Durou um ano, seis meses e nove dias para sair do papel, e entrou para os livros de história como uma das missões mais brilhantes desta geração com o nome Operação Pavutina (Teia de Aranha).
A execução tática ficou a cargo do Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) – liderado pelo seu chefe Vasil Maliuk – em conjunto com a Diretoria Principal de Inteligência do Ministério da Defesa. Volodmir Zelenski supervisionou pessoalmente a preparação.
Os preparativos incluíram extensas fases de operação. Células operacionais foram inseridas no território russo muito antes do ataque – com direito a um centro de comando de operação estabelecido ao lado de um prédio do FSB (o herdeiro do KGB).

A operação utilizou drones kamikaze de primeira pessoa (FPV), fabricados na Ucrânia, equipados com cargas explosivas e sistemas de vídeo para direção remota em tempo real. Cada drone custa US$ 500.
O SBU empregou um método inovador de entrega desses drones. Primeiro, dezenas de drones de pequeno porte foram contrabandeados para dentro da Rússia e armazenados num galpão alugado por US$ 4.500 mensais. Depois, a inteligência ucraniana enviou cabines falsas de madeira para serem instaladas na carroceria de caminhões.
Esses caminhões foram então posicionados próximos de bases aéreas russas, sem levantar qualquer suspeita, dirigidos por motoristas russos que não faziam a menor ideia de que estavam participando de uma operação militar ucraniana. Esses motoristas receberam instruções por telefone de homens não identificados que lhes diziam exatamente onde e quando parar.
Os caminhões eram propriedade de um ucraniano chamado Artem Timofeev, de 37 anos, morador registrado do oblast de Cheliabinsk. Timofeev abriu uma empresa de transporte de cargas em outubro de 2024. Em dezembro, comprou os seus veículos. Desde domingo ele está na lista de procurados da Rússia.
De forma coordenada, os compartimentos falsos de madeira dos caminhões foram abertos e os drones voaram deles em direção ao ataque, a curtíssima distância dos alvos – tão próximos deles que os sistemas antiaéreos russos não puderam ser empregados a tempo.
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A inteligência ucraniana conseguiu executar a missão em Kiev, a quase 5 mil quilômetros de distância, e retirar com segurança, antes dos ataques, todos os agentes envolvidos – que trabalharam em três fusos diferentes dentro da Rússia. Não houve vítimas.
CBS, Fox News e Axios contam que Donald Trump não foi avisado previamente da operação.
No total, 117 drones foram mobilizados para a operação, cada um controlado por um operador remoto. A Ucrânia também recorreu à inteligência artificial para garantir precisão milimétrica. Antes dos ataques, os drones foram treinados em Poltava para reconhecer e atacar aeronaves.
A operação mirou cinco bases aéreas militares estratégicas dentro da Rússia, atingindo quatro delas com sucesso:
- A Base Aérea de Diagilevo, na região de Riazan, a 200 quilômetros de Moscou.
- A Base Aérea de Olenia, no oblast de Murmansk (acima do Círculo Polar Ártico), a 1.700 quilômetros da Ucrânia.
- A Base Aérea de Ivanovo (Severni), na cidade de Ivanovo, a nordeste de Moscou.
- A Base Aérea de Belaia, na região de Irkutsk, na Sibéria Oriental, a 4.300 quilômetros das linhas de frente na Ucrânia.

Os ucranianos também planejavam atacar uma base aérea no oblast de Amur, mas o alvo não foi atingido – segundo relatos, porque o caminhão que transportava os drones explodiu antes do lançamento.
Os ataques ocorreram simultaneamente no domingo. Tudo durou apenas 15 minutos.
Nessas bases aéreas, a Ucrânia atingiu principalmente bombardeiros estratégicos russos: aviões enormes, caros e com tecnologia altamente especializada – que demandam anos de fabricação e milhares de peças, muitas das quais já não são mais produzidas – capazes de lançar mísseis de cruzeiro de longa distância (como o Kh-101) sem precisar entrar no espaço aéreo ucraniano.
O Tu-95MS “Bear”, por exemplo, pode voar mais de 12 mil quilômetros sem reabastecer. Ele tem condições de carregar tanto mísseis convencionais quanto armas nucleares.
O Tu-22M3 “Backfire” é um bombardeiro supersônico usado para ataques aéreos mais próximos. Ele transporta bombas e mísseis de precisão, e é frequentemente usado para atacar infraestrutura crítica ucraniana, como pontes e ferrovias. O último Tu-22M3 foi fabricado em 1993.
O Tu-160 “Blackjack” é o maior e mais rápido bombardeiro do mundo – voa a quase duas vezes a velocidade do som e tem alcance intercontinental. Também pode carregar mísseis nucleares. A Rússia tem apenas 15 unidades operacionais. Cada unidade custa mais de US$ 250 milhões e leva anos para ser produzida.

O Beriev A-50 é um avião-radar que funciona como os olhos e ouvidos no céu russo, com capacidade de detectar aviões ucranianos, coordenar ataques e organizar a defesa aérea do país.
As informações preliminares dão conta de que pelo menos 13 aviões russos foram completamente destruídos e mais de 40 danificados. Qualquer dano a um bombardeiro desses é capaz de retirá-lo de operação.
De acordo com a inteligência ucraniana, a operação conseguiu atingir 34% de todos os vetores estratégicos de mísseis de cruzeiro da Rússia. A conta inicial é de US$ 7 bilhões de prejuízo.
A Rússia não tem condições de produzir novas unidades desses modelos num ritmo satisfatório porque, além de toda dificuldade envolvida, ainda sofre sanções do Ocidente. Kiev, em compensação, tem capacidade de produzir, por ano, mais de 5 milhões de drones kamikaze de primeira pessoa.
Do ponto de vista estratégico, destruir as aeronaves dessas instalações significa reduzir drasticamente a capacidade russa de conduzir ataques de longo alcance com mísseis de cruzeiro. Em essência, a Ucrânia está desmantelando o legado da aviação soviética. Hoje, por causa de Zelenski, a Rússia tem consideravelmente menos capacidade ofensiva.
A operação também teve um impacto na percepção de segurança do interior profundo russo. Os ataques provaram que nenhuma cidade russa está protegida de atentados ucranianos – um efeito psicológico poderoso o suficiente para aterrorizar não apenas as lideranças militares, mas o presidente russo.
Pela primeira vez, uma potência nuclear viu a sua aviação estratégica ser devastada por drones artesanais lançados de caminhões civis, em seu próprio território.
Por isso, a Operação Pavutina não abalou apenas Moscou. A Ucrânia provou ao mundo que não é preciso ter ogivas ou satélites para quebrar a espinha dorsal de um império – basta inteligência. Em quinze minutos, Kiev reinventou a arte da guerra. E o mundo acordou em um campo de batalha que nunca mais será o mesmo.









