China deve valorizar yuan e EUA devem poupar

O papel da China no debate que envolve a política internacional está aumentando paralelamente à expansão da sua economia.

Dominique Strauss-Kahn, O Estadao de S.Paulo

23 de novembro de 2009 | 00h00

Na qualidade de um dos principais membros do G-20, a China contribui para elaborar as prioridades da política global em vista do futuro e buscar soluções para os problemas globais.

Quais são os principais desafios para o mundo que está saindo da crise global? E o que a China pode fazer? Ao que tudo indica, a economia global finalmente virou a página. A recuperação é desigual e ainda não é autossustentada, mas muitas economias emergentes - principalmente na Ásia - começam uma forte retomada. Na realidade, projetamos na China um crescimento de 8,5%, para 2009, e de 9% para 2010.

Embora a perspectiva global tenha felizmente melhorado, ainda nos deparamos com consideráveis desafios de cunho político. O maior risco é a retirada prematura do estímulo político. Embora seja prudente planejar para as chamadas "estratégias de saída", as autoridades deveriam manter as medidas de apoio até que a recuperação se firmasse, e principalmente até que existissem condições para o declínio do desemprego.

Na China, o compromisso do governo de manter o estímulo fiscal até 2010 será importante para dar respaldo ao crescimento. Entretanto, como o governo também reconhece, chegou o momento de começar a reduzir o aumento extremamente rápido dos empréstimos, o que produz riscos de superinvestimento, de capacidade excedente e finalmente, de empréstimos podres.

Com a recuperação, um dos principais desafios da política de médio prazo para a economia global é como chegar a uma distribuição mais estável da demanda em todas as economias. Este é o desafio do que chamamos de reequilíbrio econômico global.

No período anterior à crise, os desequilíbrios globais ampliaram-se consideravelmente. Como suscitavam o temor de um possível ajuste desordenado, constituíam uma fonte de preocupação para os estrategistas. E embora tais desequilíbrios tenham se reduzido durante a crise, continuam enormes e poderão crescer novamente à medida que a economia global for se normalizando.

O que poderão fazer as economias que se encontram no cerne destes desequilíbrios - China e Estados Unidos? Nas economias que registram déficit significativos em conta corrente, a poupança nacional teria de aumentar. Em muitas delas, incluindo os EUA, a consolidação fiscal deverá ser prioritária. E nas que experimentaram quedas dos preços dos ativos, será essencial reparar o setor fiscal para que a recuperação seja duradoura.

Por outro lado, nas economias que registraram amplos superávits em conta corrente, a demanda interna precisará se fortalecer. Nas economias da área do euro e no Japão, a concorrência nos mercados de produtos e de trabalho deveria aumentar. Nos países asiáticos emergentes, reequilíbrio significa aumento da demanda interna - investimentos em muitos países, e na China, uma ênfase no consumo privado.

A liderança da China já articulou uma clara visão de como aumentar este consumo. Os gastos dos consumidores crescem mais rapidamente do que a economia como um todo. Além disso, como observou recentemente o presidente Hu Jintao, nos próximos anos, a China deverá adotar outras medidas com o objetivo de elevar os gastos das famílias, e reduzir a dependência das exportações .

Muitas coisas já foram feitas. Por exemplo, a ousada iniciativa cuja finalidade é oferecer assistência médica à maioria do povo chinês. A reforma do sistema das aposentadorias rurais também está avançando, mas é possível fazer ainda mais para garantir uma mudança estrutural duradoura tendo em vista o consumo, expandindo o alcance das políticas sociais, avançando na reforma do setor financeiro, e empreendendo reformas no campo da governança corporativa.

Uma moeda mais forte faz parte do pacote das reformas necessárias. A valorização do yuan e de outras moedas asiáticas ajudará a aumentar o poder aquisitivo das famílias, a elevar a renda dos trabalhadores e a proporcionar os incentivos adequados para a reorientação dos investimentos.

No fim, o aumento da demanda interna da China, e o aumento da poupança nos EUA, contribuirão para reequilibrar a demanda mundial e garantir uma economia global mais saudável para todos nós.

Dominique Strauss-Kahan é diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI)

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