Chuva, melancolia e música

Em livro lançado na Inglaterra, o fotógrafo britânico Kevin Cummins celebra Manchester e retrata o lado pop da cidade

Eva Joory, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estadao de S.Paulo

03 Dezembro 2009 | 00h00

Com uma explosiva cena musical, Manchester sempre disputou, lado a lado com Londres, o título de cidade mais efervescente do Reino Unido. Mas enquanto Londres vivia da fama do Swinging London, Manchester era melancólica. Coube ao fotógrafo britânico Kevin Cummins desfazer essa impressão. Ele acaba de lançar Manchester, Looking For The Light, Through The Pouring Rain (Manchester, olhando para a luz através da chuva torrencial, Faber and Faber, 400 págs.). O livro celebra a energia e desvenda a história da cidade dando-lhe o seu devido crédito: o de meca do pop.

De cidade triste, Sadcheter, ao templo da rave music e das drogas, Madchester, (os nomes são trocadilhos com as palavras tristeza e loucura), Manchester, no Reino Unido, movimenta a cena rock inglesa há muitos anos. Conhecida como o coração da Inglaterra, pelos seus atributos de cidade industrial, Manchester revelou bandas importantes como Joy Division e New Order, Happy Mondays, Stones Roses, Smiths e Oasis. Foi também o berço do movimento punk, com o histórico show dos Sex Pistols, em junho de 1976.

Mas a cidade ficou famosa mesmo no fim dos anos 80 por abrigar um dos mais importantes clubes do planeta, o Haçienda. Seus proprietários eram ninguém menos do que os integrantes do New Order e o dono da cultuada gravadora Factory Records, Tony Wilson.

Manchester... retrata uma cidade pulsante e com muitas histórias para contar. O livro traz mais de 30 anos de registros de Cummins, textos e entrevistas de gente de peso como os jornalistas Paul Morley e Stuart Maconie, seus colaboradores.

Cummins, de 56 anos, faz parte até hoje do quadro de profissionais do semanário New Musical Express, ou NME, criado nos anos 50. Seu livro reúne algumas imagens até hoje memoráveis e frases de escritores famosos sobre ela, como Mark Twain e Anthony Burgess. Tony Wilson, amigo de Cummins, deveria escrever o posfácio. Mas o empresário ficou doente e só conseguiu enviar um bilhete para Cummins, publicado no final do livro: "Kevin querido. Desculpe não ter te mandado o texto. Tive de voltar ao hospital. Mas está tudo na minha cabeça. Escreverei assim que sair daqui." O texto nunca chegou: Wilson morreu três dias depois.

Cummins fez sua primeira foto em 1973, aos 19 anos. O show era de David Bowie. "Foi apenas o registro de um fã", escreve no livro. Mas ele não parou mais. A seguir, a entrevista.

Qual a importância da cena musical de Manchester?

Manchester é a cidade mais dominante musicalmente na Inglaterra. Talvez por isso seus habitantes sejam sempre um pouco arrogantes, acreditando também que sua cidade é melhor do que qualquer outra.

Como o sr. explica uma cena musical tão pulsante, tantas bandas, tantos estilos?

Manchester tinha um projeto social de casas, em Hulme, (distrito de Manchester) que faliu. Quando as famílias foram removidas, o lugar começou a ser habitado por estudantes, e, ao mesmo tempo, foi invadido pelos squatters (os que não pagam pela moradia, invadindo casas abandonadas para morar). Foi uma oportunidade de viver de forma barata ou até mesmo de graça, o que trouxe uma onda de criatividade para a cidade.

A cidade foi considerada durante anos um lugar triste, chuvoso, com pouca atividade. O sr. acha que o movimento rave e o Haçienda mudaram a cara de Manchester?

Isso pode ser uma percepção da cidade pelos londrinos ou por gente de fora. Manchester sempre teve uma cena musical próspera, muitos clubes. Em Recife também chove, não? Quando o Haçienda foi inaugurado em maio de 1982, o clube imediatamente se transformou no destino dos jovens. Mais estudantes vinham para cá querendo viver na cidade mais vibrante da Europa do que em qualquer outro lugar do mundo.

Seu livro é uma bela homenagem à cidade. O que o levou à essa ideia?

Achei que era a hora certa. Queria vê-lo publicado antes que meus leitores ficassem velhos demais para apreciá-lo.

De onde vem a sua paixão pela fotografia? Porque fazer dela uma profissão? O sr. tinha algumas influências? Pennie Smith, que durante anos fotografou o The Clash, é uma delas?

