Uma produção de Hollywood feita em Liverpool

A Netflix, a Amazon Prime e outros estúdios estão comprando estúdios de som na Grã-Bretanha e construindo mais, atraídos por uma mão de obra experiente e incentivos fiscais atraentes

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Por Eshe Nelson
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THE NEW YORK TIMES - LIFE/STYLE - LIVERPOOL, Inglaterra - Por duas décadas, o prédio Littlewoods em Liverpool, um espaço longo, baixo e cavernoso construído para abrigar uma empresa de apostas e vendas por encomenda na década de 1930, ficou abandonado. Ninguém queria enfrentar essa carcaça em ruínas que pairava nos arredores da cidade.

Golda Rosheuvel, no centro, como a Rainha Charlotte, e Hugh Sachs à direita, como Brimsley, da segunda temporada de 'Bridgerton'. Foto: Liam Daniel

Até Lynn Saunders enfrentar. Ela é a força motriz para torná-lo o centro do primeiro complexo de estúdios de cinema e TV de Liverpool.

“É um lugar monstruoso”, disse Saunders, chefe do Liverpool Film Office. O local havia intimidado a maioria dos potenciais compradores. Mas em meio a um boom na produção de TV e cinema na Grã-Bretanha, o Littlewoods Studios é agora um de pelo menos duas dúzias de grandes projetos para construir ou expandir o espaço de estúdios em toda a Grã-Bretanha.

Plataformas de streaming como Netflix, Disney+ e Amazon Prime Video estão correndo para atender à demanda insaciável por conteúdo e escolheram a Grã-Bretanha como local para fazê-lo, contrariando o mal-estar do investimento geral no país desde que ele votou pela saída da União Europeia. Em 2021, um recorde de 5,6 bilhões de libras (US$ 7,4 bilhões) foi gasto em produções cinematográficas e de TV de alto nível na Grã-Bretanha, quase 30% a mais do que a alta anterior em 2019, segundo o British Film Institute. Mais de 80% desse dinheiro vinha de estúdios americanos ou outras produções estrangeiras.

Com a certeza de que não há fim iminente para o desejo de séries e filmes dignos de paixão, estúdios, agentes imobiliários e autoridades locais estão correndo para construir mais espaço de produção.

A Blackstone, a maior empresa de equidade privada do mundo, e a Hudson Pacific Properties, proprietária da Sunset Studios, que inclui as antigas casas da Columbia Pictures e da Warner Bros. na Sunset Boulevard em Hollywood, disseram que vão investir 700 milhões de libras para construir as primeiras instalações dos Sunset Studios fora de Los Angeles, a norte de Londres. Com 21 estúdios de som, será maior do que qualquer um dos seus estúdios de Hollywood.

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“Existe uma necessidade enorme de produzir conteúdo em mercados que já possuem infraestrutura”, disse Victor Coleman, presidente e CEO da Hudson Pacific Properties. “E a infraestrutura não compreende necessariamente apenas as instalações, mas também o talento na frente e atrás das câmeras.”

Cena do filme 'Harry Potter e a Pedra Filosofal'; filmes da saga ajudaram a Grã Bretanha a conquistar o lugar de queridinha dos estúdios.  Foto: DIV

Os primeiros filmes de Star Wars e os 10 anos de filmes de Harry Potter ajudaram a Grã-Bretanha a chegar aqui. As produções cinematográficas eram atraídas por mão de obra experiente e empresas de efeitos visuais e, especialmente, generosas isenções fiscais. Em 2013, os incentivos foram estendidos a produções de TV que custassem mais de 1 milhão de libras por hora de transmissão - as chamadas séries de TV de alto nível, como The Crown e Game of Thrones”. Nos últimos anos, as produções receberam um desconto em dinheiro de 25% em despesas qualificadas, como efeitos visuais realizados na Grã-Bretanha. No ano fiscal de 2020-21, os incentivos fiscais para filmes, TV, videogames, televisão infantil e animação ultrapassaram 1,2 bilhão de libras (cerca de 7,35 bilhões de reais).

Na Grã-Bretanha, o cinema recebe um nível de atenção do governo com o qual outras indústrias criativas, como o teatro, só podem sonhar.

“Eu não gostaria de pensar na perda do incentivo fiscal”, disse Ben Roberts, CEO do British Film Institute. Sem isso, a Grã-Bretanha não seria competitiva, acrescentou.

