintura foi feita por ele.
A própria casa em Governador Valadares é fruto do trabalho na “América”. Com dois anos morando nos EUA, e depois de quitar a dívida da travessia, ele conseguiu comprar a moradia que compartilha com a mulher até hoje. Uma casa ampla, com jardim em frente às janelas da sala e um quintal e churrasqueira nos fundos.
Retornou ao Brasil em 2008, mas convenceu a mulher a conhecer os EUA. Ambos tentaram o visto de turista e conseguiram. O casal foi e voltou diversas vezes. A última foi há dois anos e agora não pretendem migrar de novo.
Ao todo foram 12 anos de estadia lá fora. Nesse meio tempo a gente perde muita coisa aqui. O crescimento dos filhos, amigos falecem e você não vê mais. Isso deixa a gente um pouco deprimido lá na América. Quem está lá sabe disso. Não é só chegar lá e colher dinheiro, como as pessoas pensam, tem um custo muito alto nisso.
Elias Maltaro Barbosa, pintor e morador de Governador Valadares
Elias repete um comentário dito por outros emigrantes: o suor do emigrante nos EUA “é um suor de sangue”. “Muitas vezes eu fiz vídeo trabalhando, mexendo com lixa e a lixa come as mãos, tanto que o sangue pinga. Mostrei e falei: ‘olha só para vocês verem o sofrimento, o suor de sangue aí, valorizem o nosso dinheiro aí porque eu preciso voltar’”.

Um sonho que vira pesadelo
Os casos de Maria das Graças e Elias são os que circulam de boca em boca na região de Governador Valadares e servem de inspiração para quem almeja um futuro melhor fora do Brasil. Mas eles são a exceção à regra. Quando Ruan Filipe emigrou em 2021, ele pensou que trabalharia muito lá e ganharia muito dinheiro para melhorar a vida de sua família. Não foi o que aconteceu.
“Eu pensava que era um uma vida mais fácil. Você ia trabalhar, mas você ia ter muito dinheiro. Mas a realidade é que não é isso tudo que o povo fala. Realmente você ganha dinheiro, mas os seus gastos lá são bem altos. Aluguel, comida, você tem seguro de carro, você tem que pagar as contas igual aqui mesmo. Você ganha bem, mas o valor é bem elevado. Então acaba que fica meio elas por elas”, conta.
Ele emigrou por intermédio de um coiote, a quem chamou de “agenciador de sonhos”. Entrou no país pelo sistema cai-cai, se entregando às autoridades migratórias. A partir de então ele precisava comparecer à Justiça uma vez por mês. Em uma dessas visitas, acabou preso e separado da família. “Daí para lá virou um pesadelo”.

“Não me deixaram pegar nada, não me deram oportunidade de falar nada. Os advogados que eu arrumei falaram que ia me tirar no outro dia. Aí depois falavam que iam me tirar na semana seguinte. Quando eu assustei, eu já estava no voo de volta para o Brasil.”
Ruan chegou no fatídico voo de 24 de janeiro, o segundo de 2025 e o primeiro da era Donald Trump. O voo fretado desencadeou uma crise entre os governos brasileiro e americano depois que os deportados foram filmados algemados pelas mãos e pés nas asas do avião em Manaus.
A esposa e o filho retornaram a Ipatinga pouco mais de um mês depois da deportação de Ruan.
A sua maior frustração é não ter conseguido construir o patrimônio que esperava. Conhecidos de Ruan o ensinaram que os três primeiros anos no país servem para pagar as contas e se organizar, e só a partir do quarto ano os planos reais caminham.
Eu estava no período de começar a ter outros sonhos, de começar a ter uma meta lá e infelizmente foi interrompido.
Ruan Filipe Costa, mecânico industrial em Ipatinga
Trocar seis por meia dúzia
Clécio Gama Damascena, 53, foi para os EUA duas vezes, sendo a primeira em 2004. Fez 13 dias de travessia, cruzando a fronteira com o México. Com ajuda de dois irmãos, conseguiu emprego e ficou no país por seis anos, mas a crise de 2008 frustrou os seus planos.
“A primeira vez eu fui porque a situação aqui é muito fraca para trabalho, para ganhar e ter condições melhores”, conta. “Aí eu tentei a vida melhorar lá. Nessa primeira vez não deu certo. Deu certo para entrar, mas não deu certo esse trabalho. Teve uma crise muito louca lá. Eu ficava em torno de 20 a 30 dias a toa dentro de casa sem trabalho. Mas fui levando, acabei ficando seis anos lá, mas foi trocar seis por meia dúzia.”

