Cota nas federais divide estudantes beneficiados

Mas quem já entrou admite que antes nem sonhava em cursar universidade

Carlos Lordelo e Davi Lira, do Estadão.edu, Ocimara Balmant e Paulo Saldaña, de O Estado de S. Paulo,

12 de agosto de 2012 | 03h07

A estudante Luana Miranda, de 19 anos, fez todo o ensino médio no período noturno porque a escola estadual onde estudava, em Itapevi, na Grande São Paulo, simplesmente não oferecia o ciclo pela manhã. Segundo ela, o horário era péssimo e o ensino que recebia, precário.

Negra, filha de profissionais autônomos que não cursaram o ensino superior, Luana se prepara para o vestibular no Cursinho da Poli. Apesar de ser beneficiada pela lei, ela é contra as cotas raciais. "Os negros ainda sofre preconceito, a elite brasileira é branca. Mas isso não justifica as cotas. Não é a cor de pele que diz as dificuldades pelas quais você passou", diz ela. Mas Luana não descarta usar o benefício em uma federal para entrar em Letras ou Artes Cênicas. "Não acho um absurdo, é uma conquista."

A colega Inaiá Regina Batista, de 17 anos, também sofreu com a precariedade do ensino médio noturno, em Osasco, e apoia a lei. "Em 2011, prestei vários vestibulares, para ver como era, e vi que não tinha aprendido nada. Não dava para competir com alunos de escolas boas", diz ela, que é negra, vestibulanda de Direito, agora também no cursinho.

Há dois anos, Marcelo Vinicius Domingos, de 20 anos, sofria da mesma falta de expectativa. Estudante de escola pública durante a vida toda, ele só considerou a possibilidade de concorrer a uma vaga em universidade pública quando a prefeitura inaugurou um cursinho gratuito. Com o curso, passou em Engermagem na USP. "Se eu tivesse tido uma formação adequada, passaria direto. Ainda assim, acho que cotas é como tentar tapar um buraco mais profundo."

Para Danielle Ferreira, diretora de Combate ao Racismo do Diretório Central de Estudantes da Universidade Federal da Bahia (UFBA), a cota é um instrumento de reparação que permite o acesso à universidade de segmentos da sociedade até então alijados desse processo.

"A ideia de que a qualidade do ensino nas federais vai diminuir após a adoção das cotas é preconceituosa, para não dizer racista", afirma a estudante, que foi aprovada em Fonoaudiologia graças à reserva de vagas para negros oriundos de escola pública, existente na UFBA desde 2004.

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