A maior parte do crescimento da produção na Grã-Bretanha vem de séries de TV de grande orçamento, basicamente dos canais de streaming. No ano passado, 211 produções de TV de alto nível filmadas na Grã-Bretanha, como Ted Lasso e Good Omens, e menos da metade delas foram produzidas exclusivamente por empresas britânicas, segundo o British Film Institute. Em comparação com 2019, o valor gasto saltou 85% para 4,1 bilhões de libras.

Liverpool já afirma ser a segunda cidade mais filmada na Grã-Bretanha depois de Londres. Por algumas semanas no final de 2020, suas ruas se tornaram Gotham City para Batman, e por anos, séries, incluindo Peaky Blinders, foram filmadas lá. A autoridade local está cortejando mais séries de TV a partir da construção de quatro estúdios menores.

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Construção em Liverpool, que se tornou o local preferido para estúdios de streaming. Foto: Francesca Jones/The New York Times

Os agentes imobiliários anunciaram o plano para o Littlewoods Studios no início de 2018, mas as grandes ambições foram desviadas alguns meses depois por um incêndio no prédio. Não querendo perder a crescente demanda, Saunders convenceu a Câmara Municipal a gastar 3 milhões de libras construindo dois estúdios de som adjacentes ao local. Eles foram inaugurados em outubro.

E então, no final do ano passado, 8 milhões de libras em financiamento público foram aprovados para obras de reparação no edifício Littlewoods para criar mais dois estúdios de som. Saunders espera que a adição de estúdios mantenha as produções na cidade por mais tempo - ocupando quartos de hotel, fazendo pedidos em restaurantes e empregando pessoas locais. O escritório de cinema também começou a investir em produções - até agora no valor de 2 milhões de libras em seis séries de TV.

A Grã-Bretanha já é o maior local de produção da Netflix fora dos Estados Unidos e Canadá. Embora muito seja filmado em locações - como Bridgerton, em Bath, e Sex Education, no País de Gales - a Netflix se comprometeu com um lar permanente em 2019 no Shepperton Studios do Pinewood Group em Surrey, a sudoeste de Londres, onde Dr. Strangelove e Oliver! foram feitas décadas atrás. Shepperton agora está se expandindo, com o objetivo de dobrar o número de seus estúdios de som para 31 até 2023, e a Netflix planeja ocupar grande parte desse novo espaço.

Mas a vinda de streamers americanos para as costas britânicas também trouxe seus desafios. A indústria está repleta de histórias de equipes de produção deixando empregos para programas com salários mais altos, longas esperas por estúdios e custos de produção que superam a inflação.

Anna Mallett, vice-presidente de produção física da Netflix para o Reino Unido, Europa, Oriente Médio e África, resiste à ideia de que a expansão voraz do streaming está mandando outras produções para fora do espaço do estúdio.

St. George's Hall, que apareceu em 'The Batman', como se fosse Gotham City. Foto: Francesca Jones

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“Acho que há o suficiente para todos”, ela disse. “Há mais de 6 milhões de metros quadrados de espaço de produção chegando ao mercado nos próximos dois anos.”

A Amazon planeja se mudar para a casa ao lado. No mês passado, a Prime Video concordou em arrendar 450.000 metros quadrados no novo empreendimento no Shepperton Studios, incluindo nove estúdios de som. O serviço de streaming enviou uma onda de entusiasmo para a Grã-Bretanha no ano passado, quando anunciou que filmaria a segunda temporada de sua série O Senhor dos Anéis, Os Anéis do Poder, no país. Ele sairá da Nova Zelândia para consternação das autoridades daquele país, que ao longo de duas décadas ofereceram centenas de milhões de dólares em incentivos financeiros à franquia.

Longe dos estúdios mais renomados nos arredores de Londres, há esperança de que o boom da produção possa trazer oportunidades de emprego e investimento para áreas negligenciadas na Grã-Bretanha. Novos estúdios estão sendo construídos em um antigo espaço industrial em Dagenham, no leste de Londres, uma área que já foi sinônimo de fabricação de carros Ford no século XX. Em Bristol, a autoridade local está investindo 12 milhões de libras para adicionar mais três estúdios de som ao Bottle Yard Studios em uma área que está com dificuldades econômicas, disse Laura Aviles, chefe do Bristol Film Office.

“Tem sido uma luta” para regenerar a área, ela disse, “e há muitos jovens lá que podem ser de uma terceira geração de desempregados que lutaram para conseguir trabalho”. Espera-se que a expansão atraia outras empresas para a área. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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