Plano para confinar palestinos ameaça inviabilizar trégua na Faixa de Gaza

Proposta israelense de forçar grande parte da população de Gaza a viver em um pequeno acampamento ofusca negociações sobre uma trégua

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Por Patrick Kingsley (The New York Times) e Aaron Boxerman (The New York Times)

Israel e Hamas se acusam mutuamente de sabotar negociações para trégua em Gaza

Domingo de novos bombardeios israelenses contra a Faixa de Gaza, com mais 20 palestinos mortos confirmados por autoridades do território devastado pela guerra. Crédito: AFP

O Ministério da Defesa de Israel promoveu um plano para confinar a maioria da população da Faixa de Gaza em uma zona pequena e amplamente destruída no sul do território como refugiados do conflito. A proposta ameaça inviabilizar os últimos esforços de um cessar-fogo entre Israel e o grupo Hamas.

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Autoridades israelenses informaram para governos de outros países e jornalistas nas últimas semanas sobre o plano, que envolve forçar centenas de milhares de palestinos para uma área controlada pelo Exército israelense, próxima à fronteira com o Egito. De acordo com especialistas jurídicos, o plano seria uma violação do direito internacional porque impediria os civis de retornar para casa por tempo indeterminado - o que é uma forma de limpeza étnica.

Embora o governo israelense não tenha feito comentários oficiais sobre o plano, a ideia foi sugerida pela primeira vez na semana passada pelo ministro da Defesa de Israel, Israel Katz. Ele a discutiu durante um encontro com correspondentes israelenses especializados em assuntos militares. O The New York Times revisou trechos do encontro escritos pelos participantes. Vários também escreveram artigos que atraíram atenção ampla de israelenses e palestinos.

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Um porta-voz de Israel Katz se recusou a fazer comentários, assim como o gabinete do primeiro-ministro israelense Binyamin Netanyahu.

Imagem de 30 de junho mostra crianças palestinas se alimentando após distribuição de comida em Nuseirat, na zona central da Faixa de Gaza. Território tem situação de miséria crescente com restrição de entrada de ajuda humanitária por Israel Foto: Eyad Baba/AFP

Agora, o Hamas citou a proposta de Katz como um dos mais recentes obstáculos a uma trégua. Durante um cessar-fogo, em troca da libertação de cerca de 25 reféns, o Hamas quer que as tropas israelenses se retirem de grande parte da Faixa de Gaza. O novo plano torna isso muito menos possível, pois garantiria a permanência de tropas israelenses no comando de uma grande área sobre a qual o Hamas busca restabelecer o controle.

Husam Badran, membro do alto escalão do Hamas, descreveu o estabelecimento do acampamento como uma “demanda deliberadamente obstrutiva” que complicaria as tensas negociações. “Esta seria uma cidade isolada que se assemelha a um gueto”, declarou Badran nesta segunda-feira, 14 “Isso é totalmente inaceitável, e nenhum palestino concordaria com isso.”

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As esperanças de um cessar-fogo iminente aumentaram na semana passada, depois que Netanyahu foi a Washington para reuniões com o presidente dos EUA, Donald Trump, que muitos esperavam que resultariam em um acordo israelense. Em vez disso, Netanyahu — que havia atrasado as negociações por motivos pessoais e políticos — retornou a Israel sem nenhum avanço.

As negociações permanecem estagnadas em questões para uma trégua permanente. Israel quer poder retornar à guerra, enquanto o Hamas busca garantias de que qualquer cessar-fogo evolua para uma cessação total do conflito. Israel também quer que o Hamas se comprometa com o desarmamento, uma ideia que o grupo rejeita. Há também divergências sobre a entrega de ajuda humanitária.

Segundo informações do encontro de Katz, o novo acampamento teria sido descrito por ele como uma “cidade humanitária” que, inicialmente, abrigaria pelo menos 600 mil civis palestinos. Katz disse que, posteriormente, abrigaria toda a população da Faixa de Gaza - cerca de 2 milhões de pessoas.

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Críticos israelenses compararam o acampamento a um campo de concentração moderno, pois os moradores não teriam permissão para deixar o perímetro da área para voltar para casa.

Isso poderia constituir transferência forçada, um crime segundo o direito internacional, segundo um grupo de especialistas israelenses em direito internacional que escreveram uma carta aberta sobre o assunto, enviada para Katz e ao chefe das forças armadas de Israel, Tenente-General Eyal Zamir.

Se implementado, “o plano constituiria uma série de crimes de guerra e crimes contra a humanidade e, sob certas condições, poderia equivaler ao crime de genocídio”, afirmam.

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Homem palestino senta ao lado dos corpos de integrantes de sua família mortos em um ataque israelense contra um prédio no bairro de Sheikh Radwan, na Faixa de Gaza  Foto: Bashar Taleb/AFP

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Os militares de Israel se recusaram a comentar se receberam ordens para implementar o plano.

Como ainda não foi formalmente detalhado ou anunciado, alguns israelenses especulam que se trata principalmente de uma tática de negociação que visa persuadir o Hamas a fazer mais concessões nas negociações de trégua ou convencer os aliados de extrema direita da coalizão de Netanyahu a apoiar um cessar-fogo.

Itamar Ben-Gvir, ministro de extrema direita que apoia o despovoamento de Gaza e se opõe a uma trégua permanente com o Hamas, disse em um comunicado que o plano de deslocamento provavelmente não seria aprovado e que havia sido simplesmente divulgado por seus colegas para facilitar a aceitação de um acordo de cessar-fogo.

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“O debate em torno da criação de uma cidade humanitária é basicamente uma manipulação para esconder o acordo que está sendo preparado”, disse Ben-Gvir. “A manipulação não substitui a vitória absoluta”, acrescentou.