Israel e Hamas se acusam mutuamente de sabotar negociações para trégua em Gaza
Domingo de novos bombardeios israelenses contra a Faixa de Gaza, com mais 20 palestinos mortos confirmados por autoridades do território devastado pela guerra. Crédito: AFP
O Ministério da Defesa de Israel promoveu um plano para confinar a maioria da população da Faixa de Gaza em uma zona pequena e amplamente destruída no sul do território como refugiados do conflito. A proposta ameaça inviabilizar os últimos esforços de um cessar-fogo entre Israel e o grupo Hamas.
Autoridades israelenses informaram para governos de outros países e jornalistas nas últimas semanas sobre o plano, que envolve forçar centenas de milhares de palestinos para uma área controlada pelo Exército israelense, próxima à fronteira com o Egito. De acordo com especialistas jurídicos, o plano seria uma violação do direito internacional porque impediria os civis de retornar para casa por tempo indeterminado - o que é uma forma de limpeza étnica.
Embora o governo israelense não tenha feito comentários oficiais sobre o plano, a ideia foi sugerida pela primeira vez na semana passada pelo ministro da Defesa de Israel, Israel Katz. Ele a discutiu durante um encontro com correspondentes israelenses especializados em assuntos militares. O The New York Times revisou trechos do encontro escritos pelos participantes. Vários também escreveram artigos que atraíram atenção ampla de israelenses e palestinos.
Um porta-voz de Israel Katz se recusou a fazer comentários, assim como o gabinete do primeiro-ministro israelense Binyamin Netanyahu.

Agora, o Hamas citou a proposta de Katz como um dos mais recentes obstáculos a uma trégua. Durante um cessar-fogo, em troca da libertação de cerca de 25 reféns, o Hamas quer que as tropas israelenses se retirem de grande parte da Faixa de Gaza. O novo plano torna isso muito menos possível, pois garantiria a permanência de tropas israelenses no comando de uma grande área sobre a qual o Hamas busca restabelecer o controle.
Husam Badran, membro do alto escalão do Hamas, descreveu o estabelecimento do acampamento como uma “demanda deliberadamente obstrutiva” que complicaria as tensas negociações. “Esta seria uma cidade isolada que se assemelha a um gueto”, declarou Badran nesta segunda-feira, 14 “Isso é totalmente inaceitável, e nenhum palestino concordaria com isso.”
As esperanças de um cessar-fogo iminente aumentaram na semana passada, depois que Netanyahu foi a Washington para reuniões com o presidente dos EUA, Donald Trump, que muitos esperavam que resultariam em um acordo israelense. Em vez disso, Netanyahu — que havia atrasado as negociações por motivos pessoais e políticos — retornou a Israel sem nenhum avanço.
As negociações permanecem estagnadas em questões para uma trégua permanente. Israel quer poder retornar à guerra, enquanto o Hamas busca garantias de que qualquer cessar-fogo evolua para uma cessação total do conflito. Israel também quer que o Hamas se comprometa com o desarmamento, uma ideia que o grupo rejeita. Há também divergências sobre a entrega de ajuda humanitária.
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Segundo informações do encontro de Katz, o novo acampamento teria sido descrito por ele como uma “cidade humanitária” que, inicialmente, abrigaria pelo menos 600 mil civis palestinos. Katz disse que, posteriormente, abrigaria toda a população da Faixa de Gaza - cerca de 2 milhões de pessoas.
Críticos israelenses compararam o acampamento a um campo de concentração moderno, pois os moradores não teriam permissão para deixar o perímetro da área para voltar para casa.
Isso poderia constituir transferência forçada, um crime segundo o direito internacional, segundo um grupo de especialistas israelenses em direito internacional que escreveram uma carta aberta sobre o assunto, enviada para Katz e ao chefe das forças armadas de Israel, Tenente-General Eyal Zamir.
Se implementado, “o plano constituiria uma série de crimes de guerra e crimes contra a humanidade e, sob certas condições, poderia equivaler ao crime de genocídio”, afirmam.

Os militares de Israel se recusaram a comentar se receberam ordens para implementar o plano.
Como ainda não foi formalmente detalhado ou anunciado, alguns israelenses especulam que se trata principalmente de uma tática de negociação que visa persuadir o Hamas a fazer mais concessões nas negociações de trégua ou convencer os aliados de extrema direita da coalizão de Netanyahu a apoiar um cessar-fogo.
Itamar Ben-Gvir, ministro de extrema direita que apoia o despovoamento de Gaza e se opõe a uma trégua permanente com o Hamas, disse em um comunicado que o plano de deslocamento provavelmente não seria aprovado e que havia sido simplesmente divulgado por seus colegas para facilitar a aceitação de um acordo de cessar-fogo.
“O debate em torno da criação de uma cidade humanitária é basicamente uma manipulação para esconder o acordo que está sendo preparado”, disse Ben-Gvir. “A manipulação não substitui a vitória absoluta”, acrescentou.




