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Acidente, 14 anos atrás, ainda deixa marcas

Moradores contam como era São Sebastião das Águas Claras antes de rompimento de barragem

Leonardo Augusto, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

20 Novembro 2015 | 22h00

“Pai, o mundo tá acabando!” “Não, filho. É a barragem que estourou.” O diálogo tem mais de 14 anos, mas é bem vivo na família do comerciante João Gabriel Rodrigues, de 74 anos, dos quais 60 como morador de São Sebastião das Águas Claras, distrito de Nova Lima, a 20 km de Belo Horizonte. Em 22 de junho de 2001, uma barragem de rejeitos de minério de ferro da empresa Rio Verde ruiu. A lama desceu por uma encosta matando cinco empregados da companhia. Uma área de 80 hectares de Mata Atlântica foi devastada. O Ribeirão Taquaras, que corta a região, também conhecida como Macacos, se transformou em um curso de barro espesso.

Duas semanas depois do estouro da barragem da Samarco em Bento Rodrigues, Mariana, os relatos de moradores de São Sebastião das Águas Claras sobre o que aconteceu, como era a região e como é hoje são prova que, mesmo com possíveis investimentos, a recuperação ambiental é lenta e muita coisa pode não voltar ao normal.

Ao contrário do que aconteceu em Mariana, a lama em São Sebastião das Águas Claras não encontrou um vilarejo pela frente. Do alto de um morro é possível ver até hoje um descampado na encosta, que parece uma língua cor de caramelo, destoando da mata logo abaixo que, pelo verde exuberante, dá a impressão de que está tudo de volta ao normal. A prova do contrário corre no meio dessa mata, o Ribeirão Taquaras.

Ele passa perto do bar que João Gabriel mantém com a família na região há 28 anos. “Você acha que era assim? Isso aí é um filete de água. Antes, era quase um rio, tinha bagre e lambari. Hoje, não há mais peixe nele”, afirma o comerciante.

A região é muito frequentada por motoqueiros e ciclistas de trilhas. O empresário Carlos Eduardo Faria, de 50 anos, há 20 anda de bicicleta em São Sebastião. Relata que hoje, diferentemente de 15 anos atrás, o terreno da região é mole. “É fácil perceber isso. É entrar e atolar”, afirma.

O secretário de Meio Ambiente de Nova Lima, Roberto Messias, diz que a Rio Verde, empresa que hoje pertence à Vale, cumpriu as determinações pós-tragédia de recuperar a estrada que liga a BR-040 a São Sebastião das Águas Claras, que à época ficou sem condições de tráfego, e que construiu outra barragem dentro dos padrões. Afirmou ainda que, ao menos visualmente, a flora vai se recuperando. “Não dá para dizer que está completamente recuperado. O que sabemos é que a vegetação vem aumentando e pequenos mamíferos estão voltando”, afirma Messias. Quanto ao Ribeirão Taquaras, o secretário diz que houve necessidade de desassoreamento do curso d’água em alguns pontos.

O acompanhamento das ações de recuperação é da Secretaria de Estado de Meio Ambiente. Segundo a pasta, depois do acidente foi determinado que a empresa rebaixasse a superfície interna da barragem, como medida temporária, até a implementação de projeto de estabilização, além de medidas para recuperação do Taquaras. Ainda conforme a secretaria, foi feito reflorestamento das áreas afetadas com espécies nativas.

Punições. João Gabriel afirma que recebeu R$ 12 mil da empresa. O bar da família ficou 15 dias parado. Já a família de Wellington Augusto Santos, de 42 anos, que hoje trabalha como vigia de motos na região, não recebeu nada. “Tínhamos um bar. Com a tragédia, ficamos muito tempo parados e, depois, não conseguimos retomar a atividade. Não estávamos com a documentação do terreno em dia e, por isso, não fomos indenizados.”

Os responsáveis pelo projeto da barragem foram condenados a oito anos e oito meses de prisão, em regime fechado, e obrigados a pagar multa de R$ 7 mil. A decisão, em primeira instância, foi por crimes contra flora e fauna terrestre e aquática e contra unidade de preservação. A empresa foi obrigada a prestar serviços à comunidade e pagar multa no mesmo valor da aplicada aos engenheiros. A reportagem não conseguiu contato com a Rio Verde. A Vale afirma que, apesar de ter comprado a empresa, todas os desdobramentos da tragédia em São Sebastião das Águas Claras ficaram sob a responsabilidade da administração anterior.

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