Ayrton Vignola/AE
Ayrton Vignola/AE

Crônica da exclusão escolar de Natasha

A saga da garota de 12 anos com dificuldade motora, barrada em escolas públicas e privadas

Ocimara Balmant, Especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2011 | 00h00

Na semana em que se comemorou o Dia Nacional de Luta pela Educação Inclusiva, 14 de abril, a reportagem do Estado acompanhou a saga de Natasha Pinheiro Batista, de 12 anos, e de sua mãe, Martinha dos Santos, por uma vaga na escola. Natasha sofre de paralisia cerebral, o que não lhe traz déficit intelectual, apenas dificuldade motora e de fala. Em vez do caderno, já que não consegue escrever, usa um notebook.

 

Terça-feira

 

Acomodada em seu carrinho elétrico, Natasha passa a tarde subindo e descendo as ladeiras próximas à sua casa, no Pacaembu. A cada letreiro com nome de escola, elas param.

 

Nas mãos, Martinha leva o laudo neurológico que atesta as condições de aprendizagem da filha. Mas papel não ajuda. Colégio nenhum - nem municipal, nem estadual, nem particular - se diz preparado para receber a criança.

 

A primeira tentativa foi num colégio particular tradicional do bairro, onde Natasha precisou esperar do lado de fora por causa das escadas logo na entrada. Na secretaria, a funcionária disse que havia vaga, mas seria necessário conversar com a diretora para saber se Natasha poderia estudar ali.

 

Quando viu mãe e filha, a diretora esclareceu que não havia vaga. A informação teria sido um equívoco da funcionária. Indagada se poderia ser feita uma pré-reserva para 2012, explicou que a escola exige uma prova de aptidão e o modelo pedagógico do colégio não seria adequado às necessidades da menina. "Sugiro que você procure um local preparado para esses casos. Sinceramente, acho prejudicial uma escola como a nossa para sua filha. Você ia expô-la a situações que ela não acompanharia."

 

Carrinho na rua, a procura continua. Uma quadra à frente, Martinha entra em outro colégio particular, desta vez bem pequeno. Parece perfeito. A turma do 6.º ano só tem quatro alunos e a diretora se prontifica a preparar provas especiais: com o mesmo conteúdo, mas em um formato acessível. Em vez de ter de responder a questões discursivas, Natasha faria prova de múltipla escolha.

 

Um detalhe, no entanto, atravanca a matrícula: Martinha precisaria acompanhar a filha ou providenciar um cuidador que ficasse o tempo todo na escola para carregar a garota na escada, levá-la ao banheiro e dar o lanche. "Se eu pudesse parar de trabalhar... Mas não posso."

 

Alguns quarteirões acima, chegamos à Escola Municipal Tenente José Maria Pinto Duarte. Por lá, as salas de aula ficam no primeiro e segundo andares. No térreo, só funciona a administração. Martinha já havia passado por ali na semana anterior e feito uma requisição de matrícula. A funcionária a atende outra vez e diz que a escola tem duas alunas especiais, mas que não são cadeirantes. Cortês, conta que trabalha no colégio há décadas e, quando era mais nova, aceitava cadeirantes e os carregava no colo. "Agora, não aguento mais."

 

Natasha também não. Mas ninguém a escuta e ela volta para casa chorando, mais uma vez.

 

Quarta-feira

 

Logo cedo, Martinha vai ao Centro de Formação e Acompanhamento à Inclusão da Prefeitura, o Cefai. Lá, encontra, por acaso, a diretora da escola municipal onde esteve no dia anterior. "Ela disse que se eu me prontificasse a ficar na escola levando a Natasha de um lado ao outro, ela faria a matrícula." Martinha aceita a proposta. O trabalho seria feito por uma prima, no momento desempregada.

 

Qunta-feira

No Dia de Luta pela Educação Inclusiva, Martinha chega à escola com a papelada. Sai chorando. A diretora não estava e um funcionário diz que não pode fazer a matrícula por causa da deficiência da garota.

 

Sexta-feira

 

A saga, com final improvisado, tem fim após o Estado confrontar as secretarias municipal e estadual de Educação. Martinha é autorizada a matricular a filha na escola municipal, desde que acompanhe Natasha escada acima até que a escola consiga um auxiliar de vida escolar (AVE), profissional contratado para ajudar as crianças portadoras de deficiências mais severas. Atualmente há 400 deles em toda a rede municipal.

 

A secretaria estadual informa à mãe que há vagas disponíveis em duas escolas completamente adaptadas que ficam a menos de três quilômetros da residência de Natasha. Nelas, a menina se locomoveria sozinha e teria acesso ao serviço de apoio pedagógico, mas não receberia atenção especial na hora de se alimentar e ir ao banheiro, por exemplo, já que não há cuidadores.

 

"Cada uma resolveu metade do problema. Na estadual, ela se locomove sozinha, mas não tem um cuidador à disposição. Na municipal, ela depende de ajuda para subir e descer as escadas, mas existe a esperança de chegar alguém para ajudá-la. Decidi enfrentar as escadas. Mas, fala a verdade, você acha que algum dia minha filha vai ter uma escola totalmente inclusiva?"

 

Leia também

 

- Para especialista, falta adequar escola e capacitar professor

- ‘Criança inclui; são os adultos que discriminam’

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.