'Bergoglio tem ambição por poder', diz sociólogo

Para especialista argentino, o papa Francisco foi eleito por sua habilidade política e para tentar barrar a expansão da esquerda na América Latina

Entrevista com

ADRIANA CARRANCA, ENVIADA ESPECIAL/ BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2013 | 02h04

Na manhã de sexta-feira, o centro de Buenos Aires amanheceu com muros cobertos por cartazes apócrifos que traziam a imagem de Jorge Mario Bergoglio no momento de sua primeira aparição como papa, e a frase "Francisco I, argentino e peronista". Embora a autoria seja desconhecida e tenham emergido mais evidências da relação de Bergoglio com a ditadura argentina do que com a segunda fase do peronismo que a sucedeu, há um fato irrefutável no cartaz: ao contrário de outros países latino-americanos, na Argentina, Estado e Igreja jamais se dissociaram, revela o sociólogo portenho Fortunato Malliacci, professor de sociedade e religião da Universidade de Buenos Aires e principal estudioso da Igreja Católica argentina.

Para ele, o ex-chefe da Igreja Católica na Argentina flertou tanto com o peronismo como com a ditadura e as intenções que levaram à sua escolha devem-se menos à ideia de renovação e mais à sua "habilidade política" e à tentativa da Igreja de barrar a expansão da esquerda. "Roma está convicta de que a esquerda na América Latina foi longe demais e é responsável pela decadência da Igreja." Aqui, trechos da entrevista:

Por que Roma escolheu o argentino Jorge Bergoglio como papa, na sua opinião?

A crise que está vivendo a Igreja Católica é muito importante. A renúncia do papa mostrou que o tipo de catolicismo romano, integralista, politizado, está em fase terminal. Porém, uma renovação profunda seria difícil de ser feita por alguém de fora, pois precisaria de aliados. Acho que neste momento, a mudança não é o foco. Todos no conclave foram escolhidos por Ratzinger. Há uma hegemonia total na maneira conservadora e ultraconservadora de entender a presença da Igreja Católica no mundo. Bergoglio é um conservador como eram os candidatos do Brasil, México, França e Itália. Mas é um argentino-italiano, fala muito bem o idioma de Roma, conhece a América Latina e a cúria muito bem. Principalmente, é um político muito hábil. Sabe bem como manipular, seduzir, falar e não falar. Tem essa qualidade reconhecida pelos pares. E grande ambição por autoridade.

A irmã de Bergoglio, Maria Elena, afirmou a jornalistas que ele não queria ser papa...

E eu não queria ser sociólogo, nem você, jornalista (risos). O que conhecemos de Bergoglio é que essa é a sua maneira de agir para obter reconhecimento. Entra dizendo que não quer nada, mas quer tudo, tudo, tudo!

Por que Roma considera importante que o novo papa conheça a América Latina?

Roma considera que os evangélicos chegaram ao topo por culpa da Teologia da Libertação. Ratzinger tem convicção de que a América Latina se tornou por demasiado de esquerda e por isso a Igreja perdeu autoridade, perdeu de certa maneira a forma de entender o catolicismo, e isso resultou na perda do apreço pela Igreja Católica na América Latina. O exemplo dado é sempre do Brasil, mas é uma realidade também na Argentina, Uruguai e Chile.

Segundo pesquisa, 76% dos argentinos foram batizados católicos, mas só 6% são praticantes, menos que os ateus (11,3%). Como o sr. avalia este quadro?

É um problema de toda a América Latina, um processo de desinstitucionalização, talvez fruto de anos de ditaduras militares que foram muito católicas. Na Argentina, há uma forte presença da Igreja no Estado - nunca se desassociaram realmente -, partidos políticos, grupos econômicos e meios de comunicação. É uma Igreja que se articulou muito com os grupos de poder. O catolicismo argentino está fortemente presente nos símbolos onde se reconhecem as instituições: Forças Armadas, polícia, sindicatos, empresários.

A cidade amanheceu com cartazes do papa e a frase: 'Francisco I, argentino e peronista'. O que está por trás disso?

Bergoglio se diz peronista, Quando jovem, ingressou no Guarda de Ferro (grupo juvenil do Comando Nacional Peronista). Associou-se tanto a grupos violentos do peronismo quanto a grupos radicais da ditadura. Mas seu desentendimento com os peronistas começou ainda com o Néstor Kirchner.

O sr. acredita na atuação de Bergoglio na ditadura argentina?

Ele tinha uma posição já alta e sua postura era conservadora. Outros jesuítas o criticavam, principalmente os que viviam nas favelas. E estes foram detidos e torturados, e denunciaram Bergoglio por trair a ordem jesuíta. Hoje, ele se coloca como o sacerdote do povo, mas não defendeu esses sacerdotes, não era um defensor dos pobres, então. É difícil afirmar se ajudou a ditadura, mas sua maneira de entender o que ocorria na sociedade era muito similar à dos militares.

O que acha de suas primeiras ações como papa?

Roma não está acostumada a alguém que recusa os luxos episcopais. É um gesto importante. Mas temos de avaliar se esses gestos representam realmente mudanças na Igreja. Ele fazia o mesmo aqui, mas não se reconhece qualquer renovação teológica ou pastoral na Argentina.

Que impacto terá a nomeação de um papa argentino?

Na Argentina, a ligação entre o Estado e Igreja é forte. A maioria - políticos, empresários - está sempre buscando o bispo amigo para lhe ajudar, imagine agora se não vão querer chamar o papa de amigo? (risos) Não temos partidos católicos eclesiais, mas a grande maioria se reconhece católica. Será um papa que falará sobre a América Latina, mas é difícil dizer o que mudará. Pode ser que num primeiro momento o catolicismo se fortaleça, entre os populares.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.