Rússia e Ucrânia se preparam para primeiras conversas diretas desde 2022. Saiba o que está em jogo

A nova rodada de negociações ocorre em meio a um longo histórico de táticas protelatórias por parte da Rússia conforme os combates na Ucrânia se intensificam

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Por Mary Ilyushina (The Washington Post)

Rússia e Ucrânia estão prestes a se reunir esta semana em Istambul para suas primeiras conversas presenciais de alto escalão desde 2022, uma proposta impulsionada pelo presidente Vladimir Putin para responder às crescentes demandas ocidentais para que a Rússia concorde com um cessar-fogo de 30 dias como gesto inicial de uma paz duradoura.

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Com o presidente Donald Trump apoiando o apelo de Putin, afirmando em uma publicação que “a Ucrânia deve concordar com isso, IMEDIATAMENTE”, o fio da balança do líder americano parece estar se inclinando novamente para Moscou. Autoridades e analistas europeus, no entanto, veem uma manobra conhecida do Kremlin: uma tentativa de protelar, ganhar tempo e, acima de tudo, manter o presidente dos EUA engajado.

Após os Estados Unidos e a Europa exigirem um cessar-fogo de 30 dias, Putin propôs uma nova medida no fim de semana: ignorou completamente o cessar-fogo e, em vez disso, marcou uma data para as negociações entre as delegações russa e ucraniana na quinta feira, na Turquia. Ele tomou essa iniciativa apesar de especialistas russos terem defendido, há semanas, a narrativa de que as negociações com Kiev não são possíveis por causa da suposta falta de legitimidade do presidente ucraniano, Volodmir Zelenski.

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Presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, fala com a imprensa em Kiev. Zelenski confirmou que participaria de negociações diretas com a Rússia em Istambul, mas Kremlin anunciou uma delegação de menor escalão. Foto: Evgeniy Maloletka/Associated Press

“Se estivessem interessados na paz, poderiam parar [de atacar a Ucrânia] agora mesmo”, disse a chefe de política externa da União Europeia, Kaja Kallas, a repórteres em uma cúpula sobre democracia em Copenhague, na terça feira. “A Rússia está claramente brincando, tentando ganhar tempo.”

No curto prazo, as ofertas intermitentes de cessar-fogo de Putin e, agora, a possibilidade de negociações diretas com a Ucrânia lhe deram um tempo precioso, adiando em pelo menos alguns dias as demandas ocidentais por um cessar-fogo de 30 dias. A proposta de Putin também perfurou a unidade transatlântica que durou cerca de um dia, quando Europa e Ucrânia pressionaram conjuntamente por uma trégua incondicional com o apoio de Trump, apoiada pela ameaça de novas sanções punitivas.

Com a notícia de uma reunião na Turquia, os líderes ocidentais frearam as novas restrições.

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“Estamos aguardando a anuência de Putin e concordamos que, se não houver progresso real esta semana, defenderemos conjuntamente um endurecimento significativo das sanções no nível europeu”, disse o chanceler alemão, Friedrich Merz, em entrevista coletiva na terça feira.

“Analisaremos outras áreas, como o setor energético e o mercado financeiro. … Agora, cabe a Putin aceitar esta oferta de negociações e concordar com um cessar-fogo. A bola está inteiramente com a Rússia”, disse ele.

As oportunidades para o líder russo ganhar tempo diminuíram, disseram analistas, depois que Zelenski desafiou Putin para um encontro presencial na Turquia e Trump sugeriu um desvio de sua viagem de três dias ao Oriente Médio para potencialmente participar dessa cúpula.

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Zelenski viajará para Ancara esta semana para se encontrar com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, e disse estar pronto para ir a Istambul para se encontrar com Putin caso o líder russo apareça.

“Putin não pode responder [positivamente] à oferta de Zelenski porque a imagem de durão é, basicamente, a condição mais importante para a estabilidade de seu regime”, disse o analista político russo Vladimir Pastukhov. “Trump pode dar a Putin uma saída para salvar a situação em um cenário em que Zelenski respondeu elevando as apostas ao nível de um encontro pessoal. ... Putin poderia fingir que está conversando com Trump, enquanto Zelenski está apenas fazendo figuração ao lado deles.”

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Pastukhov argumentou que a guerra entre Rússia e Ucrânia se aproxima de um momento crucial, em que Putin terá que decidir se agora é a hora de aproveitar a oportunidade oferecida por Trump para sair da guerra e recuperar as perdas sofridas pela Rússia ou se vai embarcar em uma campanha militar de verão, na qual tentará infligir, se não uma derrota estratégica, pelo menos uma derrota tática operacional às forças ucranianas.

“Ele acha que pode acabar com cartas melhores nas mãos, mas é claro que sua situação pode piorar, e esse é o risco para ele”, disse Pastukhov. “Seu raciocínio mostra que não está convencido de que Trump continuará com a ajuda militar à Ucrânia.”

Presidente da Rússia, Vladimir Putin, fala com a imprensa ao lado do primeiro-ministro da Malásia Anwar Ibrahim no Kremlin. Putin não deu indícios de que vai a Istambul para negociações com a Ucrânia. Foto: Alexander Nemenov/Associated Press

O Kremlin não deu indícios de que Vladimir Putin deva participar das negociações. A Rússia apontou uma delegação de menor escalão que não inclui nem o presidente nem o chanceler Serguei Lavrov e o assessor de política externa Iuri Ushakov.

“Conversas diretas entre Putin e Zelenski são improváveis”, disse o analista pró-Kremlin Sergei Markov. “Se Putin virá a Istambul para conversas agora depende de Trump — e se Trump está pronto para assumir a responsabilidade pelo comportamento de Zelenski.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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