A Olimpíada e o sexo

Desta vez, o tema não foi varrido para debaixo do tapete ou confinado em armários

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

21 Agosto 2016 | 03h00

A Olimpíada do Rio, que acaba hoje, alcança mais um recorde: nunca se falou tanto da sexualidade dos atletas. Nada a ver com o estereótipo de que esse é o país tropical e o sexo está por toda parte, mas, sim, com um amadurecimento e uma maior naturalização para falar sobre o tema. Desta vez, sexo não foi varrido para debaixo do tapete nem ficou confinado em incontáveis armários.

Logo de cara, foi anunciado que a distribuição de preservativos na Vila Olímpica alcançaria o maior número já visto em Jogos anteriores, quase 450 mil unidades (masculinas e femininas), o triplo do oferecido em Londres-2012. Bom sinal: reconhecer que os atletas são gente como a gente e o “clima” pode esquentar antes e depois das provas! É muita gente jovem, saudável, sozinha, solteira, em um ambiente de competição, mas também de confraternização. Tanto a tensão antes das provas como o alívio depois das disputas podem ser combustíveis potentes.

Por que não estar atento às possibilidades, já que elas acontecem com qualquer um em viagens de turismo, esporte, lazer ou trabalho, aqui ou em qualquer parte do mundo? Xeque-mate na hipocrisia de que sexo não rola nessas ocasiões. Rola, sim, e, se acontecer, bem melhor que seja com proteção. Evita-se assim a transmissão do HIV, de DSTs e até do zika. Na Olimpíada em que os aplicativos de encontro estão mais na moda do que nunca (havia vários perfis de atletas nos mais populares) é bom que o cuidado com o sexo eventual seja levado em consideração.

Houve muitas confusões e até cortes nas delegações por causa de atletas que saíram da Vila Olímpica e foram para festas, beberam um pouco mais e se “perderam” ou se “encontraram” no caminho de volta. Teve briga, mentira, mal-entendido, mas pode apostar que também rolaram prazer e amor.

Por falar em amor, Rio-2016 foi considerada a Olimpíada da diversidade. Inúmeros atletas e casais gays (43 que se assumem como LGBT, o maior número da história) não tiveram o menor problema em falar sobre sua orientação sexual. Ponto para eles, porque ao mostrar que a sexualidade não precisa ser um segredo, algo a ser escondido, tornam a vida de inúmeros futuros atletas (e não só atletas) muito mais fácil. Já parou para pensar, ao longo da existência dos Jogos, no número de pessoas que tiveram resultados piores ou deixaram de ganhar “medalhas”, no esporte ou na vida, porque a vergonha, o medo, e a autoestima eram os piores adversários? Se a Olimpíada tem o grande mérito de mostrar ao mundo não apenas recordes e medalhistas, mas também incentivar as pessoas a enxergar no esporte um caminho, uma possibilidade, esses atletas que trabalham sua visibilidade mostram que orientação sexual não pode mais ser um obstáculo, um limitador na vida das pessoas. É um golpe perfeito contra o preconceito.

A cerimônia de abertura já dava o tom dessa diversidade, ao convidar diversas transexuais, incluindo a modelo Lea T, que abriu caminho para os atletas brasileiros, para participar da celebração. O recado é particularmente importante em um país como o nosso, em que os índices de homofobia e violência contra homossexuais e transexuais ainda registra tristes e lamentáveis recordes e onde políticos conservadores impedem ou dificultam que as questões de gênero sejam tratadas de forma justa em nossas escolas.

Sexo e esporte: pode? Uma das questões que se discute com frequência é se o sexo pode prejudicar o desempenho dos atletas durante as fases de preparação e disputa de provas. A maior parte dos trabalhos científicos aponta para ausência de impacto negativo, ou seja, fazer sexo durante os Jogos não prejudicaria o resultado dos atletas.

Mas é claro que algumas condições precisam ser observadas. Imagine uma festa que avança até altas horas, regada a álcool, para um atleta que disputa uma prova logo no início da manhã seguinte. O problema, nesse caso, não é o sexo, mas a privação de sono e os efeitos da bebida no organismo. Mas será que um atleta que se prepara arduamente ao longo de anos para disputar uma Olimpíada se arriscaria dessa forma? Pouco provável!

Outra situação pouco plausível é o atleta fazer sexo momentos antes da sua prova. Mas será que com a preparação, a chegada antecipada e o aquecimento, entre outras tantas etapas, essa situação seria viável no Rio? Difícil imaginar.

Agora um encontro amoroso, na Vila Olímpica, à noite, na véspera da prova, teria algum problema? Provavelmente não! A quantidade de energia gasta e o desgaste físico durante o sexo habitual são muito pequenos, não mais do que subir um lance de escadas. Há até quem defenda que a sensação de bem-estar e a liberação de hormônios sexuais poderiam até ajudar no desempenho. O que importa é a concentração no momento da prova. O resto é o resto. Que venha Tóquio-2020!

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