Operadora digital Fluke levanta aporte e inicia expansão nacional

Fundada em São Carlos, empresa se inspira na transformação que bancos digitais causaram para revolucionar telecomunicações; startup utiliza redes da Vivo para apoiar seu serviço

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Por Bruno Capelas
Atualização:

Nos últimos anos, os brasileiros se acostumaram a contratar planos de dados para poder usar a internet no celular. Há sempre um limite mensal: se ele fosse estourado, é preciso pagar mais. Caso contrário, porém, o usuário não pode acumular os bytes que não foram utilizados. Mas há quem acredite que não precisa ser assim: ativa desde março, a operadora digital Fluke, de São Carlos (SP), quer mudar essa regra e criar uma “postura mais amigável” com os consumidores, como diz seu fundador, Marcos Antônio Oliveira Jr. 

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“Queremos fazer com as telecomunicações o que fintechs como Neon e Nubank fizeram com os bancos”, diz ele, em entrevista ao Estadão. A citação não é fortuita: cofundador do Neon, Pedro Conrade está entre em um grupo de investidores-anjo que acabou de fazer um aporte na Fluke. Ao lado dele, há nomes como Paulo Silveira (Alura) e Diego Marrara, sócio da empresa de inovação Distrito, bem como o grupo de investimento-anjo de ex-alunos da Faculdade de Economia, Contabilidade e Administração da USP, o FEA Angels. 

Com o aporte, a empresa pretende financiar sua expansão para além de sua terra natal e chegar a até seis Estados no fim de 2020. Além disso, está aumentando seu time: antes do aporte, concretizado em julho, a Fluke tinha 16 pessoas. Hoje, tem 23 e deve chegar a 27 funcionários até o final do ano. A meta é que esse grupo ajude a empresa a chegar à casa “das dezenas de milhares de clientes” até o final do ano que vem. 

Marcos Antônio Oliveira Jr, fundador da operadora digital Fluke Foto: Fluke

Como funciona o serviço

Fundada em 2017 por Oliveira junto a outros três sócios, a Fluke oferece aos usuários um serviço de telefonia e internet que pode ser contratado conforme a demanda. Depois de comprar o chip no site da empresa, o usuário paga uma assinatura base de R$ 2 por semana, para manter a linha ativa. 

Além disso, pode comprar múltiplos de 500 MB para internet por R$ 6 – 2 GB de dados, por exemplo, custam R$ 24 – e pagar 10 centavos por minuto de ligação. “Se você não usar todos os dados, o saldo é acumulado para o período seguinte”, explica Oliveira. “Outra vantagem é não precisar sempre pagar: é possível desativar o serviço caso o usuário vá viajar, por exemplo.” 

Após dois anos de testes, a empresa começou a funcionar em março, apenas na região de São Carlos. Em outubro, chegou ao resto do Estado de São Paulo, ao Distrito Federal e a Goiás – este último é o Estado onde Oliveira nasceu e estudou até o Ensino Médio. Ele diz que a escolha não é coincidência: “vamos continuar nossa expansão pelos locais onde há maior demanda de pré-cadastros no nosso site”, explica. 

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O desenvolvimento da empresa fez Oliveira largar a faculdade de Engenharia Elétrica na USP São Carlos. “Achamos que se criássemos uma empresa e tocássemos a faculdade junto, íamos fazer mal as duas coisas. Preferimos aproveitar a oportunidade do que ficar chorando no futuro de não ter apostado”, brinca o executivo. A aura jovem faz parte do estilo da empresa. “A gente brinca que Fluke é uma operadora de estimação com nome de cachorro.” 

Inicialmente, por conta da proximidade com universidades como a USP São Carlos e a Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), o foco da empresa era atender o público universitário, com foco em comunidade. Com a pandemia – e muitos estudantes voltando para suas cidades –, a empresa mudou o foco para jovens de 18 a 30 anos, entusiastas de tecnologia, antenados. “Ainda não oferecemos economia de escala, mas sentimos que são usuários com menos resistência a testar um serviço digital”, diz Oliveira. 

Comprovar que modelo digital funciona é desafio

Além de convencer o público, a Fluke também precisa convencer o mercado de que o modelo de operadora digital pode dar certo no Brasil. Conhecido pela sigla MVNOs, as operadoras digitais utilizam infraestrutura de uma empresa tradicional – no caso, a Vivo – e cuidam apenas do atendimento ao cliente na ponta. 

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Em países como a Inglaterra, o modelo é popular, mas atende principalmente a nichos específicos. Aqui no Brasil, o serviço é oferecido por algumas empresas e até pelos Correios, mas nenhuma deslanchou a ponto de chamar atenção. Para Oliveira, o que faltou foi o foco no usuário. “As MVNOs no Brasil não conseguiram ser empresas tecnológicas, atendendo à demanda dos clientes”, diz. 

Questionado sobre o fato do modelo de negócios da Fluke poder ser copiado por grandes operadoras, deixando a empresa “obsoleta”, Oliveira vê a questão com clareza. “Nosso sistema não tem tantas burocracias e consegue ser mais enxuto”, diz. “Além disso, as operadoras podem até criar novas ofertas, mas antes de fazer isso, elas vão ter que explicar porque o que elas fizeram por duas décadas não fazia sentido. Vai dar um nó.” 

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