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Luis Fernando Verissimo
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Iniesta

A filosofia do futebol do Barcelona pode ser resumida numa frase: “Deixa eles virem”. Os primeiros 15 ou 20 minutos de cada jogo são gentilmente cedidos ao adversário pelo Barcelona. E os adversários vêm. Surpreendidos pela própria facilidade em jogar e entusiasmados com sua superioridade ilusória, lançam-se ao ataque. E durante 15 ou 20 minutos vivem um sonho impossível, o de poderem ganhar do grande Barcelona! Depois de 15 ou 20 minutos de delírio, os adversários gastaram todas as suas forças, e então o Barcelona começa a triturá-los, lentamente, metodicamente, como uma jiboia digerindo um cabrito. Foi o que aconteceu no último domingo, com o River Plate no papel de cabrito.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

24 Dezembro 2015 | 02h00

Falam muito, com toda a razão, do espetacular trio goleador do Barcelona, Messi, Neymar e Suárez. Mas por trás deles está o cérebro ardiloso, e impiedoso, do Iniesta. Costuma-se comparar jogadores como o Iniesta a maestros no comando de uma orquestra. No caso do Iniesta, a comparação mais exata é com um inquisidor numa sala de torturas, escolhendo o martírio a que submeterá quem teve a ousadia de pensar que escaparia. E despachando friamente seu trio de carrascos para executá-lo. Nem sempre dá certo, claro. O Barcelona não é imbatível. Mas nenhum outro time do mundo está tão perto de ser.

A tática do “deixa eles virem” do Barcelona é a mesma usada há 40 anos, no Congo, que então se chamava Zaire, na mítica luta entre os pesos pesados Muhammad Ali e George Foreman pelo título da categoria. Durante sete rounds, Ali se deixou apanhar, levando socos do Foreman de todos os lados, escorando-se nas cordas e dando a impressão de que não teria como reagir. Mesmo se não conseguisse derrubar o adversário, Foreman certamente ganharia a luta por pontos.

Ninguém estava entendendo a tática suicida de Ali. Então, veio o oitavo round e um Ali incrivelmente inteiro, apesar de tanto apanhar, partiu para cima de um Foreman exausto de tanto bater, e o nocauteou. Depois da luta, Ali explicou sua estratégia. Foreman era mais moço e mais forte do que ele. O que mais ele poderia fazer?

Há uma lição, aí, em algum lugar, para a Dilma. Que, como se sabe, está nas cordas, levando pancada de todos os lados, até do PT. Falta-lhe uma estratégia para virar a luta, como a do Muhammad Ali. Ou talvez um Iniesta no seu time. 

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