A culpa

"Tudo que sei com mais segurança sobre moralidade e obrigações, devo ao futebol", escreveu o goleiro e escritor Albert Camus, autor de O Estrangeiro e A Peste. Bem, Camus estava falando de si mesmo, porque certamente sabia que isso não se aplica a muitos jogadores e boleiros. Eles podem até aprender a guardar posição e tocar a bola para o companheiro mais bem colocado, mas é difícil ver aqueles que vão além disso. Quanto aos torcedores, boa parte não fica atrás, já que tantos não se incomodam de ganhar com malandragem. (Na Copa de 62, por exemplo, Nílton Santos deu passo para fora da área para que não assinalassem pênalti; e Garrincha, expulso na semifinal, foi liberado para jogar a final.) As últimas rodadas têm sido pródigas em novos exemplos.

DANIEL PIZA, daniel.piza@grupoestado.com.br, O Estadao de S.Paulo

02 Dezembro 2009 | 00h00

É curiosa a ansiedade que existe no mundo do futebol em logo apontar culpados, de preferência únicos, para expiar a frustração coletiva. Mais até do que nas vitórias, nas derrotas o futebol vira rapidinho um esporte individual... Todo debate, portanto, termina contaminado por esse passionalismo: a emotividade do torcedor segue com ele por muitos dias depois do apito final - e tome mesa redonda ao longo da semana para distribuir dedos em riste. Sei que há pessoas que acham que atitudes como as de Belluzzo seriam mais "humanas", mas eu prefiro o humanismo de Camus, que sempre deu grande peso à responsabilidade pública. Amar o futebol não nos exime de obrigações, e uma dessas obrigações é assumir os erros.

O São Paulo, por exemplo, deve ter jogado fora o tetracampeonato no jogo contra o Goiás. Muitos chamaram o time de Jason (do Sexta-Feira 13, aquele que sempre volta para assombrar) e, depois de sequência positiva com Ricardo Gomes, decretaram o trunfo e demonizaram Muricy. Agora que o clube vacilou, o discurso mudou - e já tem muita gente querendo reformulação total. Ninguém pensa que ganhar três Brasileiros seguidos e ainda ficar entre os quatro primeiros mostra que há méritos também. O maior erro de Muricy foi justamente não manter a base, pondo Hernanes e Jorge Wagner tempo demais no banco. Cabe ao clube, por sua vez, ver onde errou neste ano, ao permitir divisão interna no elenco. Fingir que não errou - e ainda tirar mérito do Flamengo - não ajuda nada.

O mesmo vale para o Palmeiras. Muricy tem sua parcela de culpa, especialmente por exagerar nos volantes e chuveirinhos, como se tivesse tentado transplantar um estilo de jogo do Morumbi para o Palestra. A diretoria tem outra parcela de culpa, não só pelo descontrole de Belluzzo, mas também por achar que com Obina e Vagner Love tinha resolvido os problemas. A volta de Cleiton Xavier, domingo, mostrou como um bom armador sempre faz falta. E os jogadores também têm bastante culpa, inclusive Diego Souza, que fez o mais belo gol do campeonato - como já escrevi, num lance de fina biomecânica que só os chatos não entendem como intencional. Diego Souza, que poderia ter sido o craque do campeonato, sumiu em jogos decisivos contra times fracos.

Mais vergonhoso foi o gesto de jogadores como Felipe, do Corinthians, e Souza, do Grêmio. Felipe se absteve de tentar defender uma cobrança de um pênalti que de fato existiu, e que mesmo se não tivesse existido ele teria de tentar defender. O juiz errou muito, mas o goleiro não pode ser antiprofissional. E Souza poderia até dizer que não se pode esperar que o Grêmio, que vai mal fora de casa e já não tem pretensão na tabela, atue contra o Flamengo como se fosse uma final, mas não pode sugerir que se deve entregar o jogo - assim como o São Paulo não pode atribuir ao entreguismo alheio os próprios erros, de muito maior peso. Sei que botar a culpa nos outros é sempre muito mais fácil, ou "humano". Adultos, porém, evitam isso.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.