“Que comece o processo!”, proclamou o presidente Donald Trump após seu telefonema com o presidente Vladimir Putin sobre o início das negociações destinadas a pôr fim à guerra entre Rússia e Ucrânia. E, depois de tanto derramamento de sangue, essa esperança realmente é sincera. O papa Leão XIV quer que as negociações ocorram no Vaticano.
Para resolver esse conflito, porém, Trump tem de abordar os obstáculos que impedem um acordo inovador. Neste momento Putin não aceita nem um cessar-fogo. Trump anuiu na segunda-feira ao afirmar que “as condições para isso (um cessar-fogo) serão negociadas entre as partes, como tem de ser, porque eles conhecem os detalhes”. Um tipo de pensamento mágico.
Trump precisa organizar esse processo de maneira mais coerente, ou fracassará. O governo usou uma série de táticas confusas. Primeiramente, propôs suspender os ataque contra infraestrutura energética e territórios marítimos. Isso não deu em nada, então a equipe de Trump pediu que ambos os lados elaborassem termos para um acordo — que acabaram completamente díspares, então Trump apelou para conversas presenciais. A negociação encalhou em Istambul. Então, na segunda-feira, transformou-se em um processo entre Trump e Putin.

E agora? Bem, parece que Trump quer que as partes resolvam tudo sozinhas. Essa abordagem obtusa e em constante mutação é uma receita para o fracasso — e reflete suposições equivocadas subjacentes.
O primeiro — e maior — problema é Putin não demonstrar nenhum sinal evidente de que quer a paz. Putin ainda quer alcançar a vitória, que ele definiu novamente após o telefonema da segunda-feira com a expressão “eliminar as raízes da crise”. Esse é o código para sua convicção de que a Ucrânia, em vez de se tornar um país europeu, como deseja, deve permanecer sob hegemonia da Rússia.
Putin lançou a guerra com base na ilusão de que a Ucrânia não é uma nação verdadeira e não lutaria arduamente por sua soberania. Ele não podia estar mais equivocado. A Rússia sofreu aproximadamente 800 mil baixas entre mortos e feridos. E, em três anos, seu enorme Exército não conseguiu conquistar nem sequer Donetsk. Quando as armas se calarem, a Rússia começará a acertar as contas com essa estupenda insensatez de Putin. Não é de se espantar que ele prefira seguir lutando.
Um segundo impedimento é a noção de Trump de que a Rússia representa uma potencial mina de ouro para os EUA. O presidente americano repetiu essa afirmação na segunda-feira com seu descomedimento característico: “Existe uma tremenda oportunidade para a Rússia criar enormes quantidades de empregos e riqueza (quando a guerra terminar). Seu potencial é ILIMITADO.”
Desde a década de 80, Trump está obcecado pela ideia de que a Rússia tem capacidade de se transformar em um paraíso fiscal. Esse entusiasmo foi motivado pelo conselheiro de Putin pós-graduado pela Harvard Business School, Kirill Dmitriev, que se encontrou com o enviado de Trump à Rússia, Steve Witkoff. Mas economistas estudiosos de Rússia afirmam que essa visão é equivocada. A Rússia continua uma economia corrupta e mal gerida, ainda amplamente dependente de exportações de energia e minerais. Nas últimas décadas, a Rússia foi uma nação em declínio, não em ascensão.
Se tivesse uma percepção mais realista da economia, Trump consideraria apostar na Ucrânia mais benéfico economicamente. Há muita corrupção no país, mas a guerra criou um ecossistema de inovação em Kiev capaz de vir a ser o mais produtivo da Europa. Em vez de comprar do Irã, a Ucrânia constrói seus próprios drones, em conjuntos cada vez mais sofisticados. Em vez de pedir esmolas, disse-me este mês em Kiev o ministro da Defesa ucraniano, Rustem Umerov, o governo da Ucrânia busca parceiros de investimentos em defesa.
Um terceiro equívoco é que uma Ucrânia enfraquecida possa ser obrigada a se render. A versão de Trump para esse cenário catastrófico é a frase “vocês estão sem cartas”, que ele repete frequentemente ao presidente Volodmir Zelenski. Mas acontece que a Ucrânia tem sim uma carta muito poderosa: o forte apoio da Europa.
Veja na íntegra a briga entre Donald Trump e Volodmir Zelenski na Casa Branca
Em frente à imprensa, presidente americano chamou ucraniano de ingrato e desrespeitoso.
Os europeus reconhecem que, se dominar a Ucrânia, Putin alterará o equilíbrio das relações de segurança em todo o continente. Eles veem evidências dessas ambições nas novas bases militares da Rússia na fronteira com a Finlândia e os países bálticos, assim como na campanha de sabotagem paramilitar de Putin contra apoiadores da Ucrânia. Alguns europeus me disseram considerar que a Rússia já está em guerra contra a Otan.
Trump não conseguirá fazer Zelenski engolir um acordo ruim porque os aliados europeus estão dispostos a resistir. E eles estão finalmente desenvolvendo a força militar necessária para fazer com que suas visões sejam acatadas. O novo chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, tem planos de aumentar os gastos em defesa do país para 5% do produto interno bruto. Ele prometeu na semana passada que seu governo “fornecerá todos os recursos financeiros que as Bundeswehr precisam para se tornar o exército convencional mais forte da Europa”.
A Ucrânia pode conseguir um acordo aceitável nas próximas negociações se Putin perceber que o governo ucraniano está disposto a continuar lutando com a ajuda europeia — e um pouco da necessária inteligência via satélite dos EUA. Escutei essa confiança expressada pelos principais ministros do gabinete de Zelenski durante reuniões em Kiev neste mês. Eles querem que a iniciativa de paz de Trump seja bem-sucedida. Mas preparam-se para a possibilidade do fracasso.
Trump tem se mostrado um defensor persistente e apaixonado da paz na Ucrânia. Ele frequentemente se refere à guerra como um “banho de sangue”. Mas, se quiser ser bem-sucedido, ele precisará perceber que resolver esse conflito não é uma tarefa fácil. A coisa é mais parecida com construir uma nova fábrica do que fechar uma transação imobiliária.
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Henry Kissinger, indiscutivelmente o melhor negociador da história da diplomacia moderna, fez um alerta útil: “Qualquer negociador que se deixe seduzir pela crença de que sua personalidade ocasiona avanços automáticos logo se encontrará no purgatório especial que a história reserva para aqueles que se medem por aclamações em vez de conquistas.”
Trump tem a chance de ajudar a mediar um acordo capaz de pôr fim ao conflito mais violento da nossa era. Mas se ele não encontrar a paciência necessária a uma negociação dura e bem organizada com Putin, a Ucrânia não terá escolha a não ser se defender sozinha — conferindo a Trump uma mancha obscura em vez de uma medalha de honra. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO




