Lula diz que só eleições não bastam para garantir a democracia em encontro no Chile

Presidente se reuniu com líderes de Chile, Colômbia, Espanha e Uruguai em Santiago para discutir democracia e extremismo em meio à ofensiva do presidente americano Donald Trump

PUBLICIDADE

Foto do autor Redação
Por Redação
Atualização:

'A democracia liberal não foi capaz de responder às necessidades contemporâneas', diz Lula

Presidente participa de reunião com líderes da Espanha, Colômbia e Uruguai à convite do chileno Gabriel Boric. Crédito: Canal Gov/YouTube

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou durante encontro com líderes de esquerda no Chile que a democracia não foi capaz de responder às necessidades atuais e que eleições já não são suficientes. Lula se reuniu nesta segunda-feira, 21, em Santiago com os líderes de Chile, Colômbia, Espanha e Uruguai para discutir democracia e extremismo como preparação para a próxima Assembleia Geral da ONU.

PUBLICIDADE

“A democracia liberal não foi capaz de responder ao anseios e necessidades contemporâneas. Cumprir o ritual eleitoral a cada quatro ou cinco anos não é mais suficiente. O sistema politico e os partido caíram em descrédito”, disse ao lado dos presidentes Gabriel Boric, Gustavo Petro e Yamandú Orsi e do premiê Pedro Sánchez.

No passado, Lula chegou a afirmar que a Venezuela tinha “mais eleições que o Brasil” e que por isso o conceito de democracia era “relativo”. O presidente Gabriel Boric, que é um crítico de ditaduras de esquerda da América Latina, fez eco às palavras de Lula dizendo que a democracia tem que entregar resultados e melhorar a vida das pessoas.

Yamandú Orsi, do Uruguai, Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, Gabriel Boric, do Chile, Pedro Sánchez, da Espanha, e Gustavo Petro, da Colômbia, em Santiago Foto: Esteban Felix/AP

Lula viajou para o Chile para um encontro de viés político da frente de líderes de esquerda ibero-americanos críticos ao avanço do “extremismo”, sobretudo em ambiente digital, mas que agora tem como pano de fundo a ofensiva do presidente americano Donald Trump.

Publicidade

A viagem coincide com o momento em que o Brasil vive um embate direto com o presidente dos Estados Unidos, cujas decisões foram vistas pelo governo Lula como punição e ingerência à soberania no Brasil.

Em sua declaração à imprensa, Lula afirmou que os líderes conversaram sobre o fortalecimento das instituições democráticas e multilateralismo frente ao que chamou de “sucessivos ataques que vêm sofrendo”.

“Neste momento em que o extremismo tentar reeditar práticas intervencionistas, precisamos atuar juntos. A defesa de democracia não cabe somente aos governos. Requer participação ativa da academia, dos Parlamentos, da sociedade civil, da mídia e do setor privado”, continuou o presidente brasileiro.

“Zelar pelos interesses coletivos é uma tarefa permanente. Vivenciamos uma nova ofensiva antidemocrática. Para reagir a este movimento, Espanha e Brasil promoveram um encontro à margem da Assembleia Geral da ONU em setembro do ano passado. De lá para cá, a situação do mundo se agravou. O quadro que enfrentamos exige ações concretas e urgentes”, declarou.

Publicidade

A reunião foi realizada no Palácio de La Moneda, em Santiago, a convite de Boric. Em sua declaração, Lula rememorou o golpe de Estado contra Salvador Allende em 1973, que levou a um período de ditadura de quase 17 anos. O golpe de Estado contou com apoio dos Estados Unidos à época.

“Este encontro no Palácio de La Moneda, ao lado dos presidentes Boric, Sánchez, Petro e Yamandú, tem uma simbologia muito especial. Aqui, a democracia chilena sofreu um dos atentados mais sangrentos da história da América Latina”, disse.

Big Techs

No encontro, os líderes também focaram em discutir sobre regulamentação do espaço digital, um tema que vem opondo Donald Trump à Europa e ao Brasil.

“Concordamos com a necessidade da regulamentação das plataformas digitais. Para devolver aos Estados a capacidade de proteger aos seus cidadãos”, disse Lula.

Publicidade

PUBLICIDADE

Segundo o presidente, a transparência de dados e a governança digital global é uma chave que permite o “debate público livre e plural”. “Liberdade de expressão não se confunde com autorização para incitar a violência, difundir o ódio, cometer crimes e atacar o Estado democrático de direitos”, continuou.

Essa fala do presidente ocorre em meio às pressões de Trump sobre o Supremo Tribunal Federal brasileiro pelas investigações envolvendo a tentativa de golpe de Estado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

O governo brasileiro vem discutindo como taxar big techs desde 2023, como forma regulatória, mas a medida agora ganhou novo impulso à luz do embate com Trump e das ameaças de recurso à reciprocidade.

