Cracolândia, reduto do PCC

Situação continua a se deteriorar, sem que as autoridades tomem qualquer medida significativa

O Estado de S.Paulo

14 Maio 2017 | 03h00

A situação na Cracolândia continua a se deteriorar, sem que as autoridades municipais e estaduais – que dividem as responsabilidades pelo problema – tomem qualquer medida significativa para enfrentá-lo. Limitam-se a insistir no que vem sendo feito ou a fazer promessas que nada mudam no essencial e que todos sabem de antemão que não levarão a nada. Os choques entre dependentes de drogas, guardas civis municipais e policiais militares registrados na quarta-feira passada são a repetição de conflitos – iniciados pelos primeiros – que se vêm tornando corriqueiros e aumentam o medo e a insegurança no centro da capital.

Dessa vez tudo começou quando dois pedestres que tiveram seus celulares roubados perseguiram o bandido e se viram no meio do fluxo – como é chamada a concentração dos dependentes – e foram socorridos por agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM). A detenção do autor do roubo, que ao que tudo indica era um dependente, levou os outros a reagirem para protegê-lo, atacando os guardas. O reforço enviado pela GCM foi atacado pelos dependentes com paus e pedras.

Quando ficou evidente que a GCM perdera o controle da situação, policiais da Força Tática da PM intervieram. Para impedir seu avanço, os dependentes armaram barricadas e atearam fogo em pneus, colchões e pedaços de madeira, o que obrigou os PMs a empregar balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo. O conflito se espalhou e houve depredação, saques de lojas e até o sequestro de um ônibus.

Tanto o estopim dos choques – a proteção a um assaltante – como os outros elementos que compõem as cenas de violência a que o centro da cidade assistiu demonstram que o que se passa já ali vai muito além de uma aglomeração de dependentes de drogas que devem ser assistidos para se afastarem do vício. É isso e muito mais.

De acordo com investigações feitas pela Polícia Civil, a Cracolândia tornou-se um reduto do Primeiro Comando da Capital (PCC), que ali controla o tráfico de drogas. Estima-se que sejam vendidos ali 19 quilos de crack por dia, que rendem R$ 8 milhões por mês aos traficantes. Na Alameda Dino Bueno existem 34 pontos de venda. O PCC cobra por cada ponto entre R$ 70 mil e R$ 80 mil. Só os ingênuos poderiam acreditar que o PCC perderia a oportunidade e as condições favoráveis que a Cracolândia – com um policiamento notoriamente falho, para dizer o mínimo – lhe oferecia de se instalar no centro da maior cidade do País.

Esse conflito foi apenas mais um de uma lista que só tem feito crescer nos últimos meses. Em 17 de janeiro passado, um desentendimento entre dependentes levou a uma série de choques entre eles e a PM, que acabaram com um saldo de 10 presos e várias lojas saqueadas. Uma cena que se repetiu pouco mais de um mês depois, em 23 de fevereiro passado, desta vez também com barricadas e sacos de lixo em chamas e oito feridos. Também nesse caso, a origem do conflito foi a prisão de um suspeito, o que demonstra que os dependentes, manipulados pelos traficantes, e ambos sentindo-se confiantes pela fraqueza do poder público na região, querem transformá-la num “território livre”, onde a polícia só faz figuração.

Salta aos olhos que essa é uma situação altamente perigosa, e inaceitável. Com a agravante de que já começou a se espalhar para outras regiões da cidade, com surgimento de novas e pequenas – por enquanto – Cracolândias. Até quando a Prefeitura e o governo do Estado vão tolerá-las?

Para resolver o problema – como tudo mundo sabe, e há muito tempo – é preciso ao mesmo tempo reavaliar os programas de assistência social e médica desenvolvidos para a recuperação dos dependentes e iniciar, para valer, o combate ao tráfico local de drogas, o que é inexplicável não ter sido feito até agora. Essa última parte é a que pode produzir resultados mais rapidamente, porque se trata de uma área relativamente pequena, onde a identificação dos traficantes – que agem às claras – é fácil.

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