Recém-saídos da linha de montagem, os dois jatos Eurofighter percorreram a pista de Turim a 300 km/h antes de decolar tendo como fundo os Alpes nevados. Seu destino era o Kuwait, a seis horas de voo.
O Exército kuwaitiano é o primeiro cliente estrangeiro a comprar os jatos supersônicos da Leonardo, a empresa italiana de defesa que fabrica o Eurofighter como parte de um consórcio com produtores no Reino Unido, Alemanha e Espanha. Mais negócios como esse são prováveis, já que a Europa está se voltando para dentro para construir suas defesas em meio à guerra comercial do presidente Donald Trump e suas exigências para que a Europa pare de depender dos Estados Unidos para garantir sua segurança.
A demanda por armas disparou na Europa após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, e tem persistido alta. Com a Europa produzindo mais e melhores armas, o continente também busca vender seus produtos de forma mais ampla no mercado global.

A nova ênfase na produção de armas é evidência de uma mudança geracional mais ampla na Europa, que reduziu suas Forças Armadas após a Guerra Fria em favor de investimentos sociais.
Giancarlo Mezzanatto, um alto funcionário da Leonardo que foi diretor executivo do consórcio Eurofighter até dezembro, aposta que o antagonismo do governo em relação à Europa incentivará mais forças militares a comprar armas europeias. Tanto a Polônia quanto a Turquia já estão considerando acordos multibilionários para o Eurofighter, conhecido como “Typhoon”, em vez de expandir suas frotas de jatos de fabricação americana.
“É uma questão de quão bem-sucedidos os produtos são e de como as tecnologias estão ajudando os produtos a ter sucesso no mercado”, disse Mezzanatto em uma entrevista recente em Turim, descrevendo um “renascimento” para o Eurofighter com uma nova atualização em meados de sua geração que manterá sua vantagem até 2060.
“Além disso, é claro, temos as situações geopolíticas, que são claramente influenciadas por Trump”, acrescentou.
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Mesmo antes de Trump invocar tarifas globais punitivas neste mês, as ações das empresas de defesa da Europa estavam em alta, em parte porque investidores institucionais que há muito as ignoravam estão reconsiderando suas posições.
O Stoxx Europe Total Market Aerospace & Defense, um índice das principais empresas de defesa, incluindo a Leonardo, Rheinmetall e BAE Systems, subiu cerca de 24% este ano, enquanto o índice S&P 500 teve queda de mais de 10%.
A onda de tarifas de Trump abalou a confiança dos investidores em praticamente todos os lugares, mas analistas veem o setor de defesa como seguro, especialmente por causa da pressão política para rearmar a Europa. Em março, a Comissão Europeia anunciou uma ampla proposta para aumentar os gastos com defesa em cerca de US$ 840 bilhões, incluindo US$ 165 bilhões em empréstimos. O Banco Europeu de Investimento também afirmou que planeja no mínimo dobrar seu financiamento para projetos de segurança e defesa e expandir seu financiamento para equipamentos militares.

Isso chamou a atenção de investidores institucionais, incluindo o Fundo de Pensão Global do Governo da Noruega, o maior fundo soberano do mundo. Esses fundos há muito tempo se mantêm afastados de fabricantes de armas, mas estão repensando essas restrições.
“O que realmente provocou a reviravolta na opinião pública, acredito, é a óbvia relutância do governo Trump em apoiar a Europa na defesa”, disse Stephen M. Davis, pesquisador sênior do Programa de Governança Corporativa da Faculdade de Direito de Harvard. “Quando a opinião pública muda, a comunidade de investidores provavelmente também muda.”
A mudança representa uma grande novidade em relação à forma como muitos investidores abordam a indústria de defesa na Europa. Os governos locais reduziram drasticamente seus efetivos militares quando a Guerra Fria terminou em 1991 e começaram a injetar dinheiro em pensões, saúde, educação, programas ambientais e outras prioridades econômicas consideradas mais importantes do que a construção de armas.

Por décadas, muitos fundos de pensão europeus proibiram investimentos diretos em fabricantes de armas que produzem armas como bombas de fragmentação, armas químicas, nucleares e biológicas, e minas. Após a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, a Otan implorou a governos, bancos e fundos privados que investissem na indústria de defesa e ajudassem a acelerar a produção de armas e a impedir que a guerra se alastrasse para a Europa.
“É sempre melhor investir em saúde, infraestrutura e educação”, disse Jens Stoltenberg, então secretário-geral da Otan, em dezembro de 2022. Mas, segundo ele, “a realidade é que a única maneira de sustentar a paz é investir em defesa”.
A Varma, um fundo de pensão finlandês, flexibilizou suas regras alguns meses após a invasão russa e antes da Finlândia ingressar na Otan em 2023. Sob certas condições, a Varma pode agora considerar investir em tal fabricante se, por exemplo, armas controversas como bombas de fragmentação representarem no máximo 5% das vendas.
“Não há restrições em relação a armas convencionais, desde que os produtos sejam usados principalmente para defender a soberania e prevenir conflitos”, acrescentou Hanna Kaskela, vice-presidente sênior de sustentabilidade e comunicações da Varma.

