Escreve toda semana sobre as relações internacionais e sobre as encruzilhadas da História no mundo contemporâneo

Escreve toda semana sobre as relações internacionais e sobre as encruzilhadas da História no mundo contemporâneo

Por que a ‘guerra às drogas’ é uma hipocrisia internacional

É importante falar do elefante presente na sala: o fato de que o tráfico de cocaína não existiria sem uma enorme demanda estrangeira

PUBLICIDADE

Foto do autor Filipe Figueiredo

PCC e Comando Vermelho: pesquisadora de Oxford explica papel do Brasil no tráfico global de drogas

Veja entrevista com Annette Idler, diretora do Programa de Segurança Global da Universidade Oxford. Crédito: Malu Mões/Estadão

Os eventos recentes no Rio de Janeiro não afetaram apenas o debate político doméstico do Brasil sobre segurança pública, mas também a imagem do país no exterior e as implicações do crime transnacional e de como lidar com ele. Essas discussões recentes, muitas vezes apropriadas e necessárias, foram especialmente focadas no crime brasileiro e latino-americano, deixando de lado o caráter, com o perdão da redundância, transnacional dessas atividades criminosas.

PUBLICIDADE

Grupos como o Comando Vermelho ou o Primeiro Comando da Capital não atuam apenas no Brasil, e possuem importante fatia de suas atividades conectadas ao tráfico internacional de cocaína. Sendo assim, é importante falar do elefante presente na sala, o fato de que o tráfico de cocaína não existiria sem uma enorme demanda estrangeira.

Em Washington, Donald Trump repete os mantras da “guerra às drogas” usados desde os anos 1970, falando em “combater” os traficantes que “envenenam” o povo de seu país. Para isso, ele poderia declarar grupos criminosos que atuam no tráfico internacional de drogas como terroristas, para legitimar mais uso de força militar.

O colega colunista Lourival Sant’Anna já escreveu em sua coluna aqui no nosso jornal alguns dos motivos que fazem com que a aplicação da definição de terrorismo em relação a grupos como o Comando Vermelho ou o PCC não necessariamente seja benéfica para o Brasil, e claro que existem outras opiniões bem embasadas nesse debate.

Polícia do Rio de Janeiro conduz operação contra o Comando Vermelho no Complexo do Alemão Foto: Silvia Izquierdo /AP

No caso dos EUA, existem as drogas legalizadas, como o álcool, o tabaco e, em alguns estados, a cannabis, e as drogas ilícitas. O país hoje enfrenta dois usos em massa distintos. Primeiro, o abuso de drogas legalizadas, como analgésicos opióides, muitos deles contrabandeados da China via Equador e México.

Publicidade

Essa é uma epidemia por si só e mereceria um texto. Outro uso em massa é o da cocaína. No país, em 2022, aproximadamente 25% das pessoas de 12 anos ou mais relataram uso de alguma droga ilícita no ano anterior. Os EUA constituem o maior mercado mundial de cocaína, movimentando dezenas de bilhões de dólares e com mais de um milhão e meio de usuários frequentes, 2,4% da população adulta.

Cocaína é uma droga cara. Em termos proporcionais, o país que mais usa cocaína no mundo é a Austrália, com 4,2%, seguido de Países Baixos e Reino Unido. Ninguém, entretanto, associa imediatamente esses países ricos e de alto Índice de Desenvolvimento Humano ao termo cocaína.

Essa ligação fica restrita, por razões inclusive ideológicas, reforçadas por estereótipos e por propaganda, aos países onde ela é produzida, como Peru, Bolívia e Colômbia. Isso é parcialmente resultado do fato de que a América Latina possui um monopólio no fornecimento de cocaína, já que a planta da coca é de difícil cultivar e suas plantações em larga escala são praticamente todas na região. Na Bolívia, onde o uso das folhas e do chá de coca é milenar, para o enfrentamento dos efeitos da altitude andina, os índices de uso de cocaína são baixíssimos.

O tráfico internacional de cocaína é exemplo cristalino de lei econômica antiquíssima; se há oferta, é porque há demanda. Se a oferta cresce ano após ano, não é por existirem personagens caricatos de filmes de ação querendo “envenenar” as inocentes e vestais populações dos EUA ou da Austrália, mas por essas mesmas populações buscarem mais e mais.

E é nessa dinâmica que entra o Brasil, com o país servindo de rota de distribuição para a droga que vêm dos Andes e, pelos portos brasileiros, chega ao mercado consumidor europeu. Por isso que cidades portuárias como Fortaleza e Santos estão no centro de investigações e de atuações de grupos criminosos. Sem consumo europeu de cocaína, esse fenômeno dificilmente ocorreria, e se relaciona ao aumento da oferta de cocaína no Brasil. Hoje, os brasileiros são os segundos maiores usuários em números absolutos da droga.

Publicidade

Polícia Federal realiza operação contra o PCC em São Paulo Foto: Polícia Federal/Reprodução

PUBLICIDADE

A retórica da “guerra às drogas” utilizada por governos como o dos EUA projeta um inimigo externo e transforma o território de outros países em campo de batalha, criando uma cortina de fumaça para as situações socioeconômicas e criminais de seus próprios países, eximindo-os ao menos parcialmente de responsabilidade perante um comércio que movimenta centenas de bilhões de dólares por ano.

Importante destacar também que não se trata de responsabilizar ou punir apenas o indivíduo. O dependente químico, como cidadão e indivíduo, precisa ser tratado. O fenômeno coletivo social, entretanto, requer responsabilização e ação de todos os Estados envolvidos, sejam nos países produtores, nos distribuidores ou nos consumidores. Não é um fenômeno restrito ao Rio de Janeiro ou sequer à América Latina. Qualquer coisa fora disso é enxugar gelo, com boas doses de hipocrisia.

Vale ler também
Filipe Figueiredo
Este acordo militar inédito mudará as peças do xadrez geopolítico do Oriente Médio
Rodrigo da Silva
O que terremotos como o da Colômbia têm em comum com riquezas naturais? A resposta está na geologia
Andrés Oppenheimer
Crise diplomática entre Milei e Lula afundará ainda mais o comércio na América Latina?
Opinião por Filipe Figueiredo

Filipe Figueiredo é graduado em história pela USP, comentarista de política internacional e criador dos podcasts Xadrez Verbal e Fronteiras Invisíveis do Futebol, sobre política internacional e história