Em 6 décadas de carreira, mais de 200 personagens

Além de ator, era escritor, compositor e pintor; após críticas públicas à direção da Rede Globo, em 2000, ficou restrito a participações esporádicas

Cristina Padiglione, O Estado de S.Paulo

24 Março 2012 | 03h01

Era Francisco Anysio de Oliveira Paula o nome registrado em cartório. Mas, em quase 81 anos de vida, o cearense nascido em Maranguape a 12 de abril de 1931 se fez chamar por mais de 200 nomes. Foi Professor Raimundo, Bozó, Painho, Coalhada, Alberto Roberto, Justo Veríssimo, Salomé, Bento Carneiro, Pantaleão, Nazareno, Haroldo e Azambuja, só para citar alguns. Mas foi como Chico Anysio que ele ficou famoso.

Emocionado, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, responsável pela ida de Anysio para a Globo, disse ao Estado ontem que estava no Fórum Mundial de Sustentabilidade, em Manaus, quando o empresário João Dória Jr. anunciou a morte do humorista. Fez-se um minuto de silêncio e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso lhe prestou uma homenagem. "Quatro mil pessoas aplaudiram o Chico de pé", contou.

Fazia mais de ano que Chico tinha a saúde frágil. Morando em São Paulo, com sua sexta mulher, a gaúcha Malga di Paula, de 40 anos, frequentava a ponte aérea desde o início de 2010, graças à decisão da Globo de finalmente reabrir a tampa do caixão de Bento Carneiro, o Vampiro Brasileiro. Após a primeira internação, trocou o vampiro pela gaúcha Salomé, protagonista de cenas mais cômodas, sempre sentada ao telefone.

Eram participações no Zorra Total - nada que se aproximasse de um programa solo, como os que ele fez desde os primórdios da TV até o ano 2000, quando foi confinado à geladeira da Globo. Até lhe dar uma vaga no calendário de especiais de fim de ano, em dezembro de 2009, a direção da emissora contou nove anos privando o telespectador de suas piadas. O freezer foi resultado de algumas entrevistas dadas por Anysio na época. A Globo disfarçava o castigo, aqui e ali, com participações esporádicas do humorista em minisséries e novelas. A última foi Caminho das Índias, em 2009, como pai de Radesh (Marcius Melhem).

Ainda em 2009, Anysio dublou o adorável ranzinza Karl, protagonista da animação vencedora do Oscar Up - Altas Aventuras. Também podia ser apresentado como compositor, escritor ou pintor, tendo promovido várias exposições de seus quadros. Nas suas contas, criou 209 personagens.

Chuteiras. A carreira artística começou na Rádio Guanabara, no Rio de Janeiro, para onde a família Anysio de Paula se mudou quando Chico tinha apenas 8 anos. Tornou-se vascaíno, só para contrariar, porque o pai era botafoguense e a família morava perto do Fluminense, clube onde fez amigos, cresceu e jogou bola à vontade.

Jogou até o dia em que, esperado para uma partida, foi até a sua casa buscar um par de tênis e deu de cara com a irmã Lupe, que saíra com um amigo para fazer teste na Rádio Guanabara. "Vou junto", disse Chico à irmã.

Aprovado para as funções de radioator e locutor, ele dizia sempre que tinha virado ator porque esquecera o tênis em casa. Mas, àquela altura, Anysio já havia vencido vários concursos de calouros imitando vozes famosas. Fazia Oscarito, Saint Claire Lopes, Rodolfo Mayer, James Mason, James Cagney e Luiz Jatobá. Passou ainda pela Rádio Mayrink Veiga.

"Ele sempre foi calado, na dele, nunca foi de exibições. Geralmente, todo comediante é meio contido, né?", afirmou Lúcio Mauro em abril passado, por ocasião dos 80 anos de Chico. Amigos de longa data, os dois contracenavam no antológico quadro de Alberto Roberto - "Não 'garavo'", dizia o bordão do galã atrapalhado.

Na era da chanchada no cinema nacional, nos anos 1950, ele escreveu e atuou em filmes da Atlântida. Estreou na TV em 1957 pela TV Rio, com o Noite de Gala. Em 1959, estreou no programa Só Tem Tantã, mais tarde batizado como Chico Total. Começou a pisar na Globo em 1968 e lá ficou.

"O Boni sempre disse que ele seria um fenômeno se tivesse nascido nos Estados Unidos", disse Carlos Manga, amigo e diretor seu desde os primórdios do videoteipe, na TV Rio. "Pois eu digo: se Chico Anysio tivesse nascido na Inglaterra, ele seria o Chaplin!", comparou. Foi Manga quem teve a ideia de aproveitar o recém-chegado videoteipe para fazer Anysio se desdobrar em personas. "Vi aquela máquina e pensei logo no Chico. 'E se eu te disser que posso botar você para contracenar com você mesmo?', perguntei a ele", contou Manga. Nascia ali, em 1960, o Chico Anysio Show.

