O que os conservadores de fato podem oferecer às universidades?

Parece óbvio que as instituições de ensino se beneficiariam com a presença de ideias contrárias para permitir a compreensão da realidade em sua totalidade

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Por Ross Douthat (The New York Times)

Governo Trump pode expulsar estudantes estrangeiros da Universidade de Harvard?

Juíza federal proíbe governo Trump de revogar matrículas de estudantes estrangeiros de Harvard.

Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

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Na semana passada, o The Wall Street Journal noticiou que a Universidade de Harvard, em busca de maior diversidade ideológica, considera criar algum tipo de instituto com a missão de contratar professores com perspectivas não progressistas sobre o mundo.

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Na mesma ocasião, a romancista Joyce Carol Oates publicou um post zombando desse tipo de iniciativa, cujo argumento vou reproduzir na íntegra:

a maioria das universidades e faculdades certamente tem professores que são contrários. Liberais e progressistas estão sempre brigando entre si; “a esquerda devora os seus”; contratar conservadores por si só resultará em currículos muito desequilibrados, especialmente nas ciências; realmente, as universidades deveriam contratar físicos que não acreditam na física moderna? antropólogos que acreditam que os “arianos” são a raça superior? poetas que acreditam na rima? filósofos que são tomistas convictos ou acreditam na Criação? historiadores que não reconhecem a escravidão nos Estados Unidos? que palhaçada, uma espécie de “Livro de Mórmon” do campus.

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Estudantes tiram fotos na livraria da Universidade de Harvard, em Cambridge  Foto: Sophie Park/NYT

Eu amo, na verdade adoro, a ideia de que “poetas que acreditam em rimas” e estudantes de Tomás de Aquino — duas categorias que se distinguem por seu rigor incomum, na minha experiência — são, da perspectiva de Oates, equivalentes à supremacistas arianos e a um conjunto imaginário de “historiadores que não reconhecem a escravidão”.

Mas a primeira parte do post faz uma pergunta que merece uma resposta séria. Por que o contrarianismo acadêmico e a contenda por si só não são suficientes para apresentar aos estudantes perspectivas diversas sobre o mundo? Por que não podemos simplesmente confiar na inteligência e na curiosidade de bons professores, mesmo que quase todos eles tendam para a esquerda, para apresentar um retrato completo do debate intelectual?

A resposta mais simples é que o contrarianismo é bastante antinatural para os seres humanos, e apenas um pouco menos antinatural entre pessoas, em teoria, treinadas em trabalho intelectual rigoroso. De fato, às vezes, uma vida dedicada ao trabalho intelectual pode fazer com que a conformidade pareça mais natural. Afinal, se todos ao seu redor são estudiosos profissionais e todos tendem a concordar sobre certas questões cruciais, você não deveria mostrar deferência a essa expertise compartilhada?

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Sede da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard, em Boston Foto: Sophie Park/NYT

É claro que ninguém quer se imaginar como um chato e ortodoxo em todos os aspectos. Mas mesmo um impulso em direção à abertura mental e à heterodoxia tende a ser controlado e canalizado para um território seguro.

O próprio post de Oates sugere a maneira pela qual isso acontece. “A esquerda devora os seus”, escreve ela, descrevendo o clima de inimizade fervorosa muitas vezes existente dentro das facções de esquerda que, vistas de fora, parecem basicamente concordar. Mas, é claro, é precisamente essa concordância que faz parecer seguro ter discussões acaloradas! Você pode bancar o contraditório e o herege, até mesmo desenvolver rixas sangrentas e rivalidades pessoais implacáveis, sem se afastar muito da segurança da opinião recebida. A batalha interpretativa é feroz, mas as perspectivas normativas permanecem cuidadosamente restritas.

Outra forma com a qual se coloca cabresto no contrarianismo é mostrar uma certa curiosidade intelectual sobre o passado distante, um território em que autores proibidos ou ideias perigosas podem ser encontrados de uma perspectiva puramente histórica — e depois retornar à segurança do conformismo quando se trata de lidar com as controvérsias de hoje.

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Alunos da Universidade de Columbia participam da graduação em Nova York, Estados Unidos Foto: Juan Arredondo/NYT

É isso que se vê no programa do currículo básico da Universidade de Columbia, sobre o qual escrevi no ano passado. As leituras atribuídas para o mundo antes do século XX representam uma diversidade razoável de visões de mundo e opiniões. Mas, quando se chega às controvérsias contemporâneas, a perspectiva do currículo básico estreita-se a um grau insano, com textos quase exclusivamente ambientalistas, anticolonialistas e a favor do decrescimento atribuídos para ajudar os alunos a compreender “os problemas insistentes do presente”.

