‘Sem escuta, não há afeto’, diz Tony Ramos, que estreia peça com Denise Fraga sobre casal em crise

Galã da TV, ele quebra o jejum de 20 anos longe dos palcos com o espetáculo ‘O que Só Sabemos Juntos’, no Tuca, em São Paulo

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Por Dirceu Alves Jr

Na cena final do monólogo Eu de Você, apresentado entre 2019 e 2023, a atriz Denise Fraga convocava o público a olhar para o lado e se convencer de que estar acompanhado é sempre melhor, porque a beleza só se realiza na expectativa da reunião com o outro.

O ator Tony Ramos assistiu ao solo duas vezes, a primeira ainda em 2019 e a segunda no começo de 2022, na tímida retomada depois da pandemia que transformou o isolamento em condição de sobrevivência. “Já tinha gostado demais da peça, mas, nesta segunda vez, me senti realmente perturbado, aquilo mexeu comigo”, diz o artista, aos 75 anos.

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Denise, de 59, não disfarça o riso tímido, quase infantil, e acha graça quando o colega revela o seu estado de inquietação diante daquele seu trabalho. “Acho tão bonito quando ele fala isso, de ter se sentido per-tur-ba-do”, comenta, ressaltando a palavra, admirada, diante de um dos ícones da teledramaturgia brasileira.

Sim, agora Tony e Denise são colegas de fato, convivem diariamente há dois meses e estreiam nesta sexta, 26, o espetáculo O que Só Sabemos Juntos no Tuca, em São Paulo, com mais de 12 mil ingressos vendidos antecipadamente - e que estão quase esgotando - para a temporada que se estende até 30 de junho. Eles realmente não estão sozinhos e encontraram uma plateia cúmplice para participar desta reunião.

Denise Fraga e Tony Ramos estrelam a peça 'O Que Só Sabemos Juntos' no teatro Tuca, em São Paulo. Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Sob a direção de Luiz Villaça, companheiro de vida e arte da atriz, a montagem tem texto final do casal e de Vinicius Calderoni e leva à cena problemas decorrentes da falta de escuta. Reflexões sobre cotidiano, sexismo, meio ambiente, etarismo e patriarcado, entre tantas outras pautas, aparecem em meio a história de um casal que atravessa a peça em constantes discussões. Uma banda de três instrumentistas mulheres, sob a direção musical de Fernanda Maia, completa o elenco.

“Não é apenas a história de um homem e de uma mulher que são casados, mas a representação do desencontro da palavra e da eterna busca e frustração de ouvir e ser ouvida”, sintetiza Denise. Tony, com a natural gentileza, pede licença para completar a opinião da parceira de cena: “São considerações sobre comportamento e afeto, porque onde não há escuta, infelizmente, não há afeto.”

O eterno galã das novelas não pisava em um palco há duas décadas. A última peça foi Novas Diretrizes em Tempos de Paz, em que dividiu o protagonismo com Dan Stulbach entre 2002 e 2004. Nesse período, enfileirou novelas e séries de televisão, como A Mulher do Prefeito, em que contracenou com Denise em 2013, e filmes, a exemplo de 45 do Segundo Tempo, dirigido por Villaça e lançado em 2022.

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Na noite em que viu Eu de Você pela segunda vez, Tony convidou o casal para jantar e, encorajado por sua mulher, Lidiane, lançou uma ideia, meio pisando em ovos. “Para voltar ao teatro, não queria uma coisa inquisitiva, mas gostaria de um projeto que propusesse algo diferente não só a mim, mas também ao espectador, vamos pensar juntos”, propôs. Desafiado, Villaça regou a semente com um “vamos nessa!” e, seis meses depois, apresentou a Tony um esboço do que seria O que Só Sabemos Juntos.

Tony Ramos, Denise Fraga e o diretor Luiz Villaça com cadeiras do cenário da peça 'O Que Só Sabemos Juntos'. Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Cineasta com vasta bagagem no audiovisual, Villaça começou a se dedicar ao teatro no começo da década de 2010 e dirigiu, entre outros espetáculos, Sem Pensar, A Visita da Velha Senhora e, claro, Eu de Você, todos protagonizado por Denise. “É apaixonante fazer esse plano-sequência que dura duas horas e pode um dia sair maravilhoso, no outro não dar tão certo e depois ficar perfeito de novo”, diz ele, comparado com a técnica cinematográfica em que não há nenhum corte de cena.

O jeito provocativo de Denise trabalhar, Villaça conhece melhor que a palma da mão, mas não sabia o que esperar de Tony em uma sala de ensaios – ainda mais em uma dramaturgia que seria finalizada durante o processo. A disponibilidade do artista foi, no mínimo, admirável. Ele encerrou as gravações da novela Terra e Paixão na metade de janeiro, pediu quinze dias para descansar e embarcou no novo trabalho.

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“Tony poderia escolher qualquer peça, um clássico talvez, então foi emocionante vê-lo rolando no chão, dançando, mergulhado em tudo o que era proposto”, conta o diretor. “Sem falar que o Tony é uma máquina de decorar texto, fiquei impressionada com a facilidade dele”, reforça Denise.

Se a memória da dupla é boa, logo ela também ajudou na criação da dramaturgia. Foi feita uma brincadeira para descobrir o que cada um sabia sobre o outro e talvez eles mesmos nem imaginassem. Tony revela que as primeiras imagens da colega vêm associadas a muitas gargalhadas na comédia teatral Trair e Coçar... É Só Começar e nos esquetes do programa humorístico TV Pirata.

Tony Ramos volta ao teatro após 20 anos longe dos palcos. Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Denise, por sua vez, causou espanto na equipe com uma confidência. Em 1988, a iniciante fez uma ponta na minissérie O Primo Basílio, adaptação do romance de Eça de Queiroz. Para a gravação de uma cena decisiva, em que Jorge (o personagem de Tony) lia uma carta que revelava o adultério cometido por sua mulher (papel de Giulia Gam), o diretor Daniel Filho evacuou o estúdio e deixou só o intérprete e o câmera – nada podia atrapalhar a concentração de Tony. Denise ficou escondida em um canto do set e, sem ser notada, testemunhou a filmagem. “Foi uma das coisas mais lindas que já vi, um ator imenso fazendo o melhor teatro naquele estúdio de televisão”, elogia ela.

Tony relembra orgulhoso o trabalho em O Primo Basílio, mas garante que não faz diferença entre os tantos e diferentes personagens defendidos em seis décadas de carreira. “Eu faço qualquer novela como se fosse um texto de Anton Tchekhov”, diz ele, em referência ao clássico dramaturgo russo, que, aliás, aparece em O que Só Sabemos Juntos por meio da leitura de um trecho da peça Tio Vânia. “Eu tenho 75 anos, quero sempre me inquietar, mas o que me estimula como artista é perceber que o espectador virou a chave junto comigo”, completa.

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O que Só Sabemos Juntos

  • Tuca (Rua Monte Alegre, 1024, Perdizes)
  • Sexta, 21h; sábado, 20h, domingo, 17h. Até 30 de junho
  • R$ 40 a R$ 150
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