ESPECIAL PARA O ESTADÃO/BERLIM - O voto na Alemanha não é obrigatório. Nas eleições federais passadas, 23% da população preferiu se abster. Dessa vez, uma pesquisa do instituto alemão Forsa-Chef mostrou que 28% não devem ir às urnas para as eleições que ocorrem neste domingo, 23. Enquanto isso, imigrantes gostariam de exercer esse direito, como a brasileira Manuela Schmidlin, que só entrou com pedido de cidadania alemã recentemente.
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“Eu acho que deveria ter me tornado alemã antes, porque eu já poderia estar votando e aumentando o percentual de um certo partido, aumentando mais a representatividade desse partido que é o que eu me sinto representada”, comentou a engenheira química, que também tem cidadania portuguesa.

Manuela chegou ao país ainda em 2011, como estudante universitária. Posteriormente encontrou um emprego, se casou e teve três filhos. O foco da sua vida era trabalho e família, até novembro do ano passado, quando o governo colapsou.
A dissolução do parlamento foi o gatilho final para que a brasileira buscasse seus direitos políticos. Contudo, o alerta já havia sido disparado antes, com a crescente discussão sobre imigração entre amigos e conhecidos, e a instabilidade das políticas migratórias no país. A questão do imigrante se tornou tema central nas eleições antecipadas de 2025.
“Eu sou imigrante. Meu marido também é. Com as mudanças na política, não se sabe o que pode acontecer. O Brasil tem acordo de dupla cidadania, mas acordos podem ser cancelados. A gente não sabe a que ponto eles vão negar assistência ou talvez cancelar direitos”, refletiu Manuela. Mas ela está ciente que o tópico não pode ser ignorado, já que existe um descontentamento popular com as políticas migratórias do governo. De acordo com pesquisa da Indreatest Dimap, 77% da população acredita que é necessário repensar a política para refugiados.

Políticas anti-imigração dá vantagem a conservadores
Incidentes envolvendo imigrantes, como o ataque fatal a mãe e filho em Aschaffenburg, cidade onde Manuela mora, ampliaram a tensão entre a população. A oposição conservadora, liderada por Friedrich Merz, candidato da União Democrata-Cristã (CDU), e a extrema direita do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), representado por Alice Weidel, têm explorado a temática, defendendo medidas mais rígidas para o controle de fronteiras e restrições ao direito de asilo, atraindo atenção dos eleitores.
A última pesquisa eleitoral, realizada no sábado, 22, revelou que a CDU continua na liderança, com 30% das intenções de voto, seguida pela AfD, que garante um segundo lugar com 20,5%. Juntos, esses partidos têm chance de garantir maioria no parlamento e formar a próxima coalizão a governar o país. Contudo uma barreira política ou ideológica contra a extrema direita deve evitar essa aliança. No início de fevereiro, mais de 300 mil pessoas foram às ruas em várias cidades do país para protestar contra a ascensão da extrema direita e reforçar essa medida. A esperança dos manifestantes é que, mesmo com o crescimento do populismo nacional, o novo parlamento continue centrista, já que é preciso criar alianças e dialogar com outras ideologias.

Entre as demais alternativas para a formação de um governo aliado a CDU, destacam-se os sociais-democratas (SPD) do atual chanceler Olaf Scholz, com 15,5% das intenções de voto, e os Verdes, liderados pelo atual vice-chanceler e candidato Robert Habeck, que ocupam a quarta posição com 13,3%. O Partido de Esquerda, que não conseguiu entrar no parlamento no mandato anterior, viu sua popularidade crescer consideravelmente desde o final de janeiro, alcançando 7%. Por outro lado, o partido liberal (FDP) de Lindner enfrenta o risco de ficar de fora do chamado Bundestag, com apenas 4,3% das intenções até o momento.
Os números sugerem que a composição do próximo governo poderá envolver três partidos. As possibilidades são diversas, mas a necessidade de equilibrar diferenças ideológicas e de programa político para garantir a estabilidade e a governabilidade resulta em um cenário político desafiador. Na pauta sobre imigração, por exemplo, os partidos de centro-esquerda são mais abertos a oferecer asilo a refugiados, indo contra o que defende a CDU.
O exemplo anterior de aliança tripla fracassou. O modelo da coalizão que uniu os sociais-democratas, os Verdes e os liberais no governo, ruiu justamente devido às divergências, principalmente no campo econômico.
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Imigrantes
Cerca de 23,8 milhões de pessoas na Alemanha têm ascendência migratória. Ainda que haja refugiados recém-chegados que estão começando a se integrar, a maioria dessa população já está inserida no mercado de trabalho, o que é essencial para a economia do país, já que representam quase 30% dos trabalhadores formais, de acordo com o Statista.
Ainda assim, o país enfrenta uma escassez de trabalhadores em diversos setores. Por isso, há um alerta de que o desejo de parte da população de se tornar mais nacionalista pode impactar negativamente os negócios do país. É o que explica o analista econômico alemão Cyrus de la Rubia.
“Quando você tenta sinalizar para as pessoas que vieram do exterior e fazem parte integral da nossa sociedade que elas não são mais parte dessa sociedade, você cria um ambiente realmente desfavorável aos negócios e isso torna muito difícil contratar pessoas de fora”, diz De La Rubia. “Especialmente agora, com dois anos de crescimento negativo, é importante recuperar nossa força. E isso não se faz fechando nossas fronteiras contra o exterior, isso certamente não é a solução.”
Apesar da crescente discussão sobre o tema, o economista lembra que o novo governo deve se concentrar no freio da dívida, que pouco foi falado durante as campanhas. Ele acredita que o novo chanceler precisará ser ousado, para reformar este freio da dívida, investir em infraestrutura, e na segurança, e então voltar a crescer.
Manuela também espera um governo que pense mais em outras questões, como o controle da inflação, a redução dos custos de energia e o controle da especulação imobiliária. Ela ainda é imigrante, mas enfrenta todos os problemas socioeconômicos como todos os demais cidadãos - mas ainda não pode influenciar nestas decisões.