O premiê espanhol listou durante a sua fala os três principais assuntos da reunião: fortalecer as instituições democráticas e multilateralismo, combate à desinformação e governança digital democrática e redução das desigualdades. “A principal tarefa e uma das mais importantes dos governo progressistas”, afirmou.

Publicidade

Sánchez informou que uma nova cúpula será realizada ano que vem na Espanha. Já Lula acrescentou que as discussões da reunião de hoje seguirão em setembro deste ano às margens da Assembleia Geral da ONU e devem envolver países latino-americanos, europeus, africanos e asiáticos.

Uma nota conjunta assinada pelo cinco líderes reforçou que as intenções da reunião. “Delineamos um roteiro para o próximo marco desta iniciativa: a realização da segunda reunião no âmbito da 80ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro. Este roteiro representa um passo concreto para a construção de uma agenda compartilhada, sustentada ao longo do tempo e articulada em defesa da democracia e contra o extremismo”, diz a nota, que manifesta o desejo de que mais países se somem à iniciativa.

Líderes conversam após fazerem uma declaração conjunta durante a cúpula de alto nível “Democracia Sempre” no Palácio de la Moneda, em Santiago, em 21 de julho de 2025 Foto: Rodrigo Arangua/AFP

Entre as iniciativas, o texto lista:

  • O compromisso de consolidar uma rede de países e da sociedade civil para promover mecanismos participativos que fomentem a aprendizagem mútua e a construção coletiva de uma democracia mais aberta, inclusiva e conectada às realidades dos cidadãos.
  • Apoiar a criação de uma rede global de think tanks que gerem análises rigorosas, fomentem o debate baseado em dados e contribuam para a busca de propostas em defesa da democracia.
  • Colaboração internacional para transparência algorítmica e de gestão de dados no ambiente digital e cooperação técnica para governança digital democrática.
  • Fortalecimento da Iniciativa Global das Nações Unidas e da UNESCO para a Integridade de Dados sobre Mudanças Climáticas.
  • Monitorar o Compromisso de Sevilha como um passo construtivo para fortalecer o financiamento para o desenvolvimento.
  • Apoio à iniciativa de formação de uma coalizão para promover e facilitar o estabelecimento de uma tributação progressiva e justa, bem como fortalecer a cooperação tributária internacional com base nos princípios de transparência, equidade e soberania.
  • A promoção de um Observatório Multilateral da Juventude contra o Extremismo, liderado pela Organização Ibero-Americana da Juventude (OIJ), para gerar dados, trocar boas práticas e desenhar políticas inclusivas a partir de uma perspectiva interseccional e participativa.

Publicidade

Internacional reacionária

O premiê espanhol justificou a realização desta reunião como uma necessidade de unificar as esquerdas frente à união da ultradireita.

“Cada vez fica mais evidente que há uma direita tradicional, que inclusive há algum tempo compartilhávamos consensos básicos, e que ultimamente sucumbiu ao discurso e ao marco colocado pela ultradireita”, disse.

“Estamos enfrentando uma internacional reacionária que atua coordenadamente, por isso precisamos atuar coordenadamente”, afirmou Sánchez.

“Temos convicção de que mais países vão se unir se o objetivo e se a inteção é fortalecer essa forma de convivência que vem de longo prazo e que tantas vidas e tantos sacrifício nos custou”, afirmou o presidente Yamandú Orsi sobre o futuro das reuniões.

Publicidade

O uruguaio defendeu a necessidade de fazer uma autocrítica sobre porque as pessoas perdem a confiança na democracia e que é preciso levar soluções completas às reuniões da ONU. “Se somos conscientes de que não estamos fazendo todo o esforço possível para evitar o crescimento dos extremismos e a perda de confiança no diálogo, sem dúvidas, vamos ter mais adições”, completou.

“Tivemos várias horas de deliberação, encontro de ideias em um mundo que se debate, em seu centro de poder, o irracionalismo que está destruindo a multilateralidade”, afirmou o presidente Gustavo Petro em suas falas de abertura.

“Formamos um grupo importante, grande, de líderes de países distintos, mas com visões que se complementam para defender a democracia”, celebrou o anfitrião Boric. “Esse não é somente um ato simbólico, é um ato político que além de tudo tem proposta concretas”.

Depois da declaração conjunta, que não foi aberta a perguntas da imprensa, os presidente foram para um almoço com acadêmicos de várias nacionalidades, entre eles Coria do Sul, Reino Unido, Estados Unidos, segundo Boric, para seguir com as discussões.

Publicidade

Em seguida será publicada a declaração conjunta assinada pelos líderes com as áreas de trabalho até a próxima reunião na Espanha./ Com Gabriel de Sousa e Gabriel Hirabahasi, do Broadcast