Com a crise de 2008, já sem grandes ofertas de emprego e com saudade da família que deixou em Valadares, Clécio retornou ao Brasil em 2010.
A segunda ida foi há mais de dois anos. Mas dessa vez não deu tão certo. Clécio tentou entrar pelo sistema cai-cai, em que o migrante se entrega para as autoridades de fronteira para ser processado dentro dos EUA. Mas da fronteira ele foi direto para a prisão. Ficou oito meses e 15 dias preso no Texas.
“Eu tentei a anistia, me negaram, depois tentei a fiança, também me negaram. Cada vez mais você vai tentando, você fica três meses para passar pelo processo e ir diante da corte. Aí vai prolongando, passando o tempo, até que chega um momento que vão negando, negando, e você pede para ir embora”, conta. Ele foi deportado em um voo fretado em novembro de 2022. Lembra de ter chegado duas semanas antes das eleições presidenciais.
O arrependimento é de não ter conseguido levar toda a família na época. Foi um prejuízo grande, ficar muito tempo longe e não ter feito nada. Só essa é a parte ruim. O resto foi tranquilo, foi bom.
Clécio Gama Damascena, motorista em Governador Valadares
Para quem fica, um luto
Glaucia, 39, sempre teve o sonho de ir aos Estados Unidos. Não era uma questão de necessidade, mas o imaginário de “ir à América”. Sua irmã gêmea havia migrado e contava como era a vida lá. Ela viu a irmã obter uma casa, carro, ter filhos americanos e usufruir de bens de consumo que no Brasil são da classe média.
Mas a vida a fez postergar os planos de ir. Aos 21 anos ela teve o primeiro filho e o sonho precisou ser adiado. Pouco depois veio a filha Aline. Glaucia teve a paciência de esperar a filha mais nova completar 18 anos e entrar na faculdade para retomar o velho sonho.
Aline conversou em anonimato com o Estadão porque sua mãe vive indocumentada nos EUA. “Você vê as histórias de outras pessoas que fizeram sucesso lá. Quando ela teve a primeira oportunidade e viu que não ia dar problema para ninguém, ela foi”, relata a filha. A irmã gêmea como rede de apoio foi fundamental para a decisão de Glaucia de migrar.

Ela migrou em 2023 e pagou cerca de 35 mil dólares para cruzar o México. Uma dívida que está pagando até hoje. Como garantia ela deixou uma moto e um apartamento que ainda está pagando. Por receio de acabar envolvendo os filhos com os coiotes, ela deixou uma procuração para que a sogra cuidasse dos bens.
Somente em novembro do ano passado que Gláucia teve coragem de transferir as procurações para o nome da filha. Com apenas 20 anos, hoje Aline é quem lida com as burocracias de cartório e banco da mãe. A prática é comum entre os emigrantes: deixar um familiar responsável por gerenciar as propriedades no Brasil.
Além de gerenciar as coisas da mãe, Aline cuida da própria casa onde mora, trabalha durante o dia em uma ONG e à noite vai à faculdade. Desde muito nova foi uma pessoa responsável e que lida com tarefas importantes de adultos, conta. Mas a armadura se desmonta no momento em que é perguntada sobre ter saudades da mãe. “Muito”, respondeu em meio a um suspiro e com os olhos marejados.
A gente não era grudada. A gente sempre funcionou mais separadamente, só que é muito estranho não poder ver ela e dar um abraço nela de vez em quando. Eu acho que a estranheza é muito maior do que a saudade em si, porque às vezes eu chego em casa e eu penso: ‘para quem que eu vou avisar que eu cheguei?‘.
Aline, estudante e filha de uma emigrante de Governador Valadares
Aline é o retrato da ausência que a migração também representa. Ela vê que a mãe está feliz realizando um sonho antigo. O coração encheu quando recebeu o primeiro vídeo da mãe aproveitando a neve, algo impensável para uma valadarense que vive em uma cidade onde a temperatura média é 30 ºC. Mas a ausência também é um sentimento constante.
Na Univale, dentro da sala do Neder (Núcleo de Estudos sobre Desenvolvimento Regional), comandado pela pesquisadora Sueli Siqueira, uma exposição busca retratar essa consequência: o artista Ricardo Alves reconstruiu fotos de família, transformando os emigrantes em fantasmas. A exposição traz uma estranha experiência de interpretar aqueles fantasmas como pessoas que morreram. Elas não morreram, mas a ausência delas também provoca um luto, afirma Sueli Siqueira, coordenadora do núcleo.






