O TikTok e o Instagram estão repletos de vídeos com títulos como “arrume-se comigo para a igreja”; “como fazer um devocional”, “explicando a bíblia” e “uma rotina próspera com Deus” — são vídeo voltados para o público jovem, cristão e para aqueles que supostamente buscam uma vida de propósito. Chamados de “conteúdos devocionais”, esse tipo de material que mistura religiosidade, espiritualidade, estilo de vida e blogueiragem atrai milhões de seguidores e virou uma via expressa entre a geração Z (nascidos entre 1997 e 2010) e diferentes vertentes do cristianismo.
No TikTok, a tag #CristãoNoTikTok já acumula mais de dois milhões de vídeos, seguido por 890 mil publicações com #Devocional e mais 870 mil posts usando a hashtag #JovemCristão.

Depois de infiltrar estéticas seculares em seus rituais, como cultos com cara de shows de rock, o movimento devocional se aproveita de um nicho bastante popular nas redes sociais para se espalhar, o de autocuidado.
A influenciadora digital, Manuela Cit, 21, soma mais de 1,6 milhões de seguidores no Instagram e mais 1,7 milhões no TikTok. Evangélica de berço e convertida ao catolicismo há poucos meses, seu conteúdo não está relacionado, essencialmente, a um conteúdo católico, mas a um estilo de vida saudável, com treinos iniciados antes do sol nascer. Ao compartilhar sua rotina, ela também expõe seu relacionamento com Deus.
Manuela explica que a parte espiritual, como a leitura da bíblia e reflexões sobre as passagens, faz parte do seu dia a dia — o termo “devocional” está ligado justamente ao ato de estudar algum ensinamento bíblico. “Tem gente que depende desse tipo de influência. Se uma pessoa que ela admira postou que está fazendo um devocional, ela imediatamente vai lá fazer um devocional. Eu quero ser uma influência do bem, e eu tenho certeza que isso é algo do bem, então, eu posto de maneira abrangente, para a pessoa encontrar o caminho dela”.

Para Lucas Liedke, psicanalista e pesquisador de cultura e comportamento, essa relação entre a religião e o empoderamento do indivíduo é o que faz o discurso das igrejas ser mais contemporâneo e, assim, atrair mais jovens. “Acho que essa parte da prosperidade com a religião flerta mais com o nosso tempo e com o discurso neoliberal presente nas redes”, diz o psicanalista.
Apesar do conteúdo de Manuela não ser focado em religião, ela acredita que usar parte de sua influência para abordar esse tópico, por meio da vida saudável, também é um “chamado divino”. “Deus ama a rotina, Deus é o Deus da ordem, Deus da organização. Eu quero fazer tudo com excelência e servir da melhor maneira possível porque eu sinto um chamado para isso. Eu tenho um dom, então, como pessoa portadora de um dom que foi dado por Deus, tenho que honrar e fazer da melhor maneira possível”, diz a influenciadora.
A ideia vem se espalhando também por perfis menores. Luiza Soares, 21, estudante de direito, tem pouco mais de 5 mil seguidores em seu perfil no Instagram, onde compartilha uma rotina espiritual e saudável. Leonardo Rossetto, 21, estudante de nutrição, tem quase 70 mil seguidores na mesma rede. O casal teve seu primeiro encontro na Igreja Batista da Lagoinha, da Barra Funda, em São Paulo. E, desde então, utilizam seus perfis para mostrar vídeos que misturam religião e dicas de nutrição e exercícios.

