Entenda a crise que levou à queda do primeiro-ministro do Nepal após governo bloquear redes sociais

Liderados por adolescentes e jovens adultos, protestos revelaram insatisfações maiores com política do Nepal; país vive instabilidade desde 2008

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Por Redação
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KATMANDU - A morte de 19 manifestantes no Nepal durante a repressão do governo aos protestos por proibição de plataformas de redes sociais nesta segunda-feira, 8, levaram a novas manifestações e à renúncia do primeiro-ministro KP Sharma Oli nesta terça após pressão popular, que expuseram o profundo descontentamento dos civis com a política.

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Liderados principalmente por adolescentes e jovens adultos, os protestos tiveram início por causa do bloqueio das redes, mas revelaram insatisfações maiores e escalaram. Nos últimos dias, manifestantes incendiaram as casas dos principais líderes políticos do país.

Antes de renunciar ao cargo, o primeiro-ministro revogou a proibição das redes. “Os protestos contra a proibição das redes sociais foram apenas um catalisador. As frustrações com a forma como o país está sendo governado já fervilham há muito tempo. As pessoas estão muito irritadas e o Nepal se encontra em uma situação muito precária”, disse Prateek Pradhan, editor do Baahrakhari, um site de notícias independente nepalês.

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Manifestantes protestam em Singha Durbar, sede de vários ministérios e escritórios do governo do Nepal, em imagem desta terça-feira, 9. Prédios e residências de políticos foram incendiados no país Foto: Niranjan Shrestha / AP

Descontentamento com a proibição das redes sociais e corrupção

As manifestações no Nepal foram chamadas de protesto da Geração Z, que geralmente se refere às pessoas nascidas entre 1995 e 2010. Elas ocorreram em grande parte em resposta à proibição que entrou em vigor na semana passada e à tentativa maior do governo de regulamentar as mídias sociais por meio de um projeto de lei que exige que as plataformas se registrem e se submetam à supervisão e às regulamentações locais.

O projeto de lei, que ainda não foi totalmente debatido no parlamento, tem sido amplamente criticado como uma ferramenta de censura e punição a opositores que manifestam seus protestos online. Grupos de direitos humanos o consideram uma tentativa do governo de restringir a liberdade de expressão e violar direitos fundamentais.

Ao mesmo tempo, os protestos também foram o ponto de inflexão de um sentimento antigo contra políticos, suas famílias e preocupações com a corrupção.

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Nas semanas que antecederam a proibição, uma campanha nas redes sociais — especialmente na plataforma de compartilhamento de vídeos TikTok — destacou o estilo de vida luxuoso dos filhos de políticos, destacando as disparidades entre ricos e pobres no Nepal. Os manifestantes os criticaram por ostentarem seus bens de luxo em um país onde a renda per capita é de US$ 1.400 por ano (R$ 7,5 mil).

Críticas generalizadas à incapacidade do governo de investigar alguns casos graves de corrupção e criar mais oportunidades econômicas para os jovens também aumentaram a indignação. A taxa de desemprego juvenil no Nepal foi de 20% no ano passado, segundo o Banco Mundial.

“Todas essas questões deixaram os jovens do Nepal insatisfeitos. Eles não viam outra opção a não ser ir às ruas”, disse Pradhan.

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A pior violência em décadas

A agitação é a pior em décadas na nação himalaia, espremida entre a Índia e a China. É também muito mais violenta do que a de 2006, quando uma revolta forçou o antigo rei do Nepal a renunciar ao regime autoritário. Pelo menos 18 pessoas foram mortas na ocasião. Dois anos depois, o parlamento votou pela abolição da monarquia.

Ao longo dos anos, muitos nepaleses ficaram frustrados com a república, dizendo que ela não conseguiu trazer estabilidade política.

No início de março, duas pessoas foram mortas quando apoiadores do antigo rei do Nepal entraram em confronto com a polícia durante uma manifestação em Katmandu para exigir a restauração da monarquia.

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Embora Oli tenha renunciado nesta terça-feira, não está claro se os manifestantes parariam, já que muitos deles também vêm pedindo a dissolução do governo. Tal medida poderia gerar ainda mais instabilidade no Nepal, que teve 13 governos desde 2008.

“Um acordo de transição agora precisará ser traçado rapidamente e incluir figuras que ainda mantenham credibilidade entre os nepaleses, especialmente os jovens do país”, disse Ashish Pradhan, consultor sênior do International Crisis Group.

Manifestantes exigem mudanças maiores

A resposta violenta das forças de segurança parece ter agravado ainda mais as tensões. Nesta terça-feira, os protestos se espalharam para outras partes do Nepal, incluindo os subúrbios de Katmandu.

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O manifestante Nima Tendi Sherpa, de 19 anos, foi baleado no braço pela polícia na segunda-feira. Ele disse que os protestos começaram pacificamente, mas se tornaram violentos quando as forças de segurança começaram a atirar nos manifestantes que tentavam romper as barricadas policiais.

“Não tenho nenhum ressentimento em relação aos policiais. Eles estavam apenas cumprindo seu dever, seguindo ordens. Mas estou furioso e enfurecido com aqueles que deram essas ordens”, disse Sherpa. “Agora que o incêndio já começou, acredito que deve continuar até que alcancemos a verdadeira liberdade.”

Pradhan, o editor de notícias, disse que os últimos protestos parecem ter um propósito maior e estão refletindo revoltas lideradas por jovens nos vizinhos Bangladesh e Sri Lanka, que derrubaram ambos os governos.

“Parece que as pessoas simplesmente não aguentam mais a situação como ela vem sendo. Elas querem uma mudança”, disse ele. /AP