Fassbinder, pelo amigo Ulli Lommel

Ator e diretor inaugura hoje programação especial dedicada ao autor: 'Sua grande arte era feita de confrontação', avalia

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

21 de outubro de 2009 | 00h00

Há pouco mais de uma semana no Brasil, Ulli Lommel está encantado com o País que conhecia somente de ouvir falar. Sua ligação com Rainer Werner Fassbinder o tem levado a todo o mundo para falar do diretor de quem foi amigo, colaborador, cúmplice. Ele já esteve no Rio e agora está em São Paulo por isso. Hoje, Lommel participa de uma sessão de pergunta e resposta com o público, após a exibição de O Amor É Mais Frio Que a Morte, no Centro Cultural Banco do Brasil. Amanhã, debate de novo a obra de Fassbinder e, na sexta, apresenta o próprio filme, A Ternura dos Lobos, no qual "Rainer", como ele o chama, com intimidade, tem um papel importante.

Onde o Brasil entra nisso tudo? "Nos EUA, na Europa - na França, por exemplo -, as pessoas têm uma percepção muito intelectualizada de Fassbinder. No Rio, as pessoas me pareceram muito intuitivas, mas foram perspicazes. Fizeram perguntas pertinentes de quem entendia a intenção da obra, e o autor." O repórter faz uma observação que parece superficial - 27 anos após sua morte, de overdose, em 1982, Fassbinder ainda desafia o mundo burguês. Os olhos de Lommel se iluminam. Fassbinder viveu 36 anos, fez 40 filmes e deixou o legado de uma das obras mais provocativas e duradouras do cinema. É sobre isso que Lommel está disposto a falar com o público.

Ele se lembra perfeitamente do seu primeiro Fassbinder. Já era um ator conhecido na Alemanha e foi procurado por aquele garoto, que o cooptou a fazer seu filme, O Amor É Mais Frio Que a Morte. Lommel chegou ao set de Fassbinder. Perguntou ao sujeito que encontrou onde estava a equipe. "A equipe sou eu", ele disse. "Mas o filme não tem travelling, maquinista? Quem carrega a câmera?", quis saber Ulli Lommel. "Os atores que não estão diante dela fazem isso." Foi o primeiro choque e houve outros. Fassbinder queria Lommel vestido de determinada maneira. "Não lhe disse que você viesse com um chapéu, assim-assim?" Está bem, onde está o responsável pelo guarda-roupa, quis saber o ator, acostumado às estruturas do cinema alemão. "Não tem responsável pelo guarda-roupa, você tem de comprar sua roupa ou trazê-la de casa."

Foi uma convivência extraordinária. Nos anos e filmes seguintes - mais de dez -, Lommel integrou a trupe de Fassbinder. No cinema, no teatro, no rádio. Fassbinder era workaholic. Às vezes, lá pelas 4 da manhã, Lommel reclamava que estava cansado. "Vamos dormir bastante quando morrermos", era, invariavelmente, sua resposta. Lommel já sobreviveu quase três décadas a Fassbinder. Como? "Ele tinha medo das drogas e foi vítima delas", Lommel resume. O homem morreu, a obra persiste. O cinema de Fassbinder era feito de confrontação, um ataque aos valores burgueses. Sua ambição era retratar a Alemanha na sua globalidade."

Lommel conta uma pequena história. "Michael Balhaus (o grande fotógrafo de Fassbinder) era casado. Sua mulher se ausentou por uma semana e ele logo se enrabichou com outra. Quando a mulher retornou, Fassbinder disse a Michael que lhe contasse a verdade. "Que verdade?", ela quis saber. O casamento acabou, Michael foi se queixar a Fassbinder. "Não é bom guardar segredos", disse o diretor. "Mas você tem os seus!", atirou-lhe Balhaus na cara. "É diferente", sentenciou Fassbinder." Ele nunca facilitou a vida dos que lhe eram próximos. Exigia ser amado incondicionalmente. Deixou uma obra que marcou a história do cinema - que envolve e distancia, faz refletir. Lommel se lembra de quando foram ver Imitação da Vida, de Douglas Sirk. Ficaram em silêncio. Rindo e chorando - o ideal do cinema, segundo Fassbinder. Não precisavam nem comunicar o que sentiam. Mais do que de arte, Lommel assegura ter tido lições de vida com o grande autor. Pegando carona no título do evento, Filmes Libertam a Cabeça, ele diz que nem todo cinema é libertário, mas o de Fassbinder, sim.

Serviço

Filmes Que Libertam a Cabeça: R. W. Fassbinder. Hoje, 15 h, Mamãe Kuster Vai ao Céu (1975); 17 h, O Medo do Medo (1975); 19 h, O Amor É Mais Frio Que a Morte (1969) e o curta O Pequeno Caos (1966), presença do ator Ulli Lommel. CCBB (70 lug.). Rua Álvares Penteado, 112, centro, tels. 3113-3651/3652. R$ 4. Até 8/11

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