“Eu busco ser a imagem semelhante de Cristo aqui na Terra. Meu conteúdo é voltado para uma pessoa que busca viver com propósito. Há poucos anos, eu não sabia o que era viver assim. Hoje, eu ajudo pessoas a terem hábitos saudáveis, buscarem um relacionamento com Deus e viverem uma vida que valha a pena. Meu maior objetivo é buscar renunciar o meu antigo eu para que Cristo possa habitar em mim”, diz Rossetto.
“Acredito que a igreja se relacione com esses hábitos saudáveis e com essa mudança de lifestyle porque ela traz uma razão para a vida. A partir do momento que eu sei o que eu mereço, eu vou começar a me cuidar mais, a parar de frequentar certos ambientes que me puxam para baixo”, diz Luiza.
Já Jordana Vucetic, 21, estudante de publicidade e de teologia, não gosta de ser atrelada a outras denominações cristãs, mas, com 1,8 milhão de seguidores no Instagram e mais 3,9 milhões no TikTok, é impossível negar o seu alcance — por lá, a devota da Igreja Presbiteriana mostra conteúdos voltados à propagação de um suposto “estilo de vida cristão”.
“O meu foco no Instagram é ser mais profunda, não quero ser superficial, gosto de ensinar as pessoas sobre a palavra e sobre as heresias também. Tento alertar porque, talvez, através de mim, eles consigam abrir os olhos diante daquilo que está sendo propagado”, diz Jordana.
A onda devocional não é por acaso, segundo Liedke. Ele explica que desde o fim da pandemia, os mais jovens, que fazem parte da geração Z e da geração Alpha, presenciam uma certa insegurança generalizada sobre o futuro, valorizando questões como segurança e estabilidade, pilares que uma religião consegue sustentar. “O aspecto de crise é inerente à condição de ser adolescente, que se intensifica ainda mais com os tempos que vivemos. As religiões, de muitas formas, ajudam a lidar com esse desamparo existencial. Ao mesmo tempo, que também sabem se aproveitar e fazer uso desse desamparo”, diz.
Segundo um estudo feito pelo Instituto Ipsos com 26 países, 89% da população brasileira acredita em algum tipo de deus, esse número faz com que o País seja o que mais crê em uma força superior no mundo. E, ainda, 90% das pessoas no Brasil acreditam que a fé em Deus é capaz de superar crises.
Assim, a explosão de conteúdos devocionais ajudam a impulsionar a venda de itens relacionados ao tema. Ao Estadão, a Amazon diz que a venda de produtos religiosos, como bíblias e cadernos devocionais (espécie de diário onde os fiéis escrevem suas reflexões e estudos), por exemplo, aumentou em 11,2%, em comparação com números de abril de 2024.
Comunicação das igrejas
Os conteúdos devocionais, claro, viraram isca para as igrejas atraírem novos frequentadores, além de manter quem já está envolvido com a instituição. O pastor André Fernandes, da Lagoinha de Alphaville, explica que, atualmente, as redes sociais têm um grande impacto sobre o público da igreja. “Publicamos muito pelas redes por meio de vídeos, fotos e highlights mostrando os melhores momentos daquilo que vivemos na semana, isso é um ponto muito forte da nossa comunicação. Quanto mais trechos de conteúdos, sejam eles elogiando ou criticando, são compartilhados, mais alcance nós temos. As pessoas acabam tendo curiosidade para entender e querer conhecer a igreja, culminando no aumento de famílias que chegam na Lagoinha”, diz.
Já o pastor Davi Helon, da Igreja Presbiteriana de Higienópolis, diz que por lá as redes sociais são usadas de forma mais informativa para os fiéis. “Nossa intenção com as redes é registrar o que tem acontecido entre nós. Com fotos, pequenos vídeos e lembretes da nossa programação. Quando é necessário, fazemos lives. O evangelho nunca pode ser um produto”, diz.
Apesar de ter uma comunicação diferente da Lagoinha, por exemplo, Helon também diz que muitas pessoas passaram a conhecer a igreja por meio das redes sociais. “Isso mudou e tem acontecido muito. Vários dos nossos membros já chegaram na nossa igreja por meio das redes. Aqui no Brasil temos alguns pregadores e líderes famosos da linha reformada, as pessoas acabam vendo na internet e procuram por igrejas com a mesma linha de ensino”.
Alexandre Inagaki, especialista em comunicação digital, acredita que, atualmente, as igrejas integram esse discurso de estilo de vida como uma forma de se aproximar dos jovens. “De alguma maneira, você faz com que a experiência religiosa te dê também uma sensação de pertencimento e status. Então, as igrejas atraem muito os jovens por causa do estilo de vida e, também, porque se comunicam bem com o momento atual que o mundo contemporâneo está vivendo”, diz.
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Retorno do público
Mesmo que Manuela, Jordana, Luiza e Rossetto sejam de segmentos diferentes do cristianismo, os quatro observam o impacto que exercem em seus seguidores ao compartilharem conteúdos religiosos.
“Perdi muitos seguidores quando passei a postar sobre isso, tem gente que não gosta. Mas também recebo relatos muito bonitos. Como ‘desde que comecei a te acompanhar perdi 12 quilos, comecei a comer melhor, me reconectei com Deus e voltei a ir à igreja’. Sinto que esse é o meu propósito de vida, não tem coisa mais gratificante do que ser usada por Deus para isso”, diz Manuela.
Jordana também diz que observou uma mudança muito drástica no perfil de seus seguidores, já que, anos atrás, seu conteúdo nas redes sociais não tinha nenhuma relação com a religiosidade. “Eu fiquei um bom tempo afastada das redes, meu público era majoritariamente masculino. Quando eu conheci Jesus, quis mudar isso, não quis falar sobre minha aparência e vaidades. Repensei toda minha vida e comecei a falar de Jesus, na época perdi muitos seguidores. Hoje em dia, recebo relatos diários de que, por meio dos meus conteúdos, as pessoas passaram a buscar Deus também”.
Luiza acredita que as redes sociais são instrumentos para ampliar a mensagem propagada dentro da igreja. “As redes sociais potencializam o lado bom da igreja e democratizam o que realmente acontece por lá, ampliam a visão. A internet amplia está mudando a opinião de muita gente, e conquistando muitos corações”, diz Luiza.
Além disso, ela acredita que essa constância incentiva ela mesma a se manter mais próxima de Deus. “Quando a gente expõe alguma coisa, a gente se compromete com aquilo. A partir do momento que eu posto e gero identificação com muitas pessoas, eu quero continuar com aquilo. Vejo que tem um porquê mais forte do que só postar”.
*Mariana Cury é estagiária sob supervisão do editor Bruno Romani