Livro. Casado por seis vezes, lançou o livro Como Salvar seu Casamento, que ensinava dicas sobre uma boa relação. Mais 20 livros fecham a coleção de títulos de sua autoria, de biografias a volumes de anedotas.

Deixou dez netos e oito filhos: o ator Lug de Paula (da atriz e comediante Nancy Wanderley), o também ator e comediante Nizo Neto e o diretor de imagem Rico Rondelli (da atriz e vedete Rose Rondelli), André Lucas, adotado, o DJ Cícero Chaves (da ex-frenética Regina Chaves), o ator, escritor e comediante Bruno Mazzeo (da ex-modelo e atriz Alcione Mazzeo), além dos caçulas Rodrigo e Vitória (da ex-ministra Zélia Cardoso de Mello). Irmão da atriz Lupe Gigliotti e do cineasta Zelito Viana, era tio da diretora Cininha de Paula e do ator Marcos Palmeira.

Em agosto de 2010, convidado pelo Estado a participar dos Encontros Estadão & Cultura sobre os 60 anos de TV no Brasil, não pôde comparecer, pois estaria no Rio. Mas enviou antecipadamente uma pergunta para a discussão do dia: "Todas as TVs se fizeram grandes por meio do humor, mesmo hoje os seus maiores índices são conseguidos com programas de humor. Por que não são feitos mais programas de humor, quando temos um time de mais de 50 excelentes comediantes?". O assunto entrou em debate, sem que chegássemos a uma resposta.

Freezer da Globo. Há dois anos, eram os novos comediantes que dirigiam uma pergunta a Chico: por que ele estava fora do ar? Era a campanha "Volta, Chico", encabeçada por Vesgo e Ceará, do Pânico na TV, então pela RedeTV! "Talvez a Rede Globo esteja achando que eu já tenha feito por ela o suficiente e que eu deva ter um pouco de descanso. Eu não estou querendo esse descanso", disse Chico. A cena está no YouTube (http://migre.me/15N3q).

Em dezembro de 2009, quando a direção da Globo se rendeu ao mestre e lhe abriu uma vaga entre os especiais de fim de ano, viu-se, por cerca de uma hora, personagens das mais diversas etnias, estirpes e épocas a contracenar, todos na pele de Chico. Graças a recursos mais avançados que aqueles que Pantaleão conheceu em seu tempo, Chico dialogou consigo em todas os quadros e reuniu mais de uma dezena de tipos na sala do professor Raimundo.

Na ocasião, ao vestir o figurino da gaúcha Salomé, figura íntima de João Batista (o Figueiredo, bem entendido, último presidente do regime militar), telefonou para Luiz Inácio, o Lula, ainda presidente da República, e ouviu uma voz feminina do outro lado: "Dilma?", perguntou, antevendo a eleição da presidente.

O especial fez eco e a Globo resolveu resgatar Chico para o Zorra Total. Era o fim do jejum promovido pela Globo, ação endossada pela emissora em comunicado oficial em 2000, logo após uma entrevista do humorista à revista IstoÉ, com críticas ao novo modelo de gestão da emissora. "Pela primeira vez, em 47 anos de TV, trabalho numa casa onde ninguém tem acesso à pessoa que nos dirige", disse ele, sobre a então diretora-geral Marluce Dias da Silva, que substituíra José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni.

A Globo reagiu em nota: "Chico Anysio sistematicamente usa a imprensa para desrespeitar os telespectadores ao se manifestar de forma desabonadora com relação à empresa e seus colegas. (...) O artista vem se comportando de modo incompatível com os padrões éticos e de qualidade da emissora, o que exige a suspensão de sua participação na grade de programação. A TV Globo estuda outras medidas a serem tomadas em função desses acontecimentos."

No dia seguinte, Chico rebateu, também em nota: "Sou um artista que, em 53 anos de profissão, sempre expressei livremente meu pensamento sem intenção de desrespeitar ninguém, muito menos a Rede Globo, onde trabalho há mais de três décadas, tendo excelente e respeitoso relacionamento, principalmente com a alta cúpula, a quem sempre rendi homenagens como o melhor empregador que já tive. Como artista, meu único patrimônio é meu direito de pensar e dizer, já que, por ser um criador, isso é uma qualidade inata. A esse patrimônio não renuncio, mesmo em tempo de censura, como agora. (...) Estou tentando compreender os motivos que levaram a Rede Globo a agir desta forma que muito mais pune a ela do que a mim."

A Globo o manteve sob contrato, evitando sua ida para outros canais.

Para cerrar cortinas e encerrar qualquer discussão sobre as vertentes de humor, vale a frase do mestre: "Para mim, há dois tipos de humor: o engraçado e o sem graça. E eu fico com o primeiro".

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