Ano de Copa do Mundo é tradicionalmente ano de trocar de televisor. No ano que vem, no entanto, os brasileiros poderão experimentar não apenas novos aparelhos mas um novo sistema de transmissão: a TV 3.0. Com a regulamentação assinada pelo presidente Lula em agosto, fabricantes, canais de TV, anunciantes e organizações técnicas correm para colocar em campo uma tecnologia que promete mudar qualidade, formato e interação das transmissões.
Nem todas as especificações técnicas ainda estão definidas, mas já é possível saber que uma mudança visual importante está a caminho. Sergio Santoro, coordenador do Módulo do Fórum Brasileiro de TV Digital, que desenvolve o projeto da TV 3.0, conta que o telespectador terá acesso a uma qualidade de imagem e som praticamente imersiva. “A resolução poderá ser ofertada em 4K, podendo chegar a 8K, permitindo que o espectador tenha uma imagem muito próxima daquilo que ele observa naturalmente, é uma evolução significativa do ponto de vista da plasticidade”, diz.

Lançado em 2007, o atual sinal da TV Digital no Brasil tem resolução Full HD (1.920 x 1.080 pixels), o que significa que a TV 3.0 pode multiplicar por 16 o número de pixels presente na transmissão — o sinal 8K tem resolução de 7.680 x 4.320 pixel. Se ficar “apenas” com 4K, o sinal ainda tem 4 vezes mais pixels do que a transmissão atual. A TV Globo já fez transmissões experimentais em 8K, como nas Olimpíadas de Tóquio e no primeiro capítulo da novela Pantanal.
Isso significa que aquilo que é transmitido na TV aberta poderá chegar gratuitamente aos lares brasileiros com a mesma qualidade daquilo que já é exibido nas plataformas de streaming, que disponibilizam para os assinantes planos 4K, normalmente os mais caros.
Além de melhorar a qualidade de imagem, transmissões em 4K e 8K permitem a compra de aparelhos de TV ainda maiores — quando as primeiras telonas 4K chegaram ao mercado, era comum encontrar consumidores decepcionados com a qualidade da transmissão, o que ocorria justamente porque o sinal não “preenchia” com pixels o painel, deixando tudo com aspecto de borrado. A partir da TV 3.0, todo o potencial dos painéis 4K serão explorados.
Embora ainda não todas as especificações disponíveis, a Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletrônicos (Eletros), diz que “a regulamentação da TV 3.0 representa um marco importante para a evolução da televisão aberta no Brasil e sinaliza o início de uma nova etapa de modernização tecnológica”.
Interatividade
Além da qualidade de imagem, a transmissão se tornará muito mais interativa, com uma experiência próxima do que já acontece com os serviços de streaming. “No caso de uma partida de futebol, por exemplo, a emissora poderá ter dois narradores, um torcedor de cada time. Ou então, também poderá optar por não ter narrador, só o som do estádio”, diz Santoro.
Raymundo Barros, diretor de tecnologia da Globo, explica que, com a tecnologia, o público passará a receber informações personalizadas de acordo com sua região. “O usuário poderá acessar estatísticas, enquetes, informações atualizadas de sua região, como tempo e trânsito, mosaico de câmeras em programas e transmissões ao vivo e replays em tempo real, tudo direto pelo controle remoto”, explica o diretor.
Nem mesmo a separação dos canais por numeração, algo que existe desde o início das TVs no mundo, será preservada. Em vez de números no controle remoto, as emissoras serão reconhecidas por ícones, parecidos com os já usados por Netflix e YouTube em smartTVs.
Claro, o formato deverá mudar a forma como publicidade e consumo se relacionam com a TV. O público poderá comprar aquilo que está vendo na televisão, como a roupa de uma atriz, por exemplo, tudo por meio do controle remoto. “Será possível clicar em uma peça de roupa de um artista e acessar um e-commerce”, explica Denise Porto Hruby, CEO do IAB Brasil.
Ela conta que a tecnologia permite entender a audiência e criar anúncios personalizados, relevantes e inteligentes, o que beneficia o anunciante e o comprador. “Para o meio publicitário, representa a convergência entre o alcance em massa da televisão aberta e a precisão da publicidade digital orientada por dados. Para o consumidor, acredito que a chegada da TV 3.0 representa mais oportunidades de consumo de anúncios e contéudo”, diz.
“Do ponto de vista publicitário, a televisão reinava de maneira pujante sobre todos os outros meios, mas com o advento da internet, esse faturamento começou a se direcionar para outros meios de comunicação. Então, essa é uma das razões pelas quais houve essa mudança”, diz Santoro.
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A expectativa é que a tecnologia comece a ser introduzida por São Paulo e pelo Rio de Janeiro visando a Copa do Mundo de 2026, que tem início no dia 11 de junho. Barros, da Globo, explica que a introdução do novo sistema deve acontecer aos poucos. “A expansão para outras capitais e estados deve ocorrer de forma gradativa. Em abril deste ano, inauguramos a estação piloto no Rio de Janeiro, que nos permite aprimorar e desenvolver tanto a tecnologia quanto a arquitetura do novo modelo, garantindo uma transição eficaz”, explica.
Santoro indica que a transição será parecida com a mudança do sistema analógico para o digital, o que pode durar até 10 anos para que o público se adapte a modelos de televisão mais modernos, que suportam a tecnologia. “Essa transição não é obrigatória por parte do telespectador, haverá um período de dupla transmissão. Não há necessidade de qualquer correria para compra de um novo receptor, haverá a comercialização daquelas caixinhas que chamamos de conversores”, diz.
Embora o sinal da TV continue gratuito com a atualização, ainda será preciso adquirir um conversor para acessar a novidade. Chamado de Mimo (Multiple-Input Multiple-Output), o aparelho usa mais de uma antena tanto para transmitir quanto para receber sinais de comunicação sem fio. A previsão é de que esses aparelhos custem algo em torno de R$ 400, podendo abaixar de preço de acordo com a evolução do mercado e escala de produção.
No entanto, para que o telespectador possa ter acessos a esses recursos de interatividade, é necessário que o sistema da televisão esteja conectado à uma fonte de internet estável. Ainda assim, os usuários que não contarem com acesso a redes Wi-Fi poderão usufruir de uma qualidade de imagem muito melhor do que a ofertada no sistema digital atual.
Por enquanto, não é possível saber se futuramente as TVs terão conversor embutido, como aconteceu após a transição do sinal analógico para o digital — mas não é um cenário impossível, dado o histórico do setor. Procurados pela reportagem, os dizem que aguardam as normas técnicas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) para começar a desenhar a nova linha de produtos.
“A LG Electronics do Brasil informa que acompanha e monitora todas as informações sobre a normatização TV 3.0. Sendo assim, seguiremos entendendo por meio dos órgãos regulatórios do mercado os próximos passos e medidas a serem tomadas”, diz em nota
“O próximo passo é a definição das normas técnicas detalhadas pela ABNT e da suíte oficial de testes, fundamentais para garantir interoperabilidade entre fabricantes, operadoras e emissores, além de assegurar a continuidade de funcionamento dos televisores já instalados no Brasil”, diz Cristiane Clausen, CEO da Philco.
Quando isso ocorrer, as novas TVs não devem demorar a aparecer nas lojas. “Tão logo sejam concluídas as especificações da TV 3.0, iremos seguir com os processos de desenvolvimento dos novos produtos bem como seu processo fabril. Nossa expectativa é ter a produção iniciada em nossa fábrica em Manaus em breve”, diz Eason Cai, CEO da TCL SEMP e presidente da TCL Latin America Business Group. /COLABOROU BRUNO ROMANI