Com certeza existem professores e intelectuais de esquerda capazes de fazer melhor do que o núcleo de Columbia, realmente atrás de fazer justiça às controvérsias contemporâneas, e dispostos a dar o devido valor não apenas às ideias centristas ou clássicas do progressismo, mas até mesmo às conservadoras e reacionárias. Mas, no cenário acadêmico atual, mesmo o ensino bem-sucedido da controvérsia tende a confirmar o progressismo como uma perspectiva padrão.

Para entender como isso funciona, vale a pena ler um artigo de três acadêmicos da Claremont McKenna College e da Scripps College, que usam um banco de dados de programas de estudos universitários de todo o mundo anglófono para avaliar com que frequência perspectivas contrastantes sobre questões de grande visibilidade são atribuídas nas salas de aula das universidades.

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Um de seus exemplos é “The New Jim Crow”, de Michelle Alexander, uma interpretação famosa e influente, mas também muito duvidosa, do encarceramento em massa e do racismo nos Estados Unidos. No banco de dados, ela aparece em mais de 5.000 programas de estudos — mais do que “Hamlet” [clássico de Shakespeare] ou “The Federalist Papers” [uma série de 85 artigos escritos por James Madison, Alexander Hamilton e John Jay com o objetivo de promover a ratificação da Constituição dos Estados Unidos].

Em seguida, os autores analisam as críticas mais proeminentes e as perspectivas alternativas sobre o assunto, obras de autores acadêmicos como James Forman Jr., John Pfaff e Patrick Sharkey. Estas aparecem em apenas algumas centenas de programas de estudos; na esmagadora maioria dos casos, “The New Jim Crow” é usado sozinho, sem uma perspectiva contrária. Ao mesmo tempo, as principais alternativas quase nunca são ensinadas sozinhas; elas entram na discussão como “amplificadores de conversa”, mas não são apresentadas como possíveis padrões por si só.

Portanto, duas coisas parecem acontecer quando os estudantes universitários se deparam com debates sobre crime, raça e prisão. A maioria deles recebe apenas uma perspectiva: a do livro de Alexander e a sabedoria convencional que se formou em torno de seu argumento. Então, uma minoria sortuda é realmente ensinada sobre a controvérsia — mas mesmo assim o mecanismo de ensino lhes dá a entender que existe uma ortodoxia e uma heterodoxia, um consenso e críticas, em vez de oferecer um ponto de partida completamente diferente.

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Estudantes do colegial fazem um tour pelo campus da Universidade de Harvard, em Cambridge Foto: Sophie Park/NYT

Obviamente, um banco de dados não pode capturar a realidade de uma sala de aula, onde um professor pode introduzir o debate na discussão, bem como por meio da lista de leitura. E nem todos os textos analisados pelos autores mostram um resultado tão desigual quanto “The New Jim Crow”. Eles também analisam o famoso ensaio pró-aborto de Judith Jarvis Thomson, “A Defense of Abortion” (Uma defesa do aborto), e encontram mais tentativas de ensinar a controvérsia — principalmente porque é um texto quase sempre usado em departamentos de filosofia, que (argumentam os autores) têm um compromisso mais forte com o debate moral do que outras áreas das humanidades.

Mas ainda há uma realidade básica em evidência aqui: um mundo acadêmico carente de diversidade política séria irá gerar, em primeiro lugar, um grau entorpecedor de conformidade em questões contemporâneas contestáveis e, em segundo lugar, um contrarianismo que, mesmo na melhor das hipóteses, ainda luta para escapar totalmente do paradigma dominante.

Estudantes caminham pela Universidade de Harvard, em Cambridge  Foto: Steven Senne/AP

Para possibilitar uma fuga completa, seria necessária uma mudança profunda na natureza humana ou, de modo mais plausível, mais pessoas envolvidas no projeto acadêmico que partissem de fora das ortodoxias existentes. Cultivar o contrarianismo é saudável; ensinar controvérsias de um ponto de vista neutro é uma aspiração importante. Mas, de longe, a maneira mais fácil de dar aos alunos uma noção das diversas perspectivas do mundo é simplesmente ter pessoas que realmente tenham essas perspectivas ensinando em seu campus.

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Se Harvard ou qualquer outra universidade progressista pode realmente realizar tal diversificação é uma questão diferente, a ser endereçada em outro artigo. Mas parece óbvio que essas instituições de ensino se beneficiariam com tal mudança. Argumentos travados exclusivamente entre progressistas e esquerdistas podem ser estimulantes, envolventes, importantes, reveladores. Mas eles sempre serão insuficientes para a tarefa professada pela universidade, a compreensão da realidade em sua totalidade.

Opinião por Ross Douthat