Meus avós eram fotógrafos amadores, que revelavam suas próprias fotos. Tínhamos um laboratório em casa. Comecei a fotografar aos cinco anos. Minhas influências até hoje são Bill Brandt e Diane Arbus. Não tenho tanto interesse em fotografia ligada à música, mas em retratos. Um bom retrato tem que dizer algo sobre o fotografado, mais do que sobre o fotógrafo. Alguns fotógrafos têm um estilo único, o que transforma a fotografia em uma técnica ao invés de uma relação simbiótica. Sim, Pennie Smith foi a única que entendeu que uma aproximação documental funciona melhor.

Porque fotografia e música formam uma parceria tão especial?

O ego tem um papel fundamental nisso. Você fotografa pessoas preocupadas com a aparência. Ninguém forma uma banda se não está desesperado por atenção.

Qual é a parte difícil desse trabalho?

Tentar não se sobrepor às bandas. Você deve se lembrar que você foi convidado a entrar no mundo dessa pessoa somente por um tempo curto e deve agir de acordo com isso. Não se envolva com as políticas das bandas, não fique do lado de ninguém. Seja neutro.

Quais as qualidades necessárias para fotografar bandas, ao vivo ou para os seus discos?

Sãs mesmas para qualquer bom fotógrafo. Um bom olho para a composição e um perfeito entendimento do assunto.

Muita coisa mudou hoje em dia quando se fotografa um show. O sr. concorda?

Sim. Hoje todo mundo leva para os shows um aparelho qualquer que tire fotos. Os profissionais são tratados com desprezo pelos promotores. Nos dão minutos e algumas vezes, segundos. Eu me recuso a fotografar se me impõem restrições. É um contrassenso: o público fotografa à vontade e os profissionais têm limites.

Qual a sua banda favorita?

Elas mudam sempre. No momento, New Order, de novo. Eu sempre gostei deles. Os primeiros álbuns evocam a sonoridade do Joy Division, Já Technique (de 1989) é a tradução perfeita do Summer of Love. Agora que falamos neles, vou ter que ouvir Technique neste dia escuro, sombrio e chuvoso em Londres. Ele captura o espírito da época brilhantemente.

Qual a diferença das bandas de Manchester e das outras?

Morrissey disse uma vez que "as bandas de Manchester são mais inteligente que as de outras cidades". Mas ele diria isso não?

Sua foto mais memorável?

A de David Bowie, que abre o livro. Foi essa foto que me fez pensar que poderia fotografar músicos para viver. A outra é a foto de Joy Division na ponte de Hulme, na neve. Fui enviado pelo NME para fotografar bandas em ascensão em Manchester. Joy Division era uma delas. Levei-os para Hulme no meio da tarde. Eu tinha poucos rolos de filmes e a luz estava ruim. Achei que essa sessão iria ser a última da minha carreira. Quis fotografá-los no meio da ponte, de longe, a banda olhando para a cidade e com Ian olhando para a câmera. Não era um retrato formal, mas uma foto de Manchester com uma banda. Fiz só três fotos. No final, fotografei Ian mais de perto com seu sobretudo. De alguma maneira, soube que eu teria pelo menos uma bela foto. E foi o que aconteceu. Nesse dia de janeiro de 1979, muita coisa mudou. E essas paisagens sombrias se tornaram, desde então, as imagens que definiram a banda.

Fale um pouco das lembranças do NME.

Trabalhar para o NME era tudo o que eu queria fazer quando estava estudando. O jornal está bem mudado hoje em dia, mas, quando eu comecei em 1977, o NME era a publicação sobre música mais importante do mundo. Os jornalistas podiam escrever sobre o que quisessem. Não havia política editorial e se você gostasse de uma banda marginal e conseguisse convencer o editor de que valia a pena dar duas páginas ao assunto, era o que acontecia. Trabalhei 20 anos como freelance no NME e tenho alguns momentos inesquecíveis.

Um deles foi indo para o Rio com os Happy Mondays por uma semana. Me lembro de ter ficado em pé no palco do Maracanã enquanto chovia fortemente durante o show, pensando que iríamos ser todos eletrocutados. Passar momentos com pessoas interessantes e criativas é bem divertido. Acredito que sou privilegiado. Mas veja, não é apenas sexo, drogas e rock"n"roll. Muitas noites sem dormir, revelando e imprimindo, significa que eu perdi os dois primeiros itens. Mas fiquei com a música.

Frases

"Naqueles dias (pré-2.ª Guerra), visitar Londres, para um mancunian (alguém nascido em Manchester) era um exercício de condescendência. Londres estava sempre um dia atrás de Manchester, nas artes, na astúcia comercial, na filosofia econômica.... Manchester era generosa, Londres não."

ANTHONY BURGESS

"Gostaria de viver em Manchester. A transição entre Manchester e a morte não seria notada."

MARK TWAIN

"Manchester... o ventre e as entranhas de uma nação."

GEORGE ORWELL

no livro Caminho para Wigan Pie

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