WASHINGTON - A principal agência de saúde pública dos Estados Unidos lida com uma crise sem precedentes após a Casa Branca demitir a diretora dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), Susan Monarez, por ela não estar “alinhada com a missão do presidente Trump”. A cientista governamental de longa data tenta manter o cargo enquanto seus advogados afirmam que ela foi alvo de perseguição por defender a ciência.
O principal cotado para substituí-la é Jim O’Neill, vice do secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., segundo fontes da Associated Press. Duas autoridades do governo disseram que O’Neill, o segundo em comando do Departamento de Saúde e Serviços Humanos, seria o escolhido para o lugar de Monarez.
O’Neill, um ex-executivo de investimentos, também atuou no departamento federal de saúde no governo do presidente George W. Bush e não tem formação médica. As autoridades, que confirmaram a mudança, pediram anonimato antes de um anúncio público.

Nenhuma explicação foi dada para a demissão da diretora do CDC. Kennedy não detalhou a decisão de tirar Monarez do cargo a menos de um mês após sua posse, mas alertou que mais rotatividade pode estar por vir na agência.
“Há muitos problemas no CDC e será necessário nos livrarmos de algumas pessoas a longo prazo para que possamos mudar a cultura institucional”, disse o secretário de Saúde em uma entrevista coletiva no Texas.
A Casa Branca apenas afirmou que Monarez “não estava alinhada” com a agenda do presidente Donald Trump.
Os advogados de Monarez disseram que ela foi demitida porque se recusou a “aprovar diretivas anticientíficas e imprudentes e a demitir especialistas em saúde dedicados”.
A cientista está contestando a demissão, afirmando que a decisão deve vir diretamente de Trump, que a indicou em março. O presidente americano não se pronunciou publicamente sobre o assunto.
Não está claro se O’Neill, que acaba de tomar posse como secretário adjunto do Departamento de Saúde e Serviços Humanos, permanecerá em ambas as funções como diretor interino do CDC.

Entenda o caso
A saga começou na quarta-feira , 27, à noite com o anúncio do governo de que Monarez não lideraria mais o CDC. Em resposta, três autoridades — Dra. Debra Houry, Dr. Demetre Daskalakis e Dr. Daniel Jernigan — renunciaram a cargos de alto escalão na agência.
As autoridades retornaram ao escritório nesta quinta-feira, 28, para recolher seus pertences, e centenas de apoiadores se reuniram para aplaudi-las ao deixarem o campus de Atlanta. Havia buquês de flores, aplausos e gritos de “EUA, não RFK”.
Daskalakis, que renunciou ao cargo de chefe do Centro Nacional de Imunização e Doenças Respiratórias, disse: “Temo que as crianças sejam prejudicadas por decisões equivocadas sobre vacinas”.
“Não se pode desmantelar a saúde pública e esperar que ela continue funcionando”, ele acrescentou.
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Jernigan deixou o cargo de diretor do Centro Nacional de Doenças Infecciosas Emergentes e Zoonóticas e Houry renunciou ao cargo de vice-diretora e diretora médica da agência.
Houry relatou à Associated Press que Monarez tentou se proteger contra interferências políticas em pesquisas científicas e recomendações de saúde. “Íamos ver se ela conseguiria resistir à tempestade. E quando não conseguiu, desistimos”, afirmou.
O Dr. Richard Besser, ex-diretor interino do CDC, disse que Monarez lhe disse que havia recusado ordens para demitir sua equipe de gestão. Ele também afirmou que ela se recusou a aprovar automaticamente quaisquer recomendações dos conselheiros de vacinas escolhidos a dedo por Kennedy.
“A Dra. Monarez foi uma das últimas linhas de defesa contra a agenda perigosa deste governo”, disse Besser, agora presidente da Fundação Robert Wood Johnson.
Agências de saúde enfrentam turbulências
O CDC tem sido alvo de controvérsia há muito tempo, principalmente durante a pandemia de Covid-19, enquanto a agência lutava para equilibrar política e saúde pública.
A discórdia aumentou este ano, com Kennedy promovendo agendas não científicas no Departamento de Saúde e Serviços Humanos, que supervisiona o CDC, e liderando ondas de demissões.

Monarez deve se tornar a diretora com o menor mandato desde a fundação do CDC em 1946. Trump inicialmente escolheu David Weldon para o cargo, um ex-congressista da Flórida que é médico e cético em relação às vacinas, mas retirou a indicação em março.
Monarez foi a próxima escolhida para liderar a agência de US$ 9,2 bilhões enquanto atuava como diretora interina. No entanto, questionamentos surgiram imediatamente no círculo de Kennedy sobre a lealdade dela ao movimento “Torne a América Saudável Novamente”.
Kennedy é um líder de longa data no movimento antivacina e, em junho, dispensou abruptamente todo o Comitê Consultivo sobre Práticas de Imunização do CDC, acusando os membros de estarem muito alinhados com os fabricantes.
Ele os substituiu por um grupo que incluía vários céticos em relação às vacinas e, em seguida, fechou as portas para várias organizações médicas que há muito tempo ajudavam a formular recomendações de vacinação.
Houry e Daskalakis disseram que Monarez tentou garantir que as salvaguardas científicas estivessem em vigor.
Ela tentou, por exemplo, substituir a autoridade que coordenava as reuniões do comitê por alguém com mais experiência em políticas públicas. Monarez também pressionou para que as análises de evidências fossem publicados semanas antes das reuniões do comitê e que as sessões fossem abertas a comentários públicos, afirmou Houry.
Daskalakis descreveu a situação como insustentável. “Cheguei pessoalmente a um ponto em que acredito que nossa ciência será comprometida, e esse é o meu limite”, disse.
Organizações médicas e de saúde pública disseram estar preocupadas com o futuro sem Monarez no comando.
“A comunidade científica está começando a traçar um limite e dizer: ‘De jeito nenhum’”, disse o Dr. Georges Benjamin, diretor executivo da Associação Americana de Saúde Pública./ AP e AFP