O AkademikerPension, na Dinamarca, também está repensando suas regras de investimento em armas — mas isso pode ser mais por causa de Trump do que da Rússia. O fundo de pensão de 65 anos, que conta como seus clientes muitos acadêmicos atuais e aposentados do país, tem sido um grande investidor em empresas com fortes credenciais em questões climáticas e de direitos humanos.
Ultimamente, seus membros têm se tornado mais agressivos em seu foco de investimento. “Em fevereiro, tudo mudou”, lembrou Jens Munch Holst, presidente-executivo do AkademikerPension, que administra cerca de US$ 24 bilhões em ativos. A ameaça de Trump de expropriar a Groenlândia, um território semiautônomo da Dinamarca, foi “uma notícia chocante para os dinamarqueses”.
Para alguns investidores, aquele foi o momento em que a defesa nacional ultrapassou as mudanças climáticas como a nova principal ameaça. Mas, além de dinheiro, a Europa precisará de vontade política para reforçar suas defesas.
A maioria dos principais produtores de armas na Europa é parcialmente estatal, e cada governo tem suas próprias prioridades de gastos, regulamentações e estratégias de defesa. Isso criou ineficiências entre os fabricantes nacionais, que produzem quantidades relativamente pequenas de armas, resultando em custos relativamente altos.

O preço de um obus de artilharia autopropulsado de 155 milímetros construído na Europa, por exemplo, pode variar entre US$ 6 milhões e US$ 19 milhões, de acordo com o Instituto Bruegel, um centro de estudos econômicos em Bruxelas, enquanto um construído nos Estados Unidos custa menos de US$ 2 milhões. Analistas estão observando se as tarifas de Trump aumentam os custos de aço, cobre e outros metais essenciais para a construção de equipamentos militares.
“A fragmentação do mercado europeu de defesa significa que o dinheiro é gasto de forma muito ineficiente”, concluíram pesquisadores do Royal United Services Institute, um grupo analítico afiliado às Forças Armadas britânicas, em um estudo realizado neste mês.
O consórcio de quatro países que constrói o jato Eurofighter buscou unir seus recursos em vez de concorrer quando foi criado na década de 1980. O jato agora voa em nove países, incluindo quatro no Oriente Médio. Embora o Kuwait tenha sido o primeiro a comprar o avião de guerra da Leonardo, outros países o adquiriram diretamente das demais empresas do consórcio.
Batizada em homenagem ao inventor italiano Leonardo da Vinci, a Leonardo também está desenvolvendo um caça de última geração, o Programa Aéreo Global de Combate, com produtores no Reino Unido e no Japão; a previsão é de que ele entre em serviço militar em 2035.
Sua tecnologia deverá rivalizar, se não superar, a do jato stealth F-35, de fabricação americana, que opera em 20 países e é amplamente considerado o caça mais avançado do mercado global. Mas, embora os Estados Unidos imponham restrições rígidas a algumas das capacidades altamente sigilosas do F-35, o GCAP, como é conhecido, dará aos seus clientes maior controle de seus sistemas.

Com a incerteza em torno das políticas comerciais de Trump, alguns europeus estão agora debatendo abertamente o valor do F-35, produzido pela Lockheed Martin.
“Se precisamos do F-35, precisamos investir na indústria de defesa americana, com a qual entendo que muitas pessoas terão problemas em um momento em que estamos em guerra comercial com os Estados Unidos”, disse Thibault Muzergues, pesquisador do Instituto de Assuntos Internacionais de Roma, em uma conferência patrocinada pela Otan neste mês.
A Força Aérea Italiana opera Eurofighters e F-35s, e a Leonardo fabrica peças para ambos. Mas, embora a Leonardo esteja limitada à fabricação de asas e outros equipamentos para o F-35, a empresa está profundamente envolvida no desenvolvimento da tecnologia para o Eurofighter.
Há dois anos, quando o CEO Roberto Cingolani assumiu a Leonardo, ele concentrou a empresa em avanços de alta tecnologia e na intermediação de joint ventures com outros fabricantes europeus de armas, incluindo a gigante alemã de defesa Rheinmetall para a construção de tanques e a fabricante turca de drones Baykar.
Ele acredita que foi isso que chamou a atenção dos investidores que estavam reconsiderando a indústria de defesa europeia após a posse de Trump.
“De repente, a Europa percebeu que precisamos mudar”, disse Cingolani